O conflito no Irã vem causando preocupações no mercado de fertilizantes, com alta de preços desde os primeiros dias de bombardeio, mas acima de tudo provocando um cenário de grande incerteza para as principais fabricantes globais.
A norueguesa Yara é uma das maiores do mundo em fertilizantes nitrogenados, o segmento mais impactado pela guerra, mas no Brasil também possui forte atuação em outros tipos de adubo, como o composto NPK, que combina nitrogênio, fósforo e potássio.
“A gente vê uma alta relevante (de preços), em torno de 100 dólares por tonelada em alguns produtos. E muda todo dia. É difícil, por isso que a gente faz reuniões diárias para a avaliar custo e ver como está a disponibilidade no mercado”, contou Diogo Rezende, VP de vendas da Yara Brasil, em conversa com o AgFeed, durante a Expodireto Cotrijal, feira realizada no Rio Grande Sul, na semana passada.
Do volume total de adubos que a empresa comercializa no Brasil em torno de 60% são variações do NPK. O restante seriam os nitrogenados produzidos pela própria Yara.
O executivo diz que o desafio maior tem sido a compra dos fosfatados. Antes da guerra, o mercado já vinha lento, já que a relação de troca não estava favorável ao produtor em função de o preço do adubo estar elevado.
O ácido fosfórico é usado na produção de baterias de lítio, por isso o agronegócio ganhou um forte concorrente no acesso ao produto, o que puxa ainda mais a alta de preços.
“A China também vem bloqueando as exportações de fosfatados para o mercado internacional. Então, isso pressionou o preço. Agora, com a guerra, isso piorou, porque alguns produtores também não conseguem escoar produtos, alguns produtores árabes”, explicou Rezende.
Ele diz que nesse cenário “há uma certa escassez para tomar posição no mercado” de fosfatados, mas garante que a Yara ainda não encontra grandes dificuldades para abastecer sua fábrica em Rio Grande (RS). Lá a rocha fosfática importada é transformada em fertilizante granulado, que é vendido para todo o Brasil.
Os nitrogenados e a alta do gás natural
Globalmente, a Yara se destaca pela produção de fertilizantes nitrogenados. Para estes produtos, quase 80% do custo de matéria-prima é o gás natural, um combustível fóssil que tem seu mercado fortemente impactado pela guerra.
“Se eu tenho um 30%, 40% de alta no custo do gás, aí os custos vêm para o mercado. É uma commodity, ele vai ser repassado”, afirmou.
Em encontro com jornalistas na Expodireto, o VP de marketing e agronomia da Yara Brasil, Guilherme Schmitz, lembrou que o gás estava US$ 12 e agora chega a US$ 22 por MMBtu.
Se o conflito se prolongar e preço do gás continuar subindo, é possível que se repita um cenário de paralisações de fábricas visto no começo da guerra entre Rússia e Ucrânia.
“A gente viu isso na guerra da Ucrânia, quando o gás subiu demais na Europa e até a disponibilidade reduziu. A gente teve algumas plantas, não só da Yara, mas do mercado, que pararam de produzir e hibernaram um pouco. Porque acaba não compensando nem comercializar, porque o produtor também para de comprar. Uma hora vai fazer conta e ela não vai fechar”, alertou.
A Yara garante que não compra matérias-primas dos países árabes, por isso não seria afetada diretamente por algum produto que deixou de passar pelo Estreito de Ormuz. A companhia se abastece, principalmente, pelo gás da Europa.
De qualquer forma, o impacto ocorre via preço no mercado como um todo. A ureia, por exemplo, que é referência nos nitrogenados, já subiu de US$ 500 para US$ 700 a tonelada.
“Hoje a gente não tem dependência, mas é óbvio que o que vai impactar é o custo do gás. Pode impactar a produção, a rentabilidade das plantas e até inviabilizar alguma planta que daqui a pouco pode até hibernar, aconteceu isso na guerra anterior”, reforçou.
Apesar deste alerta, os executivos da Yara dizem que hoje a empresa está mais preparada para enfrentar o cenário de alta volatilidade e eventual escassez.
“Hoje eu falo que o modelo é mais resiliente, porque a gente diversificou fornecedores, é menos dependente de produtos de terceiros. Então, a Yara trabalha muito com produtos próprios, das plantas de produção da Europa e Rio Grande. Hoje a gente tem 3 plantas de produção no Brasil, que é Rio Grande, Ponta Grossa e Cubatão”.
“A gente tem um modelo que é mais estável e mais resiliente a essas crises geopolíticas globais. Quem trabalha com produtos do Irã vai sofrer um pouco mais. Hoje a gente tem lista de preços, na própria Expodireto comercializamos normalmente. Mas é difícil, se essa guerra perdurar, saber o quanto as empresas vão conseguir segurar o custo ou repassar integralmente”, acrescentou.
Mercado brasileiro (ainda) pode crescer
Apesar da alta de preços, Diogo Rezende diz que o mercado de NPK “rodou muito” nas últimas duas semanas, especialmente em Mato Grosso. Houve uma certa pressa de alguns produtores de garantir o adubo em meio às incertezas que a guerra traz ao fornecimento.
Ainda assim, o nível de compras está abaixo do ano passado. Segundo a empresa, a estimativa é de que 30% do que vai ser necessário para a safra 2026/2027 já tenham sido adquiridos. Nesta época de 2025 as vendas estavam em 40%.
“É natural, porque pela incerteza de disponibilidade de produto e também para garantir um custo menor com as altas do preço, alguns produtores, talvez mais capitalizados ou que estão avaliando uma relação de troca, que têm soja disponível para fazer troca, acabam tomando posição”, pontuou.
Os dados mais recentes divulgados pela Anda – Associação Nacional de Difusão de Adubos – que representa a indústria – indicaram que as entregas em 2025 no Brasil atingiram 49,11 milhões de toneladas, o que representou uma alta de 7,7% em relação ao ano anterior.
Perguntado se há chance do mercado empatar ou mesmo superar este volume em 2026, Diogo Rezende respondeu: “eu diria que sim”.
“Tem chance de crescer. Até pelas próprias expansões de áreas naturais que tem no Brasil, de pastagem degradada, ainda continua tendo muita conversão de pastagem para a agricultura. Então, a área de soja já aumenta, a gente vê que o consumo de fertilizante no Mato Grosso aumentou bastante. Em algumas áreas ainda a gente vê crescimento”, argumentou.
A exceção seria o Rio Grande do Sul, estado que foi mais afetado por problemas climáticos nas últimas safras.
Segundo os dados da Anda, os gaúchos consumiram 4,8 milhões de toneladas de adubos em 2025. “Foi uma pequena redução em relação a 2024, que ficou em torno de 5,1 milhões. Mas, por tudo que o Rio Grande do Sul passou, poderia ter sido maior essa redução”.
O desempenho do mercado, porém, vai depender da duração e do impacto da guerra, ele admite. Por isso, a Yara criou diversos comitês que se reúnem diariamente para monitorar a situação.
A avaliação é de que não apenas o fertilizante, mas também outros insumos, como o óleo diesel, devem pesar mais no custo de produção agrícola. Ao mesmo tempo, o cenário de alta nos juros e dívidas ainda elevadas, poderiam fazer com que o agricultor decida colocar menos adubos nas lavouras – situação assim ocorreu em 2022.
Resumo
- Conflito no Irã elevou o preço de fertilizantes e do gás natural, insumo-chave para nitrogenados produzidos pela Yara
- Se o gás continuar subindo, fábricas de fertilizantes podem reduzir ou parar operações, como ocorreu após a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022
- Apesar da volatilidade, o mercado brasileiro ainda mostra compras relevantes e pode até crescer, segundo estimativas da Anda