A soja vira óleo, que vira biodiesel e tem a glicerina entre os coprodutos. Mas essa transformação não para por aí. É cada vez maior a demanda global, especialmente da China, por um item com ainda mais valor agregado: a glicerina bidestilada, ou refinada, como é conhecida no mercado.

A gigante global de agronegócio ADM está de olho nessa oportunidade e vem investindo para produzir e exportar esse produto.

Em 2023, a ADM adquiriu a Buckminster Química, com sede em Macatuba (SP), especializada na produção de glicerina refinada vegetal

A multinacional também atua neste segmento nos Estados Unidos e na Europa, por isso buscava a “verticalização” também no mercado brasileiro.

“Essa aquisição foi muito nessa linha de seguir uma estratégia de investimentos para agregar valor a alguns produtos da companhia”, disse Lucio Lemos, gerente de negócios da ADM Buckminster, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Antes da compra da Buckminster, toda a glicerina bruta gerada no processo de fabricação do biodiesel pela ADM no Brasil era vendida para outras empresas, inclusive exportada para a China.

“No processo do refino do biodiesel, quando ele sai da indústria, entre 10% e 12% do óleo que é processado se torna glicerol, que é a glicerina bruta, ou muito conhecida no mercado como glicerina loira”, explicou Lemos.

Há cerca de 20 anos, quando começou o programa de biodiesel no Brasil, a glicerina na indústria era um resíduo de pouco valor, quase um problema para algumas empresas, porque precisava ser retirada rapidamente e o custo logístico nem sempre compensava.

Ao longo do tempo, porém, o mercado foi valorizando esse coproduto, que ficou mais sofisticado e hoje conta com uma série de certificações de qualidade e sustentabilidade.

“Depois da aquisição dessa indústria aqui no Brasil, nós passamos a realizar um processo que é a bidestilagem da glicerina. Você refina, deixa o produto adequado aos padrões de classificação, segurança, especificidades e, a partir daí, tem um produto muito nobre, que vai para alimentação humana, animal, e é muito utilizado na indústria de cosméticos, farmacêutica, home care, oral care, entre outros”, explicou Lemos.

Ele diz que, possivelmente, no dia a dia, cerca de “20 produtos que a gente toca ou consome tem grande chance de conter o glicerol”.

Tanto o produto “bruto” quanto o refinado estão sendo cada vez mais exportados pelo Brasil. Em 2025, o Brasil bateu o terceiro recorde consecutivo nas exportações de glicerina.

Foram 821,6 mil toneladas embarcadas, um volume 8 vezes maior do que o País vendia há 15 anos. Na comparação com 2024, houve um acréscimo de quase 100 mil toneladas.

Deste montante, 676,7 mil toneladas – 82,3% do total – são de glicerina bruta. Já a glicerina destilada respondeu por 17,6% das exportações, contabilizando 144,9 mil toneladas em 2025.

Segundo o diretor da ADM, a glicerina em geral tem mais de 1,5 mil aplicações. Na China, além do uso em cosméticos e alimentação, há também a utilização cada vez maior no setor químico.

A crescente demanda chinesa tem como um dos impulsos o aumento da fabricação de um produto chamado epicloridrina, feito à base de glicerina bruta, que é usado na indústria química e de cosméticos, mas também é bastante aplicado na construção civil.

“A China tem utilizado mais essa glicerina do Brasil, por questões de qualidade e também de impostos. Teve muita mudança no mercado internacional e a glicerina sul-americana ficou um pouco mais barata. É a fabricação de epicloridrina na China que dita muito o ritmo e velocidade dos negócios e principalmente a precificação”, pontuou.

O executivo lembra que 70% do biodiesel produzido no Brasil leva como matéria-prima, “não exclusiva”, o óleo de soja. “Mas os dados apontam que, no total, apenas 20% da produção de biodiesel usa exclusivamente óleo de soja”.

A informação é importante para explicar a demanda pela glicerina refinada, produzida pela ADM, que cumpre uma série de exigências das certificações. “Ela é um produto extremamente certificado, o nível de rastreabilidade altíssimo, nós temos mais de 10 auditorias por ano aqui”, disse.

Há certificações específicas de terminados mercados ou nichos, como halal, produto vegano, exigências da indústria farmacêutica, dos EUA e da Europa.

Como a glicerina bidestilada vai para um nicho mais restrito, envolve mais desafios, principalmente a rastreabilidade da soja, por isso é feita 100% na ADM a partir da oleaginosa.

A glicerina da ADM é testada na saída e na chegada ao destino para garantir que não há traços de origem animal na sua composição.

“É um fato que o mercado da indústria farmacêutica, cosmético, que tem demandado muito mais a glicerina de soja, que é uma glicerina sustentável. Isso está muito mais claro e regulamentado”.

Apesar da glicerina da ADM ser 100% vegetal e de soja, o gerente admite que ainda é difícil “capturar valor” ou receber algum prêmio por esse produto. “Normalmente, o que a gente tenta fazer? Encontrar clientes que enxergam o valor nesse tipo de produto”.

Pronta para a expansão

A capacidade da ADM de produção anual da glicerina bidestilada está em 45 mil toneladas e está sendo 100% utilizada, segundo Lemos.

Ele informou que houve um aumento de 13% na produção da ADM Buckminster em 2025, na comparação com o ano anterior.

Já na glicerina bruta ele não detalha números e diz que a capacidade “está muito atrelada ao processo de produção do biodiesel, por isso varia muito”.

O fato é que, com a demanda crescente no mundo e a possibilidade de aumento na produção de biodiesel, a multinacional já avalia expandir a capacidade de produção de glicerina bidestilada no Brasil.

Lucio Lemos disse ao AgFeed que a Buckminster, percentualmente, foi a unidade de negócio que mais cresceu na ADM do Brasil em 2025. “As outras estruturas já estão muito bem consolidadas e esse é um negócio em expansão”.

A empresa não revela qual seria esse percentual de crescimento em receita, nem os números absolutos.

“Tudo que a gente tem capacidade de produzir, a gente está rodando. Há estudos pra gente avaliar a ampliação da planta”, afirmou.

Um elemento determinante neste cenário é o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao óleo diesel comum, que hoje está em 15%.

A política atual do Brasil previa o aumento para o B16, já em março, mas o setor ainda aguarda uma reunião do CNPE que foi marcada para os próximos dias. Em meio à guerra no Irã, com o encarecimento dos derivados do petróleo, lideranças do agronegócio têm defendido até acelerar para o B17.

“Quando a gente fala em crescimento, se entrar o B16 agora, em 2026, existe uma tendência de um aumento talvez de 60 a 70 mil toneladas, até 80 mil toneladas de glicerina bruta no mercado”, afirmou.

Não há uma pesquisa específica para o segmento, mas Lucio Lemos calcula que a produção de glicerina no Brasil esteja em torno de 1,1 milhão de toneladas.

Globalmente, o executivo diz que os dados apontam para um mercado que ultrapassa US$ 3 bilhões. “E existe uma expectativa que ele deva crescer até 2035 em 70%, ou seja, passando de 5 bilhões de dólares”.

Boa parte deste mercado está na Ásia e mais concentrado em glicerina bruta, mas na Europa, Estados Unidos e México, estão os interessados no produto mais nobre, refinado.

“Na medida que o B16 e B17 avancem, consequentemente você vai ter um incremento de matéria-prima. E nós temos, sem dúvida nenhuma, esse olhar sobre a possibilidade de ampliar essa fábrica”.

Lemos acredita que um cenário de B16 já seria suficiente para justificar um aumento de 20% na produção da ADM Buckminster.

Para justificar novos investimentos, a empresa conta com um apetite cada vez maior de setores como fármaco, cosmético, alimentação humana, alimentação animal, home care, oral care, e também indústria química de alta performance, pela glicerina vegetal e certificada.

Em alguns mercados, os produtos são misturados, como para produzir um sabonete, envolvendo ainda a presença de glicerina de origem animal, mas a tendência vegana e de comprovação da sustentabilidade, é um fator a favor da glicerina feita de soja rastreada, com certificação de padrões de qualidade e pureza.

Resumo

  • ADM investe na produção de glicerina bidestilada após adquirir a Buckminster Química, agregando valor ao coproduto do biodiesel.
  • Exportações brasileiras de glicerina seguem em alta, impulsionadas sobretudo pela China e por indústrias química, cosmética e farmacêutica
  • Com capacidade anual de 45 mil toneladas já totalmente utilizada, a empresa avalia ampliar a produção no Brasil diante do crescimento esperado do mercado