“O que era bom de ter, agora vai ter que ter”. Carlos Barbosa, fundador e CEO da Aliare, companhia que reúne soluções de software para o agro, resume assim a nova avenida de crescimento que enxerga para o seu negócio.

O caminho foi aberto pela reforma tributária que entra em vigor este ano e que vai demandar dos produtores rurais, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, mais controle da gestão de suas propriedades e atividades, sob o risco de perder benefícios e pagar mais impostos.

“O produtor, mais do que nunca, vai precisar de uma boa solução de gestão”, prossegue Barbosa. “Se não tiver, ele vai perder, vai perder competitividade na largada, por conta de coisas simples, como a falta de gestão adequada de créditos tributários que a reforma traz”.

A oportunidade, assim, se coloca à mesa das empresas do setor de software e a Aliare não perdeu tempo. Uma das prioridades de 2026 da empresa é reforçar o trabalho de levar ao produtor a mensagem de que a reforma traz, para ele, uma ampla mudança na questão da gestão tributária e fiscal e que 2026 é o ano de se preparar para isso.

Dentro da Aliare, o tema reforma tributária é transversal a todas as verticais, já que ela afeta todos os segmentos indefinidamente. Mas tem especial atenção dentro da MyFarm, a plataforma voltada para a gestão de propriedades rurais.

Nos primeiros meses de 2026 a companhia comemorou ter atingido a marca de 5 milhões de hectares gerenciados com o uso dos softwares embarcados na plataforma. E, com o novo impulso esperado, espera fechar o ano com um crescimento expressivo, de 60%, atingindo uma meta de 8 milhões de hectares.

Além da reforma tributária, o ambiente de crédito mais seletivo também tem ajudado como argumento de vendas. Leandro Xavier, diretor executivo da vertical Produtor Rural da Aliare, diz que, entre os cerca de 500 produtores médios e grandes que já utilizam a plataforma, além de ganhos de rentabilidade oferecidos por uma melhor gestão das fazendas – que, segundo ele, chegam a 15% graças a um melhor controle de todos os processos da operação – a ferramenta tem sido importante na melhora da relação de seus clientes com os fornecedores de crédito.

“A gente tem todo o compliance fiscal e contábil dentro da plataforma”, diz Xavier. Na MyFarm, afirma, o produtor consegue extrair documentos essenciais para comprovar sua saúde financeira e seu histórico de produtividade, fundamentais para que consiga melhorar seu rating de crédito junto a bancos e revendas e, assim, obter melhores condições nos financiamentos.

“Nosso desafio não é só ser um fornecedor que vai ajudar o produtor a atender essa necessidade tributária, mas é mostrar para ele que, com o software, ele pode melhorar a sustentabilidade do negócio dele”.

A visão da Aliare é de que a nova lei tributária, que vai fazer com que cada produtor rural passe a ter um CNPJ a partir deste ano, vai contribuir para que muitos deles, que ainda misturam os negócios com as contas pessoa física, passem a olhar as duas frentes de forma separada, também de olho nas novas obrigações. E, com isso, preceba a importância de ter ferramentas de gestão ao seu alcance.

Agora, por exemplo, ele terá de fazer apurações mensais de créditos e débitos e, para isso, diz Xavier, terá que saber de quem ele está comprando, para quem ele está vendendo. Isso, além de fazer diferença no cálculo de sua situação tributária, permitirá a ele tomar decisões práticas mais vantajosas. “Ele vai perceber, então, que às vezes comprar de uma cooperativa vai ser mais benéfico do que comprar de uma revenda, ou vice-versa”, aponta o executivo.

Para atender a essa nova demanda, os softwares da Aliare, entre eles os integrados na plataforma MyFarm, estão passando por atualizações. Atualmente, por exemplo, eles já incluem os novos tributos criados pela reforma, o IBS e o CBS, na emissão das notas fiscais

“A gente está preparado e muita coisa sendo preparada nesse ano para 2027. Isso é a virada total. Tem um cronograma bem pesado para as empresas de software”, afirma Xavier.

Com todas essas novidades, o planejamento estratégico para a vertical de produtor rural da Aliare prevê um incremento de 25% a 30% nas receitas, quase três vezes o crescimento de 2025, que ficou na casa dos 10%.

Na vertical, além do MyFarm, está o AgriManager, um ERP que atende produtores de várias culturas, como grãos e algodão, que, também possuem outras estruturas como algodoeira, sementeira e armazéns. Emtram nessa área ainda soluções de BI e de receituário agronômico, entre outras complementares ao MyFarm.

O crescimento mais rápido não é exclusivo da vertical voltada ao produtor rural. Segundo o CEO, o orçamento de 2026 da Aliare projeta uma receita bruta anual de R$ 230 milhões. Seriam 23% acima dos R$ 185 milhões realizados em 2025.

“Pode ser um pouco mais, dependendo de aquisições que ainda aconteçam. São 23% de crescimento orgânico”, ressalta Barbosa.

A Aliare fechou 2025 com crescimento de 16,5%. O ano marcou também uma das principais aquisições da história da companhia. Em outubro passado ela anunciou a compra da Agrometrika, que abriu para a empresa as portas do mercado de gestão de risco para crédito no agro.

Segundo Barbosa, a Aliare está no processo final de integração da empresa comprada, em uma fase que ele chama de “harmonização” com os programas da Aliare.

“Em breve, a gente vai ter novidades importantes para comunicar, que se conectam com essa integração mais profunda entre o tema crédito, o tema gestão comercial e o tema gestão operacional, gestão base dos negócios de distribuição, cooperativas, concessionários, e que, de alguma maneira, também vai mexer na forma como esse assunto crédito chega no produtor”, diz o empresário.

Para 2026, Barbosa tem expectativas também no segmento de cooperativas e agroindústrias, vertical que, segundo ele, terá seu primeiro “ano cheio”.

“A partir desse crescimento mais forte em produtores e em cooperativas, a gente está com um projeto de 2026 mais ambicioso, apesar do cenário ainda bastante desafiador para o setor”.

A Agrometrika, por exemplo, que tinha entre seus principais clientes as revendas de insumos, sofreu com o baque das crises de empresas como AgroGalaxy, Lavoro e Nutrien.
Mas Barbosa avalia que, à medida em que elas reduzem seus negócios, abrem espaço para que outras comecem sua jornada de evolução, “inclusive, de gestão”.

“Algumas vão ter uma jornada mais acelerada, porque os criadores são já experientes, já fizeram isso uma vez e estão voltando”, diz ele sobre os empresários que venderam seus negócios para esses grandes grupos e estão retornando ao mercado nos vazios deixados por eles.

Além disso, pontua Barbosa, há muitos negócios novos surgindo também nesses espaços, criados por vendedores, gerentes, agrônomos que estão saindo dessas empresas para empreender. “Perdemos de um lado, ganhamos de outro” resume Barbosa.

No terreno das aquisições, o empresário promete manter o apetite. Segundo ele, o trabalho de prospecção de oportunidades feito nos anos passados identificou uma série de empresas que despertaram seu interesse.

A conversas em andamento e Barbosa revela que algumas delas “estão chegando no estágio de maturidade para a gente no primeiro semestre ainda ter alguns anúncios importantes”.

Com isso, o CEO espera colocar a Aliare na ponta de um processo de consolidação que começa a ocorrer no setor de softwares de gestão para o agro. Outros players importantes têm feito aquisições e aquecido uma corrida pelos principais ativos.

Barbosa avalia que há empresas que já se mostram bem-sucedidas e cujos fundadores, sem uma sucessão definida, já começam a pensar em encontrar um comprador. Ele está atento.

Resumo

  • Reforma tributária exige maior controle fiscal e contábil dos produtores, ampliando busca por softwares de gestão
  • Impulsionada por essa oportunidade, Aliare quer elevar área gerida pela plataforma MyFarm de 5 para 8 milhões de hectares em 2026
  • Companhia projeta receita de R$ 230 milhões em 2026 e reforça estratégia de aquisições no setor