Com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, e as retaliações já vistas durante o fim de semana, o mercado já dava como certo efeitos significativos nos preços do petróleo e seus derivados.

]Na agricultura, a maior preocupação, desde os primeiros bombardeios, era com os fertilizantes nitrogenados, que são produzidos a partir do gás natural, e tem o Irã como um dos principais fornecedores globais destes produtos.

E desta vez não foi só ameaça, os preços da ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado na agricultura do Brasil e do mundo, efetivamente subiram, nesta segunda-feira, 2 de março.

Segundo a Argus, agência de preços especializada em commodities, as cotações no Brasil acompanharam a alta que foi verificada em outros mercados globais produtores e consumidores desses adubos, “porém a maior parte dos participantes retirou ofertas de compra e de venda para os portos brasileiros”, destacou a editora de grãos e fertilizantes, Renata Cardarelli.

A especialista relata que os produtores de ureia do Oriente Médio retiraram ofertas de venda do mercado, em meio à escalada das tensões na região, avaliando a disponibilidade do nitrogenado nos estoques e mais clareza sobre a logística, especialmente considerando a passagem pelo Estreito de Ormuz e o custo do frete marítimo.

O Oriente Médio é a maior região exportadora de ureia, com cerca de 20 milhões de toneladas por ano, o que representa 35pc do comércio marítimo global. Irã e Omã responderam por 18,4pc das importações de ureia feitas pelo Brasil em 2025, somando 1,5 milhão de t das 8,2 milhões de t recebidas em 2025.

“Em meio a incertezas geopolíticas, os preços de ureia granulada subiram para $500-550/t cfr Brasil em comparação com $475-485/t cfr em 27 de fevereiro”, reportou Cardarelli.

Outro fertilizante nitrogenado bastante usado no agro é o sulfato de amônio, que também subiu, passando de $205-215/t cfr Brasil em 27 de fevereiro, para $220-230/t cfr hoje. “A alta reflete indicações mais altas do adubo na China, principal fornecedor do fertilizante para o Brasil”, segundo a Argus.

A Argus informou que, entre os fertilizantes fosfatados, os preços de MAP 11-52 não tiverem alteração, ficando estáveis, em $730-740/t cfr Brasil.

“A situação no Oriente Médio deixou participantes do mercado de fosfatados em compasso de espera, aguardando os efeitos do conflito no fornecimento, especialmente na Arábia Saudita. Em 2025, o país respondeu por cerca de 24% das importações de MAP 11-52 do Brasil, somando 784.648t das 3,3 milhões de toneladas recebidas”, explicou Cardarelli.

As operações de carregamento no porto de Ras Al-Khair, na Arábia Saudita, estão ocorrendo normalmente no momento. No entanto, as cargas embarcadas em Ras Al-Khair precisam passar pelo Estreito de Ormuz para chegar aos seus mercados de destino. Interrupções no comércio através do estreito afetariam os embarques sauditas, apertando o balanço no mercado global de fosfatados.

A faixa semanal da Argus para o MOP, que é o cloreto de potássio, fechou em $370-380/t cfr.

“Participantes indicam que os preços não do MOP foram afetados por enquanto, mas antecipam, em grande parte, custos mais altos de fertilizantes e de frete marítimo, o que aumentará ainda mais as preocupações com a acessibilidade econômica dos preços de fertilizante”, disse João Petrini, editor assistente de grãos e fertilizantes da Argus.

A produtora israelense de fertilizantes ICL e a produtora jordaniana de potássio APC estão operando normalmente e não há interrupções no transporte marítimo partindo de Israel e Jordânia, segundo ele.

Produtores dos EUA são mais impactados no momento

Para o especialista em fertilizantes da Agrinvest, Jeferson Souza, o prejuízo imediato ocorre para os produtores norte-americanos, que estão prestes a plantar o milho, cultura que mais utiliza ureia na adubação.

Ele relata um aumento de U$ 70 por tonelada na ureia vendida nos EUA nesta segunda-feira, se comparada à cotação da última sexta-feira.

Já no Brasil, segundo o analista, a maioria das empresas estava “sem lista”, ou seja, preferiu não apresentador indicações de compra ou venda, em função do momento de incertezas.

“Algumas indicações que tiveram aqui para o Brasil apontaram aumento de 30, 40 dólares por tonelada na ureia, mas totalmente instável, cada um analisando caso a caso. A demanda no Brasil é muito fraca, já estava fraca muito fraca. O que realmente pegou foi Estados Unidos, lá subiu forte”, afirmou. “Eles vão ter que pagar se eles quiserem, porque eles têm que plantar agora”.

Como o Brasil já está plantando a segunda safra de milho – a maior do País – a demanda por ureia se restringe a culturas como cana-de-açúcar e cereais de inverno, por exemplo, que representam uma fatia menor do mercado.

Jeferson Souza diz que é impossível fazer previsões sobre como deve ser o comportamento dos preços a partir de agora, porque tudo vai depender de quanto tempo vai se estender o conflito e também da duração deste fechamento do Estreito de Ormuz.

Ele lembra que o Brasil compra 40% da ureia que consome do Irã. Os principais fornecedores globais são Rússia e China, porém o país asiático costuma dar preferência ao suprimento de seus próprios agricultores.

Uma preocupação para o produtor brasileiro, caso o conflito seja prolongado, está também nos fertilizantes fosfatados. Segundo Souza, 20% do fósforo que chega em nossas lavouras passa pelo Estreito de Ormuz.

O analista ressalta, porém, que a relação de troca para todos os fertilizantes já estava muito ruim para os produtores rurais, por isso mercado vinha praticamente parado, mesmo antes dos bombardeios.

“O problema é que já estava tudo muito caro, né? Agora nessa situação aí, todo mundo vai ficar meio que esperando o que vai dar”, afirmou.

Na visão de Souza, o atual conflito não se compara ao stress verificado no mercado de fertilizantes em 2022, quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia.

“Lá foi o primeiro stress desde 2008 que aconteceu no mercado. Aí a gente trouxe um transtorno enorme que ninguém sabia como lidar. Agora você fala em guerra, o produtor parece que ele é cético, ele está acostumado a viver na instabilidade”.

Na época os preços de soja e milho também subiram, por isso houve um certo pânico e uma antecipação de compras, dessa vez as margens estão muito apertadas, por isso tudo indica que ninguém vai se precipitar.

“Eu sou um pouco cético, porque quando tem alguém querendo comprar, eles dão um jeito de vender. A gente teve experiências nos últimos 5 anos que mostraram muito isso. O mercado, ele dá um jeito. Ele vai encontrar uma saída”, afirmou.