Um pequeno gigante vem chamando a atenção no Sudoeste de Goiás, especialmente nas últimas duas décadas, com o crescimento do agronegócio.
É o município de Rio Verde, que conseguiu o que muito se busca em outras regiões do Brasil – avançar não apenas na produção de grãos, mas também na agregação de valor, transformando soja e milho em proteína animal, biocombustíveis e até alimentos processados.
Os dados sobre o PIB dos municípios brasileiros, divulgados pelo IBGE no último mês de dezembro, foram comemorados em Rio Verde. O PIB do município goiano atingiu R$ 22,3 bilhões em 2023, o que representa o triplo da riqueza gerada na região 10 anos antes.
“Se a gente comparar com Sorriso, em Mato Grosso, que é o maior produtor de grãos do Brasil, você não chega nesse PIB porque não tem o nível de industrialização que temos aqui. E esse é o nosso grande desafio, continuar industrializando”, afirma Denimarcio Borges de Oliveira, secretário de desenvolvimento econômico sustentável de Rio Verde, em entrevista ao AgFeed.
Pelos dados atuais, segundo ele, Rio Verde saiu do quarto para o segundo lugar entre os municípios de maior PIB em Goiás, perdendo apenas para a capital Goiânia. Na região Centro-Oeste do Brasil, excluindo as capitais, também seria o município com a economia de maior peso.
Alguns fatores têm sido fundamentais para este crescimento. Além da alta produtividade agrícola, Rio Verde conta com unidades produtoras de aves e suínos e de alimentos processados.
A BRF, por exemplo, das marcas Sadia e Perdigão, tem na cidade uma unidade que seria a maior da empresa, com 8 mil funcionários. A agregação de valor dentro da própria agroindústria é vista com um fator importante para o PIB. “A BRF faz 14 mil pizzas por dia em Rio Verde”, citou.
Além disso, lembra Oliveira, Rio Verde seria o único município do País que tem quatro esmagadoras de soja ativas. Entre elas, está a planta da Comigo, cooperativa agrícola que seria a quarta maior do País, que construiu a unidade no início da década de 1980.
Segundo o secretário, mesmo se for observada apenas a produção de grãos (somando soja, milho e sorgo), Rio Verde estaria na segunda posição nacional. “O primeiro é Sorriso, só que ele tem 50% mais área agricultável do que Rio Verde. Nós plantamos 450 mil hectares e eles, 650 mil”.
O aumento no PIB da cidade também foi impulsionado pelos investimentos da ferrovia Norte-Sul, operada pela Rumo. A região se transformou em importante hub logístico, porque consegue conectar o porto do Itaqui, no Maranhão, descendo pelo Centro-Oeste e levando por trilhos até o porto de Santos, em São Paulo. O terminal multimodal de Rio Verde foi inaugurado em 2023.
Hoje Rio Verde já responde por 30% das exportações (não apenas agro) do estado de Goiás. “Antes do complexo ferroviário era o segundo colocado e estava em 17% ou 18%. Aí conseguimos chegar em 30%”, disse Oliveira.
A combinação de boa oferta de grãos com logística favorável tem motivado projetos de expansão de grupos já existentes, além da chegada de novos.
O AgFeed mostrou, recentemente, os planos da Comigo, que planeja uma indústria de biodiesel em Rio Verde, e também do Grupo Cereal, que vai ampliar de 650 mil para 1 milhão de litros por dia sua produção de biodiesel, a partir do ano que vem.
Era do milho e da transição energética
O milho tem sido protagonista no crescimento de Rio Verde. O final da década de 1990 e início dos anos 2000 foram marcados por avanços na tecnologia agrícola, que resultaram em ganhos expressivos em produtividade.
Na sequência, veio o “segundo grande marco”, na visão de Denimarcio, que foi a transformação do milho em aves e suínos, um período de crescimento da agroindústria, intensificado a partir de 2010.
Com os investimentos na ferrovia, 2020 seria o marco da consolidação de Rio Verde como cluster logístico e, no ano passado, chegou o momento da “transição energética”, com o anúncio de que a gigante de etanol de milho Inpasa construirá uma usina no município.
A confirmação do investimento de R$ 2,4 bilhões da Inpasa ocorreu em outubro do ano passado, mas desde 2020 o secretário diz que a prefeitura tentava buscar uma empresa de etanol para a região.
Os ciclos de transformação estariam ficando cada vez mais curtos, agora com marcos de 5 em 5 anos, segundo ele.
“Tem um mapeamento que nós fizemos, que mostra que no raio de 250 km nós temos mais de 12 milhões de toneladas de milho. Então a Inpasa vai consumir 2 milhões de toneladas de milho por ano, o município produz 2,8 milhões, nós contamos com a região inteira”, explicou.
A prefeitura de Rio Verde também destaca que num raio de mil quilômetros ao seu redor estaria 65% do PIB brasileiro.
“Então daqui é um ponto estratégico para as empresas distribuírem, não só para o estado, mas para acessar o Triângulo Mineiro, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins. Nós estamos no quarto ano já de operação direta para Santos (via ferrovia), com exportação de soja, milho, farelo. Estamos falando de mais de 100 mil toneladas de farelo de soja por mês”.
No caso do etanol, ele pontua, é um acesso fácil para chegar desde aos maiores mercados consumidores ou mesmo para subir ao Norte, para exportar aos Estados Unidos, se for o caso.
Ainda na questão do milho, um investimento recente em Rio Verde foi feito pela empresa Milhão Ingredients, que tem 50% de seu controle nas mãos da Amaggi.
Em 2024, a Milhão comprou, por um valor não divulgado, a unidade de processamento de milho da Louis Dreyfus Company (LDC) no município, e há chance de dobrar a capacidade de produção, para 280 mil toneladas por ano.
“A Milhão está usando o milho não transgênico, o milho convencional, para produzir cerca de 40 produtos e atender 60 países diferentes, a partir de Goiás. É a maior unidade de moagem de milho a seco do país. A gama de produtos vai desde nutrição humana, alimentação animal, setor de minério, matéria-prima para produtos pet, enfim, agrega valor ao milho”, ressaltou.
Números ainda devem subir
A expectativa da prefeitura de Rio Verde é de que os valores do PIB sigam subindo de forma expressiva quando forem contabilizados os anos mais recentes.
Os movimentos de empresas como Grupo Cereal e Milhão ainda não foram levados em conta nos dados que vão até 2023.
Há também o Grupo Brejeiro, que investiu R$ 200 milhões na ampliação de sua unidade de esmagamento de soja, em 2024, por isso ainda não estaria contabilizado na estatística do IBGE.
Oliveira lembra que há dois terminais de combustíveis no município, que foram construídos em função do hub logístico da ferrovia, portanto, são ganhos na atividade econômica mais recentes. Há uma ligação direta com Paulínia (SP), por isso 30 distribuidoras de combustíveis, segundo ele, já estão atuando no local.
Quando a Inpasa entrar na conta e seus impactos indiretos, a expectativa é de novo salto nos números. Um dos reflexos da chegada de uma grande usina de etanol se dá na produção de biomassa.
“Num raio de até 150 quilômetros vai viabilizar a produção de eucalipto em terras que hoje não estão sendo usadas com agricultura, mas geralmente é pastagem”.
A área de cultivo de floresta, com a chegada do etanol de milho, poderia ultrapassar 20 mil hectares.
Também há a expectativa de um incentivo para aumentar a produção de sorgo em Rio Verde, já que o produto pode ser usado na usina da Inpasa, para produzir etanol.
O secretário diz que a Inpasa já está fechando contratos de compra de milho com os produtores da região, para receber em agosto deste ano. “A operação da usina está prevista para março de 2027, mas com possibilidade de antecipar para dezembro de 2026”.
Na carona de tanta movimentação, outros setores são atraídos. Denimarcio cita que bancos como o BTG Pactual já têm escritórios em Rio Verde e grandes players do agro vem se instalando por lá. A GDM, líder em sementes, já possui unidade com 200 funcionários na cidade.
A prefeitura vem sendo cobrada por mais celeridade na ampliação do aeroporto da cidade que, por enquanto, está sem receber grandes aviões das maiores companhias aéreas. Segundo o secretário, devem ser investidos, inicialmente, R$ 14 milhões em obras que incluem a ampliação da pista em 500 metros. “Já estamos trabalhando em terraplanagem”.
A área que vinha sendo preparada para uma usina de etanol não foi a escolhida para a Inpasa, por isso o município segue buscando outros investimentos para o local.
A expectativa é que, futuramente, a produção de SAF tenha espaço na região, em função das vantagens da rota de produzir a partir de etanol e do diferencial logístico para combustíveis.
Com os números positivos recentes, o secretário Denimarcio Oliveira diz que já vem sendo procurado por outras empresas e que novos projetos virão, mas que por ora, não pode dar detalhes, já que são conversas iniciais.
Como cartas na manga, o governo municipal tem usado um programa de atração de investimentos (que foi acionado no caso da Rumo) e também mais agilidade na liberação de licenças. No caso da Inpasa, por exemplo, o licenciamento ambiental teria sido viabilizado em 34 dias.
Resumo
- Rio Verde (GO) alcançou PIB de R$ 22,3 bilhões em 2023, triplicando a economia em 10 anos e liderando o interior do Centro-Oeste
- Investimento de R$ 2,4 bilhões da Inpasa em etanol de milho inaugura novo ciclo de transição energética e agregação de valor
- Ferrovia Norte-Sul, agroindústria forte (BRF, esmagadoras de soja) e novos projetos logísticos reforçam crescimento na região