Quem conhece a trajetória dos irmãos Batista, da JBS, sabe que um pequeno investimento de hoje tem grande chance de virar um negócio gigante no futuro, sempre com muita rapidez.
A mais recente aposta da família está no setor de fertilizantes, em um movimento que chamou pouca atenção. Só que dessa vez o investimento partiu de Valere Batista, irmã de Joesley, por meio de sua empresa, a VL Holding.
A VL concluiu em novembro do ano passado a compra da única mina de potássio do Brasil, que antes pertencia a uma gigante dos fertilizantes, a Mosaic. O valor da transação, segundo os envolvidos, foi de US$ 27 milhões.
O AgFeed conversou com o executivo que está liderando a estratégia da mina, que fica em Rosário do Catete, no estado de Sergipe.
Ricardo Nascimento ocupou cargos de liderança por mais de duas décadas na Cargill e agora é diretor comercial da Stratos – o novo nome da VL Mineração, que se dedica exclusivamente ao negócio de potássio.
Na família Batista ainda há outro negócio de mineração, mas de ferro, que é a LHG, porém ligada à holding J&F e sem conexão com o investimento de Sergipe.
“É a única mina de cloreto potássio, hoje, em extração, na América Latina. Para nós, brasileiros, é importante isso, porque 96% do cloreto consumido no mercado brasileiro é importado, somente 4% é produzido por nós”, afirmou Nascimento, entusiasmado, na entrevista exclusiva ao AgFeed.
A grande pergunta que reverbera entre quem é próximo do setor de fertilizantes é uma só: mas afinal, se a mina já estaria próxima do esgotamento de sua vida útil e a Mosaic decidiu se desfazer, porque a família Batista resolveu comprar?
O diretor da Stratos mostrou tranquilidade ao responder essa pergunta. Esclareceu que os registros oficiais da Mosaic indicam que as reservas da mina estariam disponíveis até 2035, portanto, já há uma garantia de produção por mais nove anos.
Mas a percepção dos novos donos vai além disso. A Stratos vem fazendo estudos que indicam a probabilidade de uma longevidade bem maior do que estimava a Mosaic. A vida útil poderia ser de no mínimo mais 20 anos, segundo estudos preliminares, “ainda não conclusivos”, ponderou o executivo.
A visão é que, no caso da Mosaic, uma companhia de capital aberto, as exigências para demonstrar estudos de órgãos internacionais aos acionistas que garantam a longevidade da mina seriam muito mais complexas. Já a VL Holding, que controla a Stratos, tem capital fechado, por isso não tem a obrigação de demonstrar seus estudos ao mercado.
“Os estudos mostram, bem fortemente, que é uma mina com uma idade e longevidade maior do que estava nos livros da Mosaic”, afirmou Nascimento.
Há uma questão técnica que reforça este otimismo. O executivo explicou que a mina, a grosso modo, é um depósito de cloreto de potássio misturado com cloreto de sódio, minerais oriundos do fundo mar.
“A geologia da nossa mina tem bolsões de cloreto. Então, nós vamos seguindo esses bolsões, a uma média de 700 metros abaixo da terra. O nosso método de extração é por ruas e colunas. Nós temos, nesses estudos, dentro da nossa concessão, muitos bolsões EM que nós nem chegamos ainda. Então, muitas vezes, a gente tem que construir uma estrada subterrânea para chegar naquele bolsão”, explicou.
A Stratos não revela em quanto tempo espera ter o retorno do investimento que foi feito, mas sinaliza que será “bem rápido”.
Produção em alta
Enquanto o trabalho exploratório busca a expansão destas reservas, a Stratos tem trabalhado para otimizar a produtividade das áreas que já estão em extração.
Segundo o diretor, a mina produziu 495 mil toneladas de cloreto de potássio em 2025. Para este ano, a expectativa é chegar a 550 mil toneladas, um aumento de 11%.
Entre as razões para este ganho estaria o investimento em quatro extratores novos, embaixo da mina, o que vai potencializar a produção no primeiro ano.
Mais do que foco operacional, a empresa está engajada em estratégias comerciais para deixar o “potássio brasileiro” o mais competitivo possível para o consumidor nacional.
“Nós não temos a capacidade de atender todo o Brasil, até porque fertilizantes dependem muito de logística. Tem uma região onde nós somos mais competitivos, que é o Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia, Norte de Minas e Norte de Goiás. São essas regiões EM que nós temos bastante capacidade de competir com os produtos importados”, ressaltou Nascimento.
Em outras regiões, como o fertilizante chega por diferentes portos brasileiros, o adubo importado acaba ficando mais barato. É o caso de Mato Grosso, maior produtor de grãos do País, que recebe fertilizante dos portos do Arco Norte e também pelo Sudeste.
De qualquer forma, o diretor da Stratos se diz animado com o potencial de crescimento, porque, segundo ele, pelas características do solo brasileiro, “não existe a possibilidade do Brasil produzir soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, frutas sem o cloreto de potássio”.
“O cloreto de potássio não faz reserva no solo, como o fósforo. Então, todo ano tem que ser adicionado. E isso traz um pouco de tranquilidade para o investimento de mais longo prazo”, pontuou.
A estratégia comercial inclui tanto o B2B quanto o B2C. A Stratos já está comercializando o fertilizante para grandes players como a própria Mosaic, a Fertipar, a Galvani, entre outros, e para misturadores e distribuidores, que usam o potássio fazer o NPK.
Há parcerias com tradings e negócios já firmados com o chamado “ABCD” (ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus) e com a Cofco.
Em paralelo, porém, a empresa também vende seu cloreto para grandes produtores rurais, como os grupos Franciosi e Horita, tradicionais do Oeste da Bahia, por exemplo.
“Vamos ter também a turma da fertirrigação, porque nós temos dois produtos. O standard, que é o cloreto de potássio em pó, 58%, e o granulado. Cada um tem uma linha de utilização diferente. Então, indústrias e fertirrigação vão muito mais utilizar o standard. Misturadoras, tradings e produtores vão utilizar muito mais o granulado”.
A Stratos não divulga a previsão de faturamento, embora pelo volume de produção previsto, já seja possível dizer que são “bilhões de reais”.
A empresa conta com 600 funcionários diretos e mais 1,2 mil terceirados. “Há também os indiretos. Nós somos uma empresa bastante relevante no Sergipe. Estamos a 42 quilômetros da capital, Aracaju. E a nossa mineração embaixo da terra, no subsolo, atinge em torno de cinco municípios, que recebem royalties, então tem uma relevância na economia”, ressaltou.
Para ficar competitiva em outras regiões, a Stratos também já faz estudos preliminares sobre a possibilidade de usar a navegação via cabotagem na venda dos fertilizantes.
A empresa está situada há apenas 18km do TMIB (Terminal Marítimo Inácio Barbosa), localizado no município de Barra dos Coqueiros, também em Sergipe. A ideia seria levar o adubo a outros portos brasileiros, caso essa estratégia logística se mostre viável economicamente.
Tradição no agro e apetite para crescer
A VL Holding, controladora da Stratos, já possui uma atuação importante no agronegócio. Fora a VL gestora, que administra os recursos da família, as demais empresas são relacionadas ao setor.
A principal é o Grupo Agroparanã, com foco em pecuária, que tem em torno de 200 mil cabeças de gado confinadas.
A necessidade de ração para os confinamentos fez a família investir também na agricultura. Hoje são duas fazendas, uma em Goiás e outra no Piauí, que totalizam 30 mil hectares de produção de grãos. A soja é comercializada com as tradings, mas o milho, 100% da produção, tem como destino o próprio grupo.
Agora surge a quarta área de atuação do grupo, com o investimento nos fertilizantes. O adubo produzido pela Stratos também é direcionado para as fazendas da família.
Na pecuária, o grupo se destaca pela genética da raça Paranã, onde faz “o ciclo completo”, com cria, recria e terminação.
Seria o investimento na mina de potássio algo pontual, sem muita pretensão de expandir neste mercado de fertilizantes?
O diretor da Stratos prefere não dar detalhes, afirmando que foco total agora é fazer a mina de Sergipe ficar cada vez mais competitiva.
“Nesse momento nosso foco é a Stratos, mas nós sempre estamos olhando oportunidades. O DNA da família é sempre olhar oportunidades”, afirmou.
Ele brinca que o time da empresa fala que as 550 mil toneladas previstas são “uma vantagem e também uma desvantagem”, afinal o grupo gostaria de ter mais volume de extração para atender a carteira cada vez maior de clientes.
O Brasil importa atualmente cerca de 14 milhões de toneladas de cloreto de potássio.
“O solo brasileiro é deficitário em potássio e é um nutriente que tem que ser adicionado todos os anos. A gente julga que está num negócio próspero, numa mina que tem longevidade boa, diferente do que muitos acreditam. Um negócio bastante rentável, uma empresa brasileira atendendo produtores brasileiros”, frisou.
Neste cenário, o investimento no próprio potássio seria uma possibilidade. Hoje no Brasil as reservas conhecidas são aquelas que estão na região amazônica, na mira do projeto da Brazil Potash, que frequentemente é visto com ceticismo por especialistas no setor.
Ricardo Nascimento disse ao AgFeed que não é seu foco olhar para um projeto como esse agora e concorda com quem atribui “um cenário muito desafiador” para a extração de potássio naquela região.
“O investimento de mina, o capex é altíssimo. Dá para fazer uma analogia com o investimento em ferrovia, em função do tempo de retorno, por exemplo. Uma mina, para entrar em operação, você não coloca em pé com menos 3 bilhões de dólares, então não é fácil”, avaliou.
No caso do projeto da Brazil Potash há ainda os desafios sociais e ambientais, à medida que a empresa enfrentou diferentes questionamentos na justiça em função do impacto de construir uma mina região. Sendo assim, o desafio de encontrar investidores, na visão dos empresários, fica ainda maior.
Como o Brasil é altamente dependente da importação de outros fertilizantes, como os nitrogenados e os fosfatados, perguntamos a Nascimento se a Stratos, hoje um player regional, pretende se transformar em um player nacional nos fertilizantes. A resposta foi: “Pode vir a acontecer”.
Resumo
- Holding controlada por Valere Batista, irmâ de Joesley e Wesley, comprou única mina de potássio do Brasil e está aumentando a produção de fertilizantes
- Nova empresa, que agora se chama Stratos, prevê produzir 550 mil toneladas de cloreto de potássio em 2026, alta de 11% em relação ao ano anterior
- Mina pertencia à Mosaic, com previsão de vida útil até 2035. Estudos da VL Holding indicam que a longevidade pode ser de no mínimo mais 20 anos, além desse prazo previsto