Com os preços do arroz alcançando o menores patamares dos últimos anos, abaixo de R$ 60 por saca de 50 quilos, produtores do Rio Grande do Sul, o maior produtor do grão no País, passaram a aceitar, de forma cada vez mais clara, que diversificar a produção deixou de ser opção e virou estratégia para reduzir a dependência das oscilações de mercado.

Alguns, porém, já tinham iniciado esse movimento bem antes da atual crise – e agora colhem os frutos da estratégia que se mostrou acertada. É o caso da Agropecuária Canoa Mirim, de Santa Vitória do Palmar (RS), que vem atravessando um dos ciclos mais difíceis da rizicultura amparada por apostas em diferentes culturas.

"A diversificação é o que tem feito a diferença", resume o engenheiro agrícola Lauro Soares Ribeiro, diretor da Canoa Mirim, em entrevista ao AgFeed. "Isso não quer dizer que não estejamos sofrendo, mas sofrendo um pouco menos que os demais.”

Uma das maiores empresas de produção agropecuárias no estado, a companhia atua hoje com arroz, soja, milho, pecuária de corte e produção de sementes de arroz, soja e azevém em uma área de cerca de 39 mil hectares no entorno da Lagoa Mirim, importante manancial de água doce compartilhado entre Brasil e Uruguai.

Ocupando uma superfície extensa do território do município de Santa Vitória do Palmar, sobretudo dentro dos padrões fundiários do Rio Grande do Sul, a Canoa Mirim emprega cerca de 300 pessoas e só perde apenas para a prefeitura local em número de funcionários.

“São mais de 300 famílias que moram lá na nossa propriedade. A gente fornece casa para os funcionários, água, luz, escolas, posto de saúde. Temos uma importância social que não podemos descuidar”, ressalta Ribeiro.

A complexidade da operação exigiu a adoção de uma gestão profissionalizada. Além de Ribeiro, outros dois diretores dividem o comando da Canoa Mirim, apoiados por uma estrutura executiva formada por 14 gerentes.

A organização também fica visível no lado operacional da propriedade, que tem uma estrutura robusta. A capacidade total de armazenagem é de 200 mil sacos de arroz, soja e azevém, distribuída em vários silos, podendo receber 10 mil sacos de arroz e 20 mil sacos de soja por dia.

O sistema produtivo segue um modelo já conhecido pelos arrozeiros gaúchos, o ping-pong, com a rotação de cultivos na safra de verão. "Em um ano a gente planta arroz e, no outro ano, a gente planta soja", resume Ribeiro.

Já nas áreas voltadas à produção de sementes, Ribeiro explica que a rotação fica mais longa, com pastagens perenes por três a quatro anos, como azevém e outras forrageiras, ou com sequências como soja, milho, soja, arroz, conforme a necessidade.

Como a Canoa Mirim trabalha no sistema integração lavoura-pecuária (ILP), quando chega o inverno, o gado pastoreia sobre as áreas de grãos.

A empresa mantém cerca de 10 mil cabeças de gado das raças Hereford e Braford e, segundo Ribeiro, a cabanha vem sendo reconhecida há cerca de cinco anos como uma das três melhores do País em Hereford pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB).

Com essa estrutura diversificada, a Canoa Mirim projeta ter fechado o ano de 2025 com faturamento em torno de R$ 200 milhões, nível de receita semelhante ao dos anos anteriores. “A expectativa é de, no mínimo, manutenção (de faturamento em 2025), com possibilidade de leve crescimento”, diz Ribeiro.

No passado, 80% do faturamento vinha do arroz, segundo o diretor, mas hoje, menos da metade da receita advém da cultura arrozeira, que é também exportada. Ribeiro diz que os percentuais costumam variar, mas, no ano passado, 60% de todo o arroz que a Canoa Mirim produziu foi destinado ao mercado interno, e 40% foi exportado, principalmente para a América Central e México.

A busca por inovação não é recente na história da família, que está na quarta geração no campo. Nos anos 1950, lembra Ribeiro, seu bisavô já fazia a colheita mecanizada do arroz. “Sempre tivemos uma veia muito forte de inovação, buscando novos negócios justamente para diversificar”, afirma.

Essa estratégia ganhou força nas últimas duas décadas. Primeiro, em 2008, a empresa iniciou o cultivo de soja, ampliando gradualmente a área produtiva nos anos seguintes. Pouco mais de dez anos depois, em 2019, passou também a produzir milho.

Embora o arroz siga como cultura dominante, a soja vem ganhando espaço de forma consistente ao longo dos anos. Na safra 2008/2009, das terras da Canoa Mirim, 5.067 hectares estavam ocupados pelo arroz e apenas 184 hectares pela soja. Já na safra 2024/2025, a situação era bem diferente: o arroz ocupava 9,6 mil hectares, enquanto a soja estava em 6,2 mil hectares.

A proximidade da operação com o Porto de Rio Grande é um importante diferencial competitivo para a soja, afirma Lauro Ribeiro, ao reduzir custos logísticos e melhorar a rentabilidade.

“Por mais que a gente tenha só uma safra de verão, na soja estamos vendidos a R$ 140. Enquanto que um preço em Sinop, por exemplo, vai ser R$ 115, R$ 118. O custo logístico interfere na conta”, explica Ribeiro.

A diversificação é relevante, mas o sucesso da operação da Canoa Mirim também se explica pela estratégia de precificação adotada pela empresa.

Ribeiro diz que a empresa vem, nos últimos anos, fazendo negócios pontuais de contratos futuros de arroz. prática pouco comum entre os arrozeiros, para travar preços que sejam condizentes com o custo de produção. “A gente não estava pensando se ia subir ou cair. Estava olhando se o nosso custo se encaixava”, afirma.

O diretor da Canoa Mirim conta que, no ano passado, ao perceber que a safra indicava produção maior do que a observada nos anos anteriores – e que isso poderia derrubar preços – a empresa acelerou vendas no início da colheita, quando as cotações ainda estavam melhores.

O objetivo, segundo Ribeiro, foi de garantir média de preços mais competitiva, pelo menos cobrindo o custo de produção, com preços um pouco melhores que a média de mercado.

Para além da estratégia de preços, o diretor da Canoa Mirim destaca que a empresa investe 7% de seu faturamento anual em pesquisa e inovação. “Essa área de pesquisa é que nos ajuda a tomar as decisões do que plantar ou do que não plantar, do que fazer de inovação ou não fazer de inovação”, afirma.

Estudos conduzidos na propriedade da empresa indicam que a operação consegue reduzir entre 70% e 90% as emissões de gases de efeito estufa por quilo de arroz produzido, na comparação com sistemas adotados em outros países produtores. A rizicultura é uma grande emissora de metano, gás mais poluente que o CO2, a partir do processo de fermentação da água nos terrenos alagados.

“Quando a gente compara os nossos números com os de outras regiões do mundo, a eficiência é muito maior”, diz Lauro Ribeiro.

A principal explicação para essa diferença está no modelo produtivo adotado, segundo o diretor da empresa, que menciona a rotação de culturas, o uso de áreas sistematizadas, sistemas de irrigação mais eficientes –incluindo irrigação por sulcos e por gotejamento – reduzindo o período de tempo em que o solo permanece alagado.

“Isso limita a atuação de bactérias anaeróbicas responsáveis pela emissão de metano,”, diz.

Além disso, a empresa adota práticas como AWD (sigla em inglês para Alternate Wetting and Drying), que intercala períodos de solo úmido e seco.

Já na produção de arroz de países como China, Espanha e Portugal, explica Ribeiro, ainda predomina o sistema pré-germinado, no qual o solo permanece alagado por períodos mais longos, inclusive no inverno, como forma de controle de plantas invasoras. “Com isso, acabam tendo uma emissão de metano muito maior em comparação com o nosso sistema de produção aqui”, afirma.

A rotação com outras culturas, além de reduzir emissões, pode levar a um resultado ainda mais ambicioso, segundo Ribeiro.

A Canoa Mirim estuda a possibilidade de que algumas áreas se tornem carbono positivas, ou seja, passem a capturar mais carbono do que emitem, mesmo produzindo arroz. “Estamos emitindo tão pouco que, com o sistema radicular das culturas, pode ser que algumas áreas estejam sequestrando carbono”, afirma o diretor.

As medições, segundo Ribeiro, vêm sendo realizadas com apoio da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com a Universidade do Arkansas, nos Estados Unidos.

Resumo

  • Canoa Mirim foi uma das primeiras agropecuárias gaúchas a investir na diversificação como estratégia essencial para reduzir riscos
  • A empresa opera de forma integrada com arroz, soja, milho, pecuária e sementes em 39 mil hectares, tem gestão profissionalizada e faturamento em torno de R$ 200 milhões, mesmo em cenário adverso
  • Além da diversificação produtiva, aposta em contratos futuros, investimentos em inovação e sistemas agrícolas mais eficientes