Fim da Moratória da Soja? Sem problemas para o varejo europeu. Nesta segunda-feira, 26 de janeiro, grandes redes supermercadistas do Velho Continente enviaram uma carta às principais tradings agrícolas reiterando que manterão as exigências do acordo e que só comprarão soja e derivados produzidos em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008.
O documento cita que as empresas serão avaliadas de forma individual. A carta, publicada inicialmente pelo Broadcast e obtida pela reportagem do AgFeed, nada mais é do que um email assinado por 28 redes varejistas, como as britânicas Tesco e Sainsbury's e a alemã Aldi, e endereçado aos CEOs das principais tradings globais: Juan R. Luciano (ADM), Greg Heckman (Bunge), Brian Sikes (Cargill) Michael Gelchie (Louis Dreyfus) e Wei Dong (COFCO).
Ainda estão em cópia a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar.
No texto, as varejistas - representadas pela entidade Retail Soy Group -, se mostram preocupados com a retirada voluntária da Abiove e seus signatários da Moratória, e diz que "independentemente do que aconteça com o acordo líder mundial, espera que a empresa continue fornecendo soja proveniente do bioma livre de desmatamento".
No texto, os signatários afirmam estar “profundamente decepcionados” com a retirada voluntária da Abiove e das empresas do pacto firmado em 2006.
"Embora os compromissos individuais de sua empresa estejam agora incertos, nossos compromissos permanecem claros e continuarão a excluir qualquer soja do bioma Amazônico que tenha sido produzida em terras desmatadas após a data limite de 2008", diz a carta.
As empresas que assinam a carta ainda afirmam que nada mudou do ponto de vista dos compradores, efeito já esperado pelo mercado. No mesmo documento, as varejistas pedem um posicionamento para as tradings até meados de fevereiro.
Segundo a carta, a resposta será avaliada caso a caso, e a depender do rumo das conversas, as relações comerciais poderão ou não se manter no futuro.
São três questionamentos feitos às tradings: se elas vão voltar à Moratória de forma independente, sem Abiove; se os compromissos atuais em relação à clima e desmatamento permanecem inalterados em relação ao bioma amazônico; e mais transparência em relação à soja comprada, a fim de garantir que ela não é proveniente de áreas desmatadas.
A Abiove confirmou sua saída da Moratória da Soja - e consequentemente de suas afiliadas - no quinto dia de janeiro deste ano.
A entidade se manifestou por meio de nota à imprensa. No documento, a Abiove evitou de fazer críticas à Moratória da Soja, e chegou a afirmar que o acordo deixou "um legado incontestável que consolidou o Brasil como referência global em produção sustentável".
O movimento tem sofrido pressões crescentes nos últimos anos, inclusive por parte de governadores de estados produtores. A medida mais relevante entrou em vigor exatamente no primeiro dia de 2026.
O governo do Mato Grosso, estado que tem a maior produção de soja do país, iniciou a retirada de benefícios fiscais de empresas signatárias da Moratória da Soja.
Uma lei estadual foi aprovada em 2024 com esse mesmo objetivo. Mas contestações judiciais levaram o caso até o Supremo Tribunal Federal (STF), que aceitou um recurso para reativação da lei. Por isso, ela volta a entrar em vigor.
Na mesma nota que comentou sua desfiliação, a Abiove chegou a dizer que as empresas continuariam a atender individualmente as "rigorosas demandas dos mercados globais, confiando igualmente nas autoridades brasileiras para a plena implementação de um novo marco regulatório".
Do lado dos produtores, a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) se posicionou na mesma época celebrando a decisão das tradings de deixar o pacto.
"É uma vitória dos produtores de soja que, por tantos anos, foram prejudicados por um privado e ilegal acordo incompatível com a legislação nacional, assimétrico na aplicação e injusto para quem cumpre o Código Florestal Brasileiro", disse a entidade no início do mês.
Resumo
- Carta assinada por 28 redes como Tesco, Sainsbury’s e Aldi cobra das tradings posição até fevereiro e reforça veto à soja de áreas desmatadas após julho de 2008
- Documento foi enviado aos CEOs de ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco e diz que fornecedores serão avaliados individualmente, com risco para relações comerciais
- Movimento ocorre após a Abiove deixar a Moratória e em meio a pressões políticas no Brasil, como a retirada de incentivos fiscais a signatárias no Mato Grosso