Sinop (MT) - Com muitas nuvens, chuva frequente e raras aberturas de sol, a colheita da safra de soja em Mato Grosso vai revelando, neste mês de janeiro, que tem tudo para repetir a boa produtividade do último ciclo.
Na região da BR-163 a movimentação esta semana não foi só de agricultores aproveitando as janelas sem chuva, mas também das equipes da Basf e convidados, nos chamados “crop tours”, visitando lavouras e, principalmente, as áreas experimentais da companhia de defensivos e sementes. O AgFeed acompanhou um destes grupos.
Uma das “estrelas” da empresa, que chegará ao mercado comercialmente daqui a dois ou três anos, é a soja transgênica NRS, que segundo o time da Basf “é uma solução biotecnológica, que oferece controle eficaz contra os principais nematoides da soja”. Seriam eles o Pratylenchus brachyurus (nematoide das lesões radiculares) e o Heterodera glycines (nematoide de cisto).
“Eu diria que nós vamos ter a oportunidade de fazer um negócio disruptivo para a agricultura brasileira assim como a RR fez há 20 anos”, afirmou Marcelo Batistela, vice-presidente de Soluções para a Agricultura da Basf no Brasil, na conversa com os jornalistas, em Sinop (MT).
RR foi a primeira geração de soja transgênica (Roundup Ready) que, desde o final da década de 1990, lançada por outra empresa, permitiu a redução expressiva nas aplicações de herbicidas para controlar ervas daninhas, o que acabou gerando impacto econômico positivo aos produtores ao longo dos anos.
Batistela alega que, depois disso, outras biotecnologias foram chegando ao mercado, mas nenhuma com “valor adicional” tão relevante para o agricultor.
“O NRS vai trazer a mesma lógica. A gente sabe que não tem um metro quadrado no Brasil que não tenha nematoide, o que a gente não sabe é a intensidade que tem e o tamanho do impacto real, mas com o conhecimento que já existe certamente tem uma probabilidade muito grande de a gente colocar de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões de renda adicional no mercado, adicionando valor, lógico que vamos distribuir esse valor ao longo da cadeia, mas nós vamos conseguir fazer um novo paradigma de produtividade”, reforçou o executivo.
A estimativa do VP da Basf leva em conta dados da Sociedade Brasileira de Nematologia, que indica perdas anuais de R$ 35 bilhões com nematoides na agricultura do País, sendo R$ 16,2 bilhões somente na soja.
O novo “trait” da Basf está em fase de aprovação junto aos órgãos reguladores nos principais mercados e, segundo Batistela, “com processo já bem encaminhado”. A intenção é lançar, simultaneamente, no Brasil, EUA e Canadá.
Na prática, trata-se de uma nova soja transgênica que trará as mesmas bio,tecnologias já disponíveis no mercado hoje (como resistência a herbicidas e a lagartas) mas com esse novo diferencial. Segundo a empresa, nos testes de campo realizados nos últimos 7 anos, o NRS teria demonstrado controle superior a 90% do nematoide das lesões radiculares, por exemplo.
Na visita à Mato Grosso, a Basf também destacou outros dois lançamentos que chegarão ao mercado no mesmo prazo de dis ou três anos. Um deles é um inseticida para o controle de todas as lagartas, o brofanilide, para diferentes culturas. E o terceiro é uma nova molécula de fungicida, o Pavecto, para combate, especialmente, da ferrugem asiática.
Em conversa com o AgFeed, após o encontro, Marcelo Batistela disse que não há como prever o impacto efetivo destes lançamentos no desempenho da Basf no Brasil, mas destacou que, “dentro da lógica do negócio, para os próximos 10 anos”, a expectativa é que 70% dos resultados sejam gerados por novas tecnologias.
“A renovação da nossa tecnologia para o agricultor se reflete também dentro do percentual do nosso resultado. E não só essas três tecnologias, mas, certamente, essas três têm um impacto bastante importante, principalmente o NRS”.
A Basf também não revela qual foi o investimento, especificamente, em cada novo lançamento que está para chegar ao mercado. Porém, destaca que biotecnologias como a soja com o trait NRS podem custar entre 300 milhões e meio bilhão de euros.
Os executivos ressaltam não será um lançamento de produtos isolados, mas sim um novo patamar de sistema produtivo, baseado na integração de biotecnologia (sementes), defensivos e manejo. A empresa costuma reforçar um reposicionamento estratégico feito em 2023 onde se coloca como fornecedora de soluções para a agricultura e não de produtos, isoladamente.
O custo que a NRS chegará ao agricultor não é revelado, mas será como um “chip” inserido na semente, que poderá ser licenciado para diferentes marcas e variedades.
Novas moléculas para fungicida e inseticida
Com o passar dos anos, problemas recorrentes nas lavouras como doenças fúngicas e presença de lagartas vão se tornando desafios cada vez maiores para os agricultores.
Nem sempre as práticas agronômicas recomendadas, como Manejo Integrado de Pragas, rotação entre princípios diferentes e manutenção da área de refúgio, são seguidas, o que vai reduzindo a eficácia dos produtos que já estão no mercado.
Um dos grandes desafios é a ferrugem asiática, que pode causar perdas de até 90% e a cada safra vem demandando novos princípios ativos para ser controlada.
Na visita à região da BR 163, conversamos com um grande produtor de soja, milho e algodão, Junior Smaniotto. Ele relatou que entre as maiores preocupações no momento, além dos nematoides, estão a mancha-alvo e a cercóspora, também doenças fúngicas.
Nos lançamentos que a Basf prepara e começa a apresentar para consultores técnicos está um produto que seria uma solução para esses problemas, um novo fungicida, o Pavecto, uma nova molécula, que será associada ao Protioconazol. Além da soja, é recomendado para doenças do milho e do algodão.
“O Pavecto vem para quebrar uma barreira de produtividade que nenhuma outra solução no mercado brasileiro consegue hoje. A gente está falando de, no mínimo, três sacas a mais de produtividade quando comparado aos melhores manejos atuais, inclusive com soluções que já existem no mercado”, disse Patricia Guerra, líder em Proteção de Cultivos Soja.
Outra novidade que chegará ao mercado é o inseticida Broflanilide, uma molécula nova, de um novo subgrupo químico, o tetrazolinona, segundo a Basf. O foco é o controle das lagartas, especialmente as que atacam estruturas reprodutivas da planta.
“O principal diferencial do broflanilide é a alta eficiência com residual. Ele controla todas as lagartas, em todas as fases, com um residual de 14 a 21 dias, enquanto hoje o mercado trabalha com algo entre 7 e 10 dias. Isso é algo que o mercado simplesmente não oferece”, afirmou Warley Palota, líder do Cultivo Algodão.
Para Marcelo Batistela, os negócios da Basf hoje no Brasil estão bem equilibrados entre as diferentes linhas de produto. A expectativa é manter a relevância em fungicidas, onde a empresa já teria uma posição de liderança. No inseticida, ele espera aumentar a participação da Basf no mercado.
“Quando a gente olha para a questão de seeds and traits, que é um outro segmento de mercado, a gente está muito bem posicionado com genética, com as nossas marcas de sementes, mas hoje a gente é bem pouco relevante com biotecnologia. E com o advento do NRS, nós vamos ser muito relevantes em biotecnologia. Eu diria que a Basf vai ser a empresa da próxima década em biotecnologia, certamente”, afirmou ele.
Resumo
- Basf prepara o lançamento da soja NRS, nova biotecnologia focada no controle de nematoides, com potencial disruptivo
- Empresa estima adicionar de R$ 15 bi a R$ 20 bi em renda ao mercado, reduzindo perdas que hoje somam bilhões
- Multinacional também aposta em novos fungicidas e inseticidas para elevar produtividade e liderar biotecnologia no agro