Um dos maiores players do mercado de defensivos químicos para a agricultura, a gigante alemã Basf não esconde sua estratégia de se tornar também uma potência nos insumos biológicos, inclusive no Brasil.
Mais um passo nesse sentido foi dado neste terça-feira, 13 de janeiro, ao concretizar a aquisição da AgBiTech, companhia de origem australiana, sede nos Estados Unidos e a maior parte de seus negócios na América do Sul.
Especializada na produção de soluções para o controle biológico de pragas, a AgBiTech se notabilizou pela produção de bioinsecticidas para o combate a lagartas como a Helicoverpa armigera, uma das principais ameaças às lavouras de soja, milho e algodão, e também outras como a Spodoptera frugiperda, conhecida como lagarta-do-cartucho e também bastante frequente nessas culturas.
A empresa foi fundada em 2000 e era controlada desde 2015 pela firma de private equity Paine Schwartz Partners, tradicional investidor em agtechs. Com a aquisição, que envolve as participações também de outros acionistas, a Basf passa a ter controle total da AgBiTech, incluindo todos os ativos como portfólio, direitos de propriedade intelectual, operações de fabricação, bem como instalações de pesquisa e desenvolvimento, e equipe de funcionários, segundo comunicado do grupo alemão.
Os valores envolvidos no negócio não foram divulgados e, segundo a Basf, a conclusão do acordo está prevista para ocorrer durante o primeiro semestre de 2026, dependendo ainda aprovação das autoridades regulatórias.
A sede e as duas fábricas da AgBiTech estão em Fort Worth, no estado americano do Texas. Lá, a AgBiTech desenvolve seus produtos a partir de tecnologias em que foi pioneira, como a de nucleopoliedrovírus (NPV). No Brasil, a companhia mantém um escritório em Campinas e um time de cerca de 140 pessoas.
“A AgBiTech possui um forte histórico no desenvolvimento de soluções projetadas para ajudar os agricultores a gerenciar pragas de forma eficiente”, afirma Livio Tedeschi, presidente global da Basf Soluções para Agricultura, na nota.
“Estamos entusiasmados em ver essa expertise complementar para o nosso portfólio de biosoluções, pois ressalta nosso compromisso com uma abordagem mais sustentável e holística para a agricultura, alinhada à nossa estratégia de negócios”.
O Brasil é destacado pela Basf como um mercado estratégico nesse negócio. “É um dos mercados que mais cresce para proteção biológica de cultivos”, afirma Marko Grozdanovic, vice-presidente Sênior de Marketing Estratégico e Sustentabilidade Global da Basf Soluções para Agricultura.
“Esta aquisição é um passo decorrente da execução da nossa estratégia que reforça a nossa presença como fornecedor de soluções integradas neste segmento altamente relevante”.
Em novembro passado, em entrevista ao Aglíderes, videocast do AgFeed, o vice-presidente da divisão de Soluções para a Agricultura no Brasil, Marcelo Batistela, revelou que os bioinsumos já representam cerca de 10% de sua receita no País.
“Mas não me surpreenderia se chegasse a 15% ou 20%”, antecipou, na ocasião, reforçando o objetivo da companhia de avançar na estratégia do manejo integrado de pragas (MIP), com a combinação de químicos e biológicos nas lavouras.
“Os agricultores há muito tempo enfrentam preocupações com lagartas que impactam a produtividade das lavouras e passaram a conhecer a tecnologia oferecida pela AgBiTech como uma solução adicional para o controle dessas pragas”, acrescenta Sergi Vizoso-Sansano, vice-presidente sênior da Basf Soluções para Agricultura na América Latina.
De fato, a AgBiTech chegou ao Brasil “pelas mãos” dos produtores rurais, segundo contou ao AgFeed, em junho passado, o CEO da empresa, Adriano Vilas-Boas.
Alarmados pelo avanço da helicoverpa nas lavouras de soja brasileiras entre 2011 e 2013, agricultores visitaram a Austrália, onde a AgBiTech já havia obtido bons resultados no controle da praga com com suas soluções.
“Voltaram convencidos da eficácia do controle e com o objetivo de trabalhar junto aos órgãos regulatórios do Brasil para fazer um registro acelerado desse produto. No ano seguinte começaram a importar o produto para o Brasil”, relatou Vilas-Boas.
Posteriormente a companhia instalou seu escritório no País e passou a importar seus boinseticidas a partir das fábricas no Texas.
O País e os vizinhos Argentina, Paraguai e Bolívia, representam até 70% das vendas da empresa. Segundo o executivo, cerca de 6 milhões de hectares são tratados na região com produtos nas culturas de algodão, soja e milho e outros 1,5 milhão de hectares, na Austrália e Estados Unidos.
A companhia não revela o faturamento, mas, segundo o CEO, “já está na casa dos três dígitos de milhões”.
Além da sede em Campinas (SP), a AgBiTech mantém um centro de pesquisas dentro do Parque Tecnológico da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia (GO).
Vilas-Boas informou que as fábricas em Fort Worth foram dimensionadas para atingir um volume cinco vezes maior em hectares do que o atual tratado pelos bioinseticidas lá produzidos, mas disse que, caso seja necessária uma expansão no futuro, o Brasil seria um candidato natural a receber uma fábrica da companhia.
Um dos desafios da companhia na importação está na logística, em função de um complexo sistema de transporte e distribuição dos bioinseticidas.
Eles vêm dos Estados Unidos em contêineres refrigerados de 1 mil litros cada. Ao chegarem ao Brasil, amostras são testadas no laboratório da UFG e a manipulação para embalagens comerciais é feita em um parceiro em Paulínia (SP), município vizinho à sede da companhia no País.
O vírus ativo presente nos bioinsecticidas da companhia precisa ser mantido refrigerado em temperaturas de -18 graus a 5 graus Celsius. Por isso, a AgBiTech fornece aos produtores freezers de 240 litros com capacidade de estocar produtos para o tratamento de até 5 mil hectares.
Segundo Vilas-Boas, a AgBiTech tem 600 clientes, que são produtores com quem negocia a venda direta para em torno de 700 propriedades, com a assistência técnica também direta.
Resumo
- Aquisição da AgBiTech reforça a estratégia da Basf em biológicos e manejo integrado de pragas
- Brasil é mercado-chave: América do Sul responde por até 70% das vendas da empresa adquirida
- Estratégia da Basf prevê ampliação da participação dos bioinsumos na receita da divisão de Soluções para Agrocultura no Brasil, hoje na casa de 10%