Conhecida como cidade do conhaque de alcatrão, São João da Barra, no Norte Fluminense, já foi polo de uma das maiores regiões produtoras de cana-de-açúcar do Brasil, entre os séculos 18 e 19.
Hoje, o estado do Rio de Janeiro e a região não são mais referências de produção agrícola, mas a complexa logística brasileira pode tranformá-la em uma inusitada rota de exportação de grãos. No centro dessa equação está o Porto do Açu, administrado pela Prumo Logística, empresa que tem como sócios os fundos Mubadala e EIG.
Ali, a companhia encontrou um corredor mais ágil e menos congestionado que alternativas tradicionais. O agro voltou ao Norte Fluminense não pelo campo, mas pelo cais.
À medida que os volumes agrícolas aumentam, o Porto do Açu se prepara para um passo que vinha sendo discutido há anos e agora se aproxima da decisão final: investir cerca de R$ 550 milhões na construção de um terminal dedicado a grãos.
Com uma forte operação na mineração e no setor petrolífero, sendo este com um share de 40% de todo petróleo nacional exportado, o porto já recebe cargas de milho, soja e até café.
A nova estrutura ainda está em um momento de aprovação do investimento, mas segundo o CEO do Porto do Açu, Eugênio Figueiredo, a assinatura deve ser feita no ano que vem. A partir daí, serão cerca de 18 meses até a operação entrar em vigor.
O terminal exclusivo para grãos trará 3,7 milhões de toneladas de capacidade anual ao fluxo agrícola do porto, com uma capacidade estática que deve chegar a 255 mil toneladas no primeiro ciclo de operação, quase 100 mil toneladas acima da atual. Hoje, as cargas agrícolas passam por um terminal generalista.
O plano inclui armazéns, silos, sistemas de correias e um carregador dedicado, permitindo que grãos sigam um caminho fixo até o navio, diferente do arranjo atual baseado em guindastes adaptados e alternância entre múltiplos tipos de carga no terminal multicargas.
“A primeira parte desse nosso investimento vai ser fazer a implantação de toda a parte interna, então armazéns, silos e o processo de carregamento com corredores transportadores e um carregador de navio, que é muito mais eficiente em relação ao que temos hoje com os nossos guindastes”, disse Figueiredo, que conversou com o AgFeed e outros jornalistas em um almoço promovido pela empresa nesta sexta-feira, 28 de novembro, em São Paulo (SP).
Segundo ele, o movimento é reflexo de uma aproximação com o agro nos últimos anos, desde quando a companhia passou a importar fertilizantes, sendo o primeiro porto fluminense a fazer isso.
De lá pra cá, Figueiredo tem viajado para regiões produtoras, como Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, para conhecer os produtores e apresentar o Porto do Açu aos empresários.
“Estive com a Amaggi recentemente em Cuiabá, uma empresa para quem já fizemos exportação de milho vindo do Mato Grosso de caminhão. O custo da operação é passível de conseguir trazer volumes, inclusive de áreas um pouco mais distantes. Acho que esse terminal vai trazer uma eficiência muito grande”, projetou Figueiredo.
A decisão de investimento ganha tração com a perspectiva de leilão, também em 2026, para a concessão da EF-118, cuja licitação deve ser lançada no primeiro semestre do próximo ano.
O projeto está dividido em duas fases: a ligação São João da Barra (RJ) e Santa Leopoldina (ES), considerada obrigatória e com 245,9 quilômetros de extensão. Já a fase 2 engloba a ligação entre Nova Iguaçu (RJ) e São João da Barra (RJ), com 325 quilômetros de extensão, que será implantada como um investimento adicional.
Na fase 1, com prazo de concessão de 50 anos, o investimento estimado ronda os R$ 6,6 bilhões, ligando o Porto Central (ES), o Porto de Ubu (ES) e o Porto do Açu (RJ), com um potencial de transporte de 24 milhões de toneladas ao ano, com cargas gerais, granéis líquidos, sólidos agrícolas e minério.
O projeto tem prazo de cerca de seis anos entre leilão e operação entrando em vigor, e deve acrescentar mais 3 milhões de toneladas por ano ao potencial de escoamento agrícola do porto quando estiver concluído.
Ainda que o terminal de grãos não dependa da ferrovia para a primeira fase, a conexão ferroviária é tratada internamente como a peça que redefine o teto de volume e amplia a competitividade do corredor.
Mesmo sem a nova estrutura, o Porto do Açu já opera embarques que mostram o potencial de escala da rota.
Faz dois anos que a empresa fechou uma parceria com a goiana Milhão Ingredients, que tem a Amaggi como sócia e que exporta milho não transgênico para mais de 60 países.
Por conta dessa particularidade, o Porto teve que garantir à Milhão que conseguiria uma logística sem nenhuma contaminação ou risco de mistura com milho tradicional transgênico, com estruturas dedicadas.
Segundo Figueiredo, já são 11 navios, com algo entre 150 mil e 170 mil toneladas, usando adaptações como grabs acopladas aos guindastes e estruturas provisórias de contenção para facilitar a operação.
O milho lidera os volumes agrícolas, seguido pela soja. O café, ligado historicamente à operação de contêineres, já foi embarcado por big bags quando o frete oscilou demais ou a disponibilidade de caixas ficou curta.
Uma aposta nos biocombustíveis
Além do terminal de grãos, o agro faz parte de outra agenda do Porto do Açu: os biocombustíveis. Segundo contou o CEO da Prumo Logística, Rogério Zampronha, a ideia é que o porto consolide um ecossistema de transição energética.
Essa vontade engloba projetos de amônia verde, metanol, HVO (diesel verde), gás natural liquefeito de biomassa (bio-LNG) e SAF (combustível sustentável de aviação). Atualmente, o Porto já conta com várias áreas arrendadas e projetos de viabilidade em andamento.
“Criamos um ecossistema com características únicas e permitimos que investidores instalem empresas lá. Não somos produtores de combustível, não seremos”, disse Rogério Zampronha.
A Vast, braço de combustíveis do grupo, conduz a construção da primeira fase de um terminal de líquidos com 22 tanques e capacidade total de 90 mil metros cúbicos, voltado para derivados e biocombustíveis. O investimento inicial é de R$ 250 milhões.
A obra começou em 2025 e tem previsão de operação para o fim de 2026, criando um ponto de armazenagem que permitirá ao Açu importar, exportar ou simplesmente distribuir combustíveis alternativos no mercado interno.
O Porto do Açu já recebeu a primeira operação brasileira de HVO, ao lado da Wilson Sons, e, segundo revelaram os diretores, está em negociações para arrendamentos que envolvem a construção de plantas de metanol e SAF.
Nisso, o etanol de milho aparece como um eixo estratégico, porque além da planta e distribuição do combustível em si, o subproduto de carbono biogênico interessa a desenvolvedores de combustíveis sintéticos, o que cria uma cadeia onde resíduos e insumos circulam entre operações vizinhas.
“Já exportamos milho e agora teremos a produção de SAF através de etanol, num acordo com investidores externos”, disse Zampronha, sem dar mais detalhes.
Além disso, o Porto do Açu também avançou em iniciativas de descarbonização com parceiros internacionais.
Os diretores ainda citaram que existem diversos grupos, desde operadores logísticos, originadores e até investidores financeiros, interessados em usar o local como base de armazenamento ou produção.
Hoje, a área destinada ao hub de hidrogênio, que começou com 1 milhão de metros quadrados, já se aproxima dos 5 milhões de metros quadrados.
Resumo
- Porto do Açu prepara investimento de R$ 550 milhões em um terminal exclusivo de grãos, elevando a capacidade anual para 3,7 milhões de toneladas
- Ferrovia EF-118 pode adicionar mais 3 milhões de toneladas ao corredor agrícola e consolidar o porto como alternativa para cargas de GO, MT e MG
- Ecossistema de biocombustíveis avança com projetos de amônia verde, metanol, HVO, SAF e um terminal de líquidos de R$ 250 milhões, além de novos arrendamentos e áreas destinadas ao hub de hidrogênio