Desde que Donald Trump assumiu o governo, o mercado especula sobre quais impactos para países que competem diretamente com os Estados Unidos. É o caso do Brasil na soja, no algodão e, parcialmente, no milho.
Nesta sexta-feira a China confirmou uma tarifa de 34% sobre os produtos americanos, que deve entrar em vigor em 10 de abril. O percentual se soma aos 10% da tarifa que já havia sido adotada em 4 de março.
Com isso, ficou ainda mais caro para os chineses comprar soja dos Estados Unidos. Os americanos estão no segundo lugar do ranking entre os maiores exportadores da oleaginosa, perdendo para o Brasil.
A pedido da AgFeed, a analista de mercado da AgRural, uma das principais consultorias do País, Daniele Siqueira, fez uma simulação. Caso a tarifa de 34% já estivesse em vigor hoje, o comprador chinês estaria pagando US$ 627 por tonelada pela soja americana. Já o produto brasileiro, embarcado em Santos, era cotado hoje em US$ 412.
Neste cenário, a analista espera que haja um aumento das exportações brasileiras de soja para a China, porém não imediatamente.
“Impacto mesmo vai acontecer no segundo semestre, Brasil vai acabar exportando maiores volumes, vai existir uma maior demanda da China, especialmente no último trimestre do ano e em janeiro do ano que vem”, explicou Siqueira.
Isso ocorre porque no fim do ano é a entressafra no Brasil. Já os americanos colhem em setembro, por isso é o auge da oferta de soja por lá, o que normalmente leva os chineses a comprar mais dos EUA nesse período. Dessa vez, podem até comprar, mas se as tarifas mútuas ainda estiverem em vigor, os volumes cairão significativamente.
Daniele Siqueira lembrou que a situação é um pouco diferente da guerra comercial vista entre EUA e China em 2018. Naquele episódio as tarifas surgiram no segundo semestre, provocando uma reação imediata, com aumento repentino nos embarques de soja brasileira fora da janela tradicional.
Agora a notícia veio no primeiro semestre, período em que já é o Brasil o país a ofertar mais e exportar mais soja para o mundo inteiro.
Os reflexos desse cenário foram vistos nas bolsas que negociam commodities agrícolas nesta sexta-feira. Praticamente todas tiveram queda expressiva nos preços.
Na Bolsa de Chicago, por exemplo, referência mundial para a soja, houve queda de quase 35 pontos na maioria dos vencimentos. O produto perdeu o patamar de US$ 10 por bushel, fechando em US$ 9,77 para maio.
A queda ocorre porque o mercado precifica a “sobra” de soja nos Estados Unidos.
Por outro lado, no Brasil os prêmios de exportação mais uma vez subiram fortemente. Estão próximos de U$ 1 por bushel acima da cotação de Chicago. Aliado a isso, a sexta-feira foi de alta no dólar, movimento que melhora o preço pago ao produtor brasileiro em reais.
Para Daniele Siqueira, no entanto, “o céu não é o limite” para o aumento das exportações brasileiras. Ela lembra que os embarques já estão subindo mas em função da safra maior que está sendo colhida. “O aumento será limitado pelo tamanho da produção”.
A estimativa da AgRural indica uma safra de 166 milhões de toneladas em 2025/2026, abaixo de algumas estimativas de consultorias privadas que seguem acima de 170 milhões de toneladas.
Antes do anúncio das tarifas, a consultoria já previa pelo menos 104 milhões de toneladas de soja exportadas pelo Brasil em 2025, disse Daniele.
Agora, nesta nova condição, poderá chegar a 109 milhões de toneladas. Para embarcar mais que isso, a safra precisaria ser maior, afinal há também a demanda interna por farelo, óleo e biodiesel.
A analista reforça que não há tanto espaço para avanço porque em 2017, antes da primeira guerra comercial, o Brasil respondia por apenas 53% da soja importada pela China.
No ano seguinte, com as tarifas, subiu para 75%. Em 2024, mesmo sem Trump no governo, os brasileiros ainda foram responsáveis por 71% do fornecimento de soja aos chineses, enquanto os americanos venderam 21%. É possível que agora essa vantagem brasileira suba ainda mais.
Milho e algodão
Os preços do milho tiveram queda leve nesta sexta-feira na Bolsa de Chicago. Como a China reduziu muito as importações do cereal, Daniele Siqueira diz que o mercado avalia que as exportações americanas não serão tão afetadas.
Ela diz que a União Europeia pode acabar importando mais milho do Brasil, porque também está sendo fortemente taxada. “Mas no milho a briga aqui é com o mercado interno”, disse a analista, lembrando da demanda crescente no Brasil pelo grão usado na indústria de proteína animal e no etanol de milho.
No algodão a expectativa é de melhora nos preços ao produtor. Embora as cotações em Nova York estejam caindo, o prêmio poderá corrigir com valorização ao produto brasileiro. Daniele Siqueira lembra que isso ajuda o produtor brasileiro, porque o preço vinha no patamar mais baixo desde 2020 e o Brasil já ultrapassou recentemente os EUA no mercado algodão.