Há vários anos a gigante norte-americana John Deere mantém um estande fixo na Agrishow, em Ribeirão Preto. A estrutura permanente é uma das maiores do evento e costumava ser o palco dos principais lançamentos da marca.

Essa tradição foi quebrada nesta sexta-feira, 4 de abril, poucas semanas antes da abertura da maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, que acontece no próximo dia 28.

Oa lançamentos foram feitos no John Deere Space, uma espécie de Agrishow particular da marca montada em Campinas, no interior paulista.

Em uma área de 40 mil metros quadrados, pelo menos 4 vezes maior do que o estande em Ribeirão Preto, a montadora anunciou nada menos do que 15 lançamentos entre máquinas, produtos e serviços para as linhas agrícola, florestal e de construção.

“Trata-se do maior lançamento da história da companhia no Brasil”, explicou Horácio Meza, diretor de Vendas da John Deere Brasil. Tudo isso para um público composto por cerca de 2 mil clientes de toda a América do Sul, além de técnicos, representantes de revendas e imprensa.

“Percebemos que os agricultores gostam de conhecer presencialmente as soluções, para analisarem o que realmente funciona para suas realidades. E também percebemos a dificuldade deles em assimilar a grande quantidade de informação que recebem em um evento maior. Por isso adotamos essa estratégia”, afirmou Antonio Carrere, Vice-Presidente de Vendas e Marketing da John Deere para América Latina.

O executivo explicou que as feiras ainda possuem um papel importante e que a companhia seguirá com forte presença nos eventos do setor. “Esse evento nasceu da nossa busca por ter conversas mais próximas com os nossos clientes”, avalia.

O que se viu em Campinas reforça a estratégia da empresa de ir além das máquinas novas e investir também em softwares e soluções que possam ser embarcadas nos equipamentos já existentes. Carrere explica que as tecnologias de software são atualizadas em velocidade muito maior do que as máquinas agrícolas.

“Por isso temos investido pesado em software, porque somos capazes de oferecer a atualização dos sistemas das máquinas e equipamentos que já estão no campo”, explica.

O principal produto da companhia para permitir essa conectividade é o JDLink Boost, um sistema via satélite que conecta a equipamentos novos e já existentes. O sistema coleta os dados das máquinas em tempo real e as transmite para a nuvem.

Por meio do John Deere Operation Center, o produtor tem acesso a esses dados em tempo real, podendo tomar decisões mais precisas em todas as etapas das operações. A meta da empresa é conectar 1,5 milhão de máquinas até 2026 — hoje são 775 mil conectadas.

A utilização se dá por meio de licenças adquiridas pelos produtores, o que resulta em um custo menor e mais acessível. Um kit essencial de soluções, por exemplo, custa em média R$ 25 mil, enquanto a licença custa cerca de R$ 5 mil.

“ E pode ser utilizada em máquinas antigas da própria John Deere e em máquinas de outras marcas”, explica o executivo.

Além disso, fatores como a alta dos juros no Brasil e o ciclo mais cauteloso do agronegócio, depois da seca prolongada em 2024 e das perdas da produção, fizeram com que alguns produtores ficassem mais cautelosos com novos investimentos.

“Os investimentos no campo são sempre feitos no longo prazo. Por isso temos soluções tanto para os produtores que preferem esperar quanto para aqueles que estão dispostos a fazer investimentos maiores. Nós entendemos que o caminho para melhorar a produtividade e eficiência é por meio da tecnologia”, pondera Carrere.

Na opinião do executivo, o cenário de volatilidade para o setor deve se prolongar ao longo do ano, não só por conta das oscilações climáticas em ano de El Niño, mas também por causa das dinâmicas político-econômicas.

“Hoje a única certeza é a incerteza. Com isso, enxergamos o mercado no Brasil 5% menor do que foi no ano passado, mas essa previsão pode mudar a qualquer momento, caso o cenário mude”, pondera.

Ao mesmo tempo, ele explica que o mundo está com o menor estoque de milho dos últimos cinco anos e que alguns setores como café e ovos enfrentam desafios globais, mas reforça o fato de o agronegócio ser cíclico, enfrentando momentos de alta e baixa, que trazem incertezas.

“O que nós sabemos é que o mundo precisa de alimento, o mundo precisa de combustíveis alternativos e que o mundo precisa da América Latina. Precisamos nos preparar juntos, produtores e a nossa rede, para poder trabalhar em qualquer ciclo”, pondera Carrere.

Como parte desses investimentos em tecnologia de software e também em inteligência artificial, a companhia anunciou em dezembro de 2024 a inauguração do Centro de Inovação em Agricultura Tropical em Indaiatuba, a 30 quilômetros de Campinas.

Com investimentos de R$ 180 milhões, a unidade é a terceira da companhia e a única na América do Sul. As outras duas ficam nos Estados Unidos e na Alemanha.

Nos últimos cinco anos, a companhia já investiu cerca de R$ 3.3 bilhões na ampliação e modernização das fábricas no Brasil, incluindo a ampliação da unidade de Catalão (GO), que recebeu aportes superiores a R$ 700 milhões em 2024.

“Esses investimentos reforçam a nossa posição de que o mundo precisa da América Latina e da agricultura tropical e por isso seguimos investindo no Brasil e nos demais países, como Argentina e México”, explica Carrere.

Carrere adiantou que o atual centro de distribuição da companhia em Campinas deverá dobrar de tamanho em breve. Isso porque a John Deere adquiriu um terreno vizinho à unidade, com 100 mil metros quadrados, onde deverá iniciar o projeto de ampliação da estrutura.

Os valores investidos não foram divulgados, mas o complexo deverá ter a capacidade de estoque de produtos, que atualmente está em 150 mil itens, chegando a até 300 mil itens. Ainda não há previsão de início das obras. “Estamos na fase de desenvolvimento do projeto

Lançamentos de máquinas

Entre os destaques apresentados pela companhia para os participantes do evento está a chegada da colheitadeira S7 Ultimate, cuja fabricação deverá iniciar já no próximo mês.

Com tecnologia de automação preditiva de velocidade, o equipamento semi-autônomo é capaz de mapear o terreno em tempo real por meio de câmeras, a um alcance de até oito metros da plataforma.

Com base nas imagens captadas combinadas com outros dados obtidos anteriormente via satélite, é possível predizer o rendimento da cultura. Conforme a máquina avança no campo, ela automaticamente vai ajustando a velocidade de colheita 3,6 segundos antes do corte.

“Essa tecnologia gera um aumento de até 20% na produtividade já que o volume de hectares colhido por hora aumenta”, explica Meza.

Além disso, o sistema também permite ganho de até 10% na qualidade do grão e o mesmo percentual em redução de perdas durante o trabalho. A empresa não divulga os valores da máquina, já que as diferentes configurações disponíveis podem fazer com que o preço varie de acordo com cada necessidade.

Além da colheitadeira, a marca também está lançando plantadeiras com dosador elétrico de fertilizante e sementes, pulverizador inteligente que com base em imagens captadas por câmeras, é capaz de ler até 160 metros por segundo.

Com isso, a máquina se autorregula, identificando pontos onde é necessário pulverizar e onde não. Como resultado, a marca garante um ganho de até 56% na redução do uso de herbicida - podendo chegar a até 90% em algumas situações.

No segmento de tratores, a marca trouxe ao Brasil a linha 9RX, o maior trator produzido em série do mundo e que deve ganhar em breve a companhia de outros modelos da mesma linha, que serão importados.

Meza explica que com o ciclo de alta de algumas commodities, como café, citros e cacau, alguns produtores começam a buscar opções para a mecanização das atividades e que por isso a marca aposta também nas vendas de tratores menores para essas culturas.

Por isso, a companhia lançou os tratores da série 5EN com opções cabinadas já de fábrica. “São tratores menores, mais estreitos, que performam muito bem nessas culturas.