No segundo semestre da Raiar Orgânicos, duas apostas bem diferentes marcam os negócios: um óleo de soja orgânico e um ovo com a marca do influenciador Toguro.
A primeira nasceu dentro da própria operação: ao produzir o farelo de soja usado na ração das galinhas, a empresa passou a ter também o óleo bruto em mãos. Depois de testar o produto no food service, decidiu transformá-lo em uma nova marca, a Dourar Orgânicos.
A segunda veio de fora da porteira. A Raiar fechou uma parceria com o influenciador Toguro para produzir o "Ovo da Mansão Maromba", em uma tentativa de levar seu produto a outros públicos - incluindo o segmento fitness - que talvez nunca tenham procurado um ovo orgânico.
As duas iniciativas fazem parte de uma fase de expansão de uma empresa que completa seis anos no fim de 2026. A Raiar espera ultrapassar os R$ 100 milhões de faturamento neste ano, crescendo 35% a receita. A companhia já está presente em dez Estados e 2,5 mil pontos de venda, com 400 mil aves alojadas, e espera produzir cerca de 95 milhões de ovos neste ano.
A meta é chegar a 2 milhões de aves em cinco ou seis anos. Se conseguir, passará a ser, na conta da própria empresa, o maior produtor de ovos orgânicos do mundo.
Para isso, a estratégia não é simplesmente colocar mais galinhas nas granjas. Desde o início, a Raiar tenta combinar escala, tecnologia e controle da cadeia para fazer com que o orgânico seja produzido em uma lógica industrial, sem abrir mão das características que diferenciam o produto.
“Nos últimos anos, para além do orgânico, nós nos posicionamos como ovo de qualidade. O cliente fala que usa ovo Raiar, não mais que usa ovo orgânico. É uma construção de marca que remete não só ao orgânico, mas a um ovo com qualidade de gema melhor, clara com textura superior e sabor diferenciado”, afirma Anny Chueh, sócia e diretora de Novos Negócios e Marketing da Raiar, ao AgFeed.
É essa combinação de produto, marca e cadeia própria que ajuda a explicar as duas novidades.
O óleo que estava sobrando
A história da Dourar começa na alimentação das próprias aves. Chueh contou que, no começo da operação, a Raiar comprava farelo de soja orgânico de fornecedores, mas não se dava por satisfeita com a qualidade do produto.
Havia, segundo Anny, "fatores antinutricionais" relacionados à forma de processamento e características que não atendiam ao padrão que a companhia buscava para a alimentação das galinhas.
A solução foi voltar uma etapa na cadeia: comprar a soja em grão e produzir o próprio farelo.
A Raiar passou a fomentar uma rede de produtores parceiros de soja orgânica, acompanhando a produção, apoiando a certificação e garantindo a compra. O grão é processado por extrusão para a retirada do farelo, que segue para a fábrica própria de ração.
Neste ano, a companhia deve comprar cerca de 1,6 mil toneladas de soja orgânica em grão, que são adquiridos de cerca de 20 produtores parceiros e rastreados, presentes nos estados de São Paulo, Paraná e Goiás.
Em cinco anos, a meta é chegar a 6 mil toneladas. Só que esse processo deixava outro produto para trás: o óleo.
Nos cálculos da empresa, o volume atual comprado de soja gera aproximadamente 300 toneladas de óleo bruto. Durante algum tempo, a Raiar simplesmente vendia esse produto no mercado.
“Quando começamos a fazer nosso próprio farelo, comprando a soja orgânica em grão, a gente percebeu que sobrava esse óleo bruto. Vendíamos como óleo comum, e você não conseguia diferenciar que era um óleo de soja orgânica, de uma soja controlada, rastreada e de produtores fomentados por nós. E ficamos inquietos com isso”, conta Anny Chueh.
A Raiar procurou então parceiros capazes de refinar o produto sem tirar dele as características necessárias para mantê-lo como orgânico e encontrou a Crista, com sede em Indaiatuba (SP). O primeiro teste veio no ano passado, com galões de seis litros destinados ao food service.
Durante cerca de um ano, chefs parceiros testaram o produto. A empresa queria entender se o processo, feito sem solventes químicos, entregava um óleo com características percebidas na cozinha.
A resposta foi positiva, segundo a empresa, e a Raiar decidiu levar a Dourar para o consumidor final.
O produto passa por degomagem, refino e envase, mantendo como um dos principais argumentos de venda a origem da soja e a forma de extração. Diferentemente do óleo de soja convencional, que utiliza hexano como solvente para retirar o óleo do grão, a Dourar utiliza um processo mecânico.
Esse refino ainda tira cerca de 20% do óleo bruto, então considerando as 300 toneladas que a empresa deve gerar do ano, 240 devem se transformar em produtos da marca Dourar.
A nova marca começou a chegar às gôndolas em embalagens de 900 ml e já está em redes físicas como Zaffari, St Marche e também no e-commerce Shopper. O preço, segundo Chueh, fica acima do óleo de soja convencional, mas próximo de alternativas como os óleos de milho e girassol.
A Raiar ainda está aprendendo a operar esse novo mercado, já que o óleo tem uma vida de prateleira muito maior do que o ovo, o que muda a lógica de estoque, distribuição e relacionamento com o varejo.
Ainda é uma operação pequena diante do negócio principal, mas a companhia calcula que o volume de Dourar pode crescer quatro ou cinco vezes conforme a distribuição avance.
A estrutura também não exige, por enquanto, uma grande fábrica própria de óleo. A Crista cobra pelo lote processado, enquanto o investimento da empresa fica concentrado principalmente em embalagem e nos lotes mínimos de produção.
A nova embalagem dos ovos
Se a Dourar nasceu dentro da cadeia da Raiar, o Ovo Mansão Maromba nasceu fora dela. O influenciador digital Tiago Toguro é conhecido por dialogar com o mundo fitness - através do projeto Mansão Maromba - e também com o meio humorístico, o que acabou o levando a diversas classes populares e também em meio ao público jovem.
Recentemente, foi nomeado inclusive para um cargo nos departamentos de comunicação da gigante farmacêutica Cimed, justamente para unir a marca tradicional com outros públicos.
O ovo entra nessa história, pois é um alimento corriqueiramente associado ao mundo fitness e dietas de frequentadores de academia, e Toguro publicou uma série de posts em suas redes sociais buscando uma empresa para "fazer o ovo da Mansão Maromba".
A Raiar ouviu o pedido e, ao estudar o perfil do influenciador, percebeu que havia uma oportunidade de negócios, contou Chueh.
A dieta que Toguro costuma divulgar tem justamente ovo, arroz, feijão e frango como elementos básicos. Mais importante para a Raiar, ele fala com um público muito maior do que o consumidor tradicional de produtos orgânicos.
“É fácil vender o ovo orgânico para quem já está nesse nicho. A gente queria falar com outras pessoas”, afirma Anny.
A partir daí, Toguro passou a visitar a fazenda e participar da construção da comunicação do produto. O trabalho, segundo ela, não foi simplesmente colocar uma celebridade na embalagem, mas usar a influência dele para explicar um alimento que a maioria das pessoas já consome, mas raramente observa com atenção.
Ele passou a falar sobre diferenças na casca, na gema, no cheiro e na textura do ovo, além da forma como as aves são criadas.
“Ele tem convidado as pessoas a reparar em um item do dia a dia que ninguém parou para pensar e enxergar o diferencial. Quando você vê valor, deixa de olhar só para o preço e começa a olhar para o valor adicional”, diz Anny.
O produto chegou às gôndolas na última semana e já tem distribuição contratada em redes de diferentes regiões do País. Entre elas estão Supernosso, em Minas Gerais, Natural da Terra, no Rio de Janeiro, Casa Santa Luzia, em São Paulo e Angeloni, no Sul. Sem contar no Pão De Açúcar, com presença nacional.
O produto, porém, é exatamente o mesmo que a companhia já vende sob a marca Raiar. Não há mudança na origem, na alimentação das aves ou no processo produtivo. A diferença está na marca e, principalmente, na porta de entrada para o consumidor.
A parceria com Toguro acrescenta uma característica diferente: o poder de mobilização de uma audiência.
Segundo a sócia da Raiar, isso apareceu inclusive nos bastidores do lançamento. Fornecedores de embalagens aceleraram entregas para atender o projeto, enquanto redes varejistas agilizaram o cadastro do produto.
“Quando falamos do Ovo da Mansão Maromba, toda a cadeia de compradores e fornecedores se engajou. O fornecedor de embalagem nunca tinha entregado tão rápido. Ele entregou antecipado para a gente conseguir fazer o ovo da Mansão Maromba. Nunca tinha acontecido antes”, conta.
Resumo
- Raiar lança óleo de soja orgânico feito a partir de um subproduto da própria cadeia de produção de ração das aves
- Empresa espera crescer 35% em 2026, com 400 mil aves alojadas e meta de chegar a 2 milhões nos próximos cinco ou seis anos
- Parceria com Toguro leva o ovo da Raiar a novos públicos e já coloca a marca em redes de diferentes regiões do País