Se as vendas de máquinas agrícolas caem, os fabricantes de insumos como pneus e peças também são afetados, correto? A resposta é sim, especialmente nos últimos três anos.

O período de turbulência, no entanto, começa a dar sinais de alívio, de forma ainda tímida, mas trazendo um certo otimismo a determinados setores.

Na Michelin, multinacional francesa considerada líder em diversos segmentos de pneus, especialmente a linha premium, a expectativa é de recuperação nas vendas para o agronegócio ao longo de 2026.

“O primeiro trimestre desse ano para a gente foi melhor do que o primeiro trimestre do ano passado. Isso é importante porque foram dois ou três anos de queda”, afirmou Daniel Braz, diretor de marketing da Michelin no Brasil, em entrevista ao AgFeed.

A empresa não divulga números detalhados por país onde atua, mas o balanço global referente ao primeiro trimestre de 2026 dá sinais de que o desempenho melhor veio mesmo do pilar do negócio que engloba os pneus agrícolas. É o segmento chamado de “especialidades” pela Michelin, que soma agricultura, mineração e aviação.

Pelos dados divulgados no fim de abril, este foi o único segmento que registrou alta no volume de vendas, de 2,5% na comparação com o primeiro trimestre de 2025. O resultado financeiro, no entanto, ficou 3,3% menor em euros, mas a empresa alega que foi impactada pela variação cambial.

Daniel Braz diz que, globalmente, é possível dizer que 20% do negócio da Michelin está relacionado aos pneus agrícolas, mesmo percentual que pode ser aplicado ao Brasil.

“Sabemos que o Brasil é uma potência agrícola, mas a gente está sempre super focado no segmento premium do agro, para máquinas de alta potência. A gente não fabrica no Brasil, nem traz muito para cá os pneus agrícolas pequenos”, explicou.

A empresa vem marcando presença em eventos do setor como na Agrishow deste ano, onde apresentou alguns lançamentos, como os pneus Michelin X Works Z2 e Michelin X Works D2, desenvolvidos para operações relacionadas ao transporte de cana-de-açúcar, madeira e construção.

A expectativa mais otimista para este ano, segundo Braz, leva em conta também as apostas que a empresa tem feito.

“A gente já começa a ver uma recuperação também por toda uma reestruturação que a gente está fazendo na nossa abordagem agrícola, com nova rede de distribuidores, justamente para tentar ser combativo nesse momento desafiador que tem no mercado”.

Ele diz que uma parte do desafio atual é por que entre 2020 e 2022 “se vendeu em 3 anos o que se venderia em 5”.

Mais produção brasileira

Enquanto aguarda a reação do mercado, a Michelin garante que vem investindo para ampliar a produção no Brasil.

“Em 2019 menos de 30% (dos pneus da Michelin vendidos aqui) eram produzidos no Brasil. Agora é mais de 70%. Então é um movimento contínuo de produção porque o agro é muito específico, muitas vezes tem dimensões que precisa para o Cerrado aqui no Brasil, que não tem nos Estados Unidos e não tem na Europa”, ressaltou Braz.

Tudo o que é produzido no País, mesmo para as outras linhas como carros de passeio e caminhões, sai da mesma fábrica, que fica no bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro.

Outra abordagem da fabricante de pneus no agro é a perspectiva de ganho de produtividade e redução de despesas, em meio ao cenário de margens mais apertadas.

“A gente sempre teve essa estratégia e acho que agora ela fica mais relevante no ambiente que estamos. Por exemplo, quando você fala em reduzir o consumo de combustível de um trator em 14%, com o diesel que subiu 25% (no início da guerra), eu acho que fica mais relevante a mesma estratégia de aumentar a produtividade e reduzir custos”, acrescentou.

No último reporte de resultados global, a Michelin deixou claro que o conflito no Oriente Médio representa um fator de risco, mas preferiu manter as projeções para 2026. A previsão é de uma recuperação gradual do segmento de especialidades que pode crescer até 3% no ano.

A expectativa é alcançar um resultado operacional aos €2.921 milhões de 2025 (considerando escopo e taxas de câmbio constantes) e um fluxo de caixa livre antes de fusões e aquisições (M&A) superior a €1,6 bilhão.

Resumo

  • Michelin vê sinais de recuperação no mercado de pneus agrícolas, mas considera o cenário ainda desafiador
  • No balanço global da companhia, vendas de pneus especiais, que incluem agricultura, aumentaram em volume
  • Com margens apertadas no agro, um dos apelos de venda é a oferta de pneus que ajudem a reduzir o custo com óleo diesel