Às vésperas de formalizar - ou não - casamento com a americana GSI, a Kepler Weber não teve muito o que comemorar no ano de seu centenário.

Apesar de uma melhora na rentabilidade e no lucro reportado no último trimestre deste ano, a fotografia de 2025 ilustra o ano difícil para o agro, que acabou respingando na empresa líder em armazenagem do País.

Nos doze meses de 2025, a Kepler teve lucro líquido de R$ 156,3 milhões, uma queda de 21,5% frente a 2024. A receita líquida foi de R$ 1,49 bilhão, baixa frente aos R$ 1,6 bi do ano anterior. No recorte trimestral, o lucro subiu 28,5% e atingiu R$ 64,8 milhões, enquanto a receita recuou 13,3%, para R$ 398 milhões.

A empresa pontuou que o cenário de juros elevados acaba fazendo com haja uma seletividade maior nas decisões de investimento, o que acaba prejudicando as vendas da empresa.

A Kepler possui cinco fontes de receita - operações em Fazendas, Agroindústrias, Negócios Internacionais, Portos e Terminais e Reposição e Serviços.

Dessas, somente a operação de negócios internacionais e a área de reposição e serviços registraram alta no faturamento no acumulado do ano. Respectivamente, a receita chegou a R$ 237,7 milhões (alta de 19,4%) e R$ 310 milhões (avanço de 10,1%).

A questão é que as operações em fazendas e agroindústrias são as mais representativas do bolo. Nas vendas para agricultores, a queda no faturamento foi de 9,7%, para R$ 469,7 milhões, enquanto que para as agroindústrias a baixa foi de 17,8%, atingindo R$ 405,1 milhões.

A operação nos portos - ponto positivo no balanço de 2024, quando teve alta de cerca de 20% na receita naquele ano - esse ano recuou 41%, e chegou a R$ 66,9 milhões.

Bernardo Nogueira, CEO da empresa, explicou que o desempenho reflete sobretudo o momento delicado do produtor rural, pressionado por margens mais apertadas e dificuldade de acesso ao crédito.

Segundo ele, o ciclo atual é bastante diferente daquele observado entre 2021 e 2022, quando os agricultores chegaram a operar com margens superiores a 50%. Hoje, estima-se que a rentabilidade líquida média esteja entre 1% e 2%.

Ao fazer a conta agregada das principais culturas - soja, milho e arroz - a companhia estima que o volume de caixa disponível para investimento pelo produtor tenha encolhido drasticamente nos últimos anos. Se no pico do ciclo havia algo próximo de R$ 200 bilhões circulando no campo para expansão e infraestrutura, hoje esse montante estaria na casa dos R$ 20 bilhões.

“Quando você extrapola safra, preço médio e margem, o que sobra para o agricultor investir caiu quase 90% em relação ao auge do ciclo. Isso explica a retração em fazendas e reforça a importância da estratégia de outros negócios: agroindústrias e negócios internacionais", disse o executivo.

Segundo Nogueira, a industrialização do agro brasileiro é um movimento estrutural. “O déficit de armazenagem continua existindo, mas a industrialização do agro - muito puxada por biocombustíveis, etanol de milho, etanol de trigo, proteínas - tem sido um vetor importante. 2026 deve ser muito pautado por isso”, afirmou.

No mercado externo, o destaque foi a Argentina. A receita internacional cresceu muito entre 2023 e 2025, impulsionada por uma retomada de investimentos após anos de subinvestimento no país vizinho.

“A Argentina ficou mais de 20 anos praticamente sem investir em armazenagem. Existe uma defasagem grande. Hoje já é o segundo país mais importante nas nossas exportações e pode ganhar ainda mais relevância”, disse o CEO. Segundo ele, os hermanos passaram de um patamar de zero reais em compras para montantes próximos a R$ 5 milhões em 2024 e R$ 50 milhões em 2025.

O país correspondeu por 23% das receitas internacionais no ano passado, ficando atrás apenas do Paraguai.

"2025 não foi uma onda, e sim um novo momento da Argentina. O país tem potencial para ser nosso principal destino de exportação pelo tamanho da safra e pelos anos sem investimento. Ano passado, em uma viagem, notamos que eles precisam de logística e armazenagem", disse.

Além de apostar numa sequência de bons resultados internacionais e pela demanda contínua das agroindústrias, Nogueira também reforçou que o mercado de portos pode voltar a se aquecer. Ele explicou que esse é um segmento de poucos projetos: enquanto reposição e serviços soma 11 mil pedidos, essa operação conta com cerca de cinco por ano.

"É binário, é um segmento quase 'tudo ou nada' mas que continuamos a acreditar. Existem bons investimentos que serão anunciados em 2026 e estamos bem posicionados para participar de vários deles. Continua sendo um foco importante, mas não dá para crescer 20% todo ano", disse.

O segmento de fazendas ainda deve continuar difícil, estimou o CEO. Ele cita que os próximos meses - que antecedem a safra 2026/27, são cruciais para montar a carteira de pedidos, mas que hoje, mesmo com juros caindo alguns pontos ao longo do ano, só impactariam positivamente os resultados da Kepler em 2027.

O CFO Renato Arroyo destacou que, mesmo em um ambiente adverso, a companhia conseguiu preservar margens por meio de eficiência operacional.

“O nosso custo fabril está estável. O que tivemos foi compressão de preços, muito em função do mercado como um todo: commodities em patamar mais baixo, juros elevados e escassez de crédito. Mesmo assim, conseguimos entregar uma margem Ebitda de 15,6% no ano, o que consideramos saudável para o ciclo atual”, afirmou. No ano passado, a margem Ebitda foi de 20,4%.

Arroyo ressaltou ainda que a empresa elevou investimentos em inovação e tecnologia nos últimos anos, mesmo com a retração do mercado.

“Crescemos mais de 50% em Capex de um ano para o outro e dobramos o investimento em novos produtos. Hoje, 12% do nosso faturamento vem de produtos lançados nos últimos cinco anos. Mesmo num cenário difícil, não vamos desligar o motor”, disse.

A avaliação interna é que o atual ciclo encontra a Kepler em posição distinta daquela vivida em crises anteriores, como no início dos anos 2000 ou nos anos 1990, quando a companhia foi entregue a bancos. “Hoje temos diversificação, presença internacional forte e uma gestão muito focada em retorno sobre o capital. Isso nos permite atravessar um ciclo negativo do agro com rentabilidade ainda saudável”, disse o CEO, Bernardo Nogueira.

Resumo

  • A Kepler Weber encerrou 2025 com lucro de R$ 156,3 milhões (-21,5%) e receita de R$ 1,49 bilhão (-7%), refletindo a forte queda na capacidade de investimento do produtor rural
  • As vendas para fazendas (-9,7%) e agroindústrias (-17,8%) puxaram o recuo, enquanto negócios internacionais (+19,4%) e reposição e serviços (+10,1%) ajudaram a sustentar resultados
  • Mesmo em ciclo adverso, a empresa manteve margem Ebitda de 15,6%, reduziu dependência do mercado doméstico e aposta em industrialização do agro e retomada de portos e Argentina para 2026