A Camil até conseguiu ganhar mais mercado em meio a cotações mais baixas, mas ainda encontra dificuldades em fazer o lucro crescer. A empresa, dona das marcas Camil, União e Coqueiro vendeu 17,9% mais produtos no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026 (referente ao período entre março e maio deste ano, referenciando o ano do arroz), volume suficiente para praticamente compensar a queda dos preços e manter praticamente estável sua receita.

Ainda assim, o lucro líquido despencou 57,6% na comparação anual, passando de R$ 66 milhões para R$ 28 milhões, pressionado pelo aumento das despesas operacionais e financeiras. Os números foram divulgados na noite desta terça-feira, 14 de julho.

A receita líquida somou R$ 2,67 bilhões entre março e maio, um leve recuo de apenas 0,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

"Mesmo diante de um cenário de preços menores de arroz no Brasil e na América Latina, a receita líquida permaneceu praticamente estável, evidenciando que o forte crescimento de volumes compensou, quase integralmente, o efeito da deflação de preços", avaliou a Camil em mensagem que acompanha o balanço.

A dinâmica ficou evidente na principal divisão da empresa, o chamado alto giro (categoria que reúne arroz, feijão, outros grãos e açúcar). O segmento vendeu 333,1 mil toneladas no trimestre, alta de 13,9% em um ano, enquanto o preço médio caiu 3,5%, para R$ 3,82 por quilo.

Segundo a companhia, o aumento do volume foi impulsionado principalmente pelos grãos e açúcar, e reflete a estratégia adotada desde o ano passado para ampliar a presença das marcas no varejo.

Os preços, no entanto, continuaram pressionados pelo ambiente de mercado. O arroz em casca terminou o trimestre cotado, em média, a R$ 60,77 por saca, queda de 21,3% em um ano. O açúcar também recuou, com baixa de 23,2%, enquanto o feijão foi a exceção, acumulando valorização de 52% no período.

O movimento se repetiu nas operações internacionais. O volume vendido fora do Brasil cresceu 25,8%, alcançando 211,4 mil toneladas, impulsionado principalmente pelas operações no Uruguai, Chile e Paraguai.

O preço médio líquido, porém, caiu 32,4%, para R$ 3,04 por quilo, refletindo a queda das cotações do arroz em praticamente todos os mercados onde atua. "Em um cenário de preços deprimidos, seguimos ampliando posições nos mercados em que atuamos", diz o balanço.

A divisão de maior valor agregado continuou funcionando como um contraponto ao negócio tradicional de grãos. O segmento, que reúne pescados, café, massas e biscoitos, registrou crescimento de 14,6% tanto no volume quanto no preço médio de venda. Foram comercializadas 49 mil toneladas no trimestre, ao preço médio de R$ 17,52 por quilo.

Segundo a Camil, o avanço foi sustentado principalmente pelas categorias de pescados, café e biscoitos, parcialmente compensado pelo desempenho mais fraco das massas. O café continuou sendo um dos destaques do período, de acordo com a empresa, mesmo com uma queda de 28,6% na cotação em um ano, com o grão negociado a R$ 1,79 mil por tonelada.

A empresa conseguiu melhorar sua rentabilidade industrial, e viu o custo dos produtos vendidos cair 3,1% em um ano, passando de R$ 2,08 bilhões para R$ 2,01 bilhões na comparação anual. A redução refletiu principalmente a queda dos preços das matérias-primas no segmento internacional e na categoria de alto giro, efeito que compensou o crescimento de quase 18% nos volumes comercializados, de acordo com a empresa.

Com isso, o lucro bruto avançou 7,5%, passando de R$ 606,1 milhões para R$ 651,8 milhões. A margem bruta também melhorou, saindo de 22,6% para 24,4% da receita líquida.

Apesar de registrar uma operação industrial mais rentável, o mesmo não aconteceu abaixo da linha do lucro bruto.

As despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A, na sigla em inglês) cresceram 22,7% em um ano, saltando de R$ 443,1 milhões para R$ 543,9 milhões (o equivalente a 20% da receita líquida). O avanço consumiu boa parte do ganho obtido com custos menores de matérias-primas e acabou pressionando a geração de caixa da companhia.

Segundo a empresa, as despesas com vendas aumentaram principalmente por causa do crescimento dos gastos com frete, consequência do maior volume transportado, de alterações no mix de rotas e do reajuste da tabela da ANTT. Também pesaram a ampliação da equipe de promotores e mudanças na estrutura comercial, de acordo com o documento.

Do lado das despesas administrativas, a companhia destacou uma provisão jurídica não recorrente de R$ 21,7 milhões, relacionada a um acordo em um processo envolvendo vale-pedágio, além de maiores gastos com pessoal, projetos de tecnologia e consultorias.

Apesar da melhora da margem bruta, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 9,9%, passando de R$ 233,1 milhões para R$ 210 milhões. A margem Ebitda recuou de 8,7% para 7,9% na mesma comparação.

A linha financeira também continuou pesando sobre o resultado. A despesa financeira líquida aumentou 19,9% em um ano, passando de R$ 118,4 milhões para R$ 142 milhões. Segundo a companhia, o avanço reflete principalmente o ambiente de juros mais elevados, os efeitos da variação cambial e o desempenho das operações com instrumentos financeiros derivativos.

No fim de maio, a dívida líquida da Camil alcançou R$ 4,21 bilhões, alta de 16,6% em um ano. A alavancagem - medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda dos últimos 12 meses - aumentou de 4,1 vezes para 4,7 vezes.

Segundo a empresa, durante o trimestre foram captados aproximadamente R$ 600 milhões no Brasil para atender ao cronograma de amortizações dos próximos 12 a 14 meses. Ao mesmo tempo, os investimentos (Capex) recuaram para R$ 77,5 milhões, queda de 35,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, refletindo a conclusão das obras da nova planta de grãos e da termoelétrica de Cambaí (RS).

Resumo

  • Volume vendido cresceu 17,9%, compensando a queda dos preços e mantendo a receita praticamente estável em R$ 2,67 bilhões
  • Lucro líquido caiu 57,6%, para R$ 28 milhões, pressionado por despesas operacionais maiores e alta dos gastos financeiros
  • Dívida líquida avançou para R$ 4,21 bilhões e a alavancagem subiu de 4,1x para 4,7x em 12 meses