Com a avicultura brasileira ampliando a oferta de carne de frango neste ano, as margens dos produtores ficaram mais apertadas e parte deles reduziu o alojamento de pintinhos.
O movimento já chegou ao início da cadeia e levou a paranaense Granja Econômica, uma das maiores e mais antigas produtoras de ovos férteis e pintinhos de 1 dia do País, a rever suas projeções para 2026.
A empresa, sediada em Carambeí (PR), esperava crescer com força neste ano. Agora, considera que um avanço de apenas um dígito no faturamento já seria um bom resultado.
“Se a gente fechar esse ano com 5% a mais do que o ano passado, vai ser uma grande vitória”, afirma Oscar Toneto, diretor de negócios da Granja Econômica, em entrevista ao AgFeed.
Com isso, se confirmado o percentual, a companhia encerraria com faturamento de R$ 564,9 milhões, ante R$ 536,3 milhões em 2025.
A mudança nas perspectivas veio com a redução dos alojamentos e a perda de rentabilidade dos produtores de carne, diminuindo a demanda por pintinhos depois de um 2025 de forte rentabilidade para a avicultura.
“O ano passado foi um ano de ‘caviar’. Praticamente todos tiveram a rentabilidade fora do normal, bateu todos os recordes de lucratividade”, diz Toneto. “Mas foi um ano atípico. Não pode ser usado como referência.”
Neste ano, contudo, a oferta aumentou além da demanda, avalia o executivo. “O pessoal alojou demais, achou que a lei da oferta e procura não ia funcionar, e ela funciona sempre. Ofertou demais, alojou demais, colocou muita carne no mercado, e agora baixou o preço. Começou a dar um prejuízozinho”, afirma.
Um relatório recente do JPMorgan apontou que o Brasil segue produzindo mais frango do que o mercado demanda.
Segundo o banco norte-americano, o alojamento de pintinhos cresceu 2,3% em 2026, enquanto o abate avançou 2,5% na comparação anual.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) estima uma produção de 16 milhões a 16,15 milhões de toneladas de carne de frango neste ano, alta de até 5,6% sobre 2025.
A retração do mercado pausou parte da estratégia de expansão da Granja Econômica, capitaneada por Toneto, executivo com mais de 40 anos de experiência no setor avícola, que chegou à empresa em março do ano passado com o objetivo de estabelecer novas frentes de negócios.
Toneto conta que a Granja Econômica vinha prospectando clientes principalmente no Sul e no Sudeste, mas viu um movimento de retração. “Muitos clientes potenciais na região Sul recuaram em seus alojamentos”, resume o executivo.
Atualmente a empresa tem mais de 60 unidades nos estados do Paraná, Minas Gerais, Santa Catariana e São Paulo, diz ser a quarta maior produtora de pintinhos de 1 dia do mercado nacional e também afirma produz cerca de 336 milhões de ovos por ano e pretende chegar a 370 milhões, desde que haja demanda para absorver o aumento. “O mercado tem que responder também”, ressalta Oscar Toneto.
Apesar do volume de produção, a Granja Econômica não concorre diretamente com as marcas de ovos encontradas nos supermercados. Isso porque o ovo fértil é destinado às indústrias para a produção de pintinhos, e não pode ser comercializado junto ao consumidor final.
Mudanças no modelo de negócio
O modelo ajuda a explicar outro movimento que preocupa a companhia: a verticalização da produção pelas indústrias de carne de frango, que ficam responsáveis por todas as etapas do processo, desde a matriz e a produção de ovos férteis até a eclosão dos pintinhos e o processamento final
Na avaliação de Toneto, a participação do mercado independente de pintinhos, no qual a Granja Econômica está inserida, chegava a cerca de 50% na década de 1970, está hoje em aproximadamente 18,4% e pode diminuir ainda mais.
“Quando faltar pintinho, ele volta para 20%. Quando sobrar, ele volta para 13%, 14%”, afirma.
Para os produtores de genética, a venda de pintinhos ajuda a diluir os custos dos incubatórios. Para as indústrias, internalizar etapas da cadeia pode reduzir custos.
“É um movimento natural. Nós queremos aumentar a receita e eles querem diminuir o custo”, diz Toneto.
Diante desse cenário, segundo o executivo, a Granja Econômica tem priorizado a qualidade e a consistência do produto, em vez da disputa por preço.
“O mercado hoje está voltado mais à excelência. Para você manter o mercado, hoje tem que estar muito bem de qualidade do produto, de consistência, de entrega.”
Uma das principais frentes é a automação da coleta de ovos. A empresa está praticamente concluindo a instalação de ninhos automáticos nas granjas, em resposta à dificuldade crescente para encontrar mão de obra para a coleta manual. No ninho automático, o ovo rola para um compartimento fechado logo após a postura das aves.
“Hoje, para coletar se for manual, não tem gente para coletar. Então, você tem que fazer uma coleta mecânica”, afirma Toneto, ainda que não revele o valor total do investimento feito pela Granja Econômica nesse projeto.
Diante das oscilações no mercado doméstico, outra estratégia da Granja Econômica é acelerar exportações de ovos férteis nos próximos anos.
Hoje, a empresa já é uma das maiores exportadoras de ovos férteis do Brasil, vendendo para mercados como Senegal, República Dominicana e México.
Mas a ideia, segundo Toneto, é elevar a participação de negócios internacionais no faturamento da empresa, passando dos atuais 10% para 25% a 30% da receita.
A estratégia não é substituir o mercado brasileiro, mas diversificar os destinos e criar uma alternativa em períodos de menor demanda doméstica.
“O faturamento é menor, mas você tem que ter esse cliente. É como no Brasil: tem estados que não é tão bom vender em função do custo, porque o frete é muito alto. Mas você tem que ter diversidade”, diz o diretor da Granja Econômica.
O executivo vê espaço para o Brasil ampliar sua participação no mercado internacional de ovos, mas aponta a logística como uma das limitações para acelerar esse movimento.
Profissionalização e mercado financeiro
Criada em 1954, a Granja Econômica é uma das mais tradicionais da avicultura paranaense e continua sob controle da família Dijkinga, de origem holandesa. Nos últimos anos, todavia, passou por mudanças na gestão.
Dennis Dijkinga, pertencente à segunda geração, assumiu como CEO, enquanto que a primeira geração foi para o conselho da empresa. A família também contratou uma consultoria da Fundação Dom Cabral (FDC) para apoiar o processo de sucessão. “A gente deu uma guinada”, resume Toneto.
Além da profissionalização da gestão, a empresa também vem fazendo operações no mercado de capitais. Primeiro, no ano passado, concluiu uma emissão de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), de R$ 32 milhões, com prazo de 5 anos e custo de CDI + 4% ao ano.
Já em junho deste ano, a empresa fez uma emissão de notas comerciais, de R$ 50 milhões, em operação coordenada pela Caixa e destinada a investidores profissionais, que são aqueles com mais de R$ 10 milhões em investimentos financeiros.
Resumo
- Granja Econômica espera faturar perto de R$ 600 milhões em 2026, alta de 5% sobre 2025
- Projeção inicial era de receita maior, mas dificuldades de mercado levaram a corte
- Empresa aposta em expansão de exportação de ovos fertéis