Faltavam poucas horas para se encerrar o prazo legal de 60 dias, iniciados na data em que a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo acolheu o seu pedido de recuperação judicial, quando o Grupo Fictor protocolou, na noite da terça-feira, 23 de junho, a sua proposta oficial para renegociação para dívidas que somam R$ 4,29 bilhões.

Tornado público 24 horas depois através da plataforma da CVM, um arquivo com mais de 700 páginas traz detalhes e projeções em um complexo projeto de engenharia financeira, que vai além das tradicionais fórmulas de deságio e alongamento de prazos em busca de fôlego para quitação do passivo.

Esses pontos, é claro, estão devidamente tratados no plano de RJ da Fictor. Como é de praxe, os mais de 13 mil credores listados foram divididos por classes e a cada uma foi indicada uma condição particular para que as dívidas, após passar por severo “hair cut”, sejam pagas.

Os credores trabalhistas, enquadrados na Classe I, por exemplo têm prioridade para receber valores de até 150 salários mínimos em um prazo de 12 meses após a homologação do plano, enquanto as micro e pequenas empresas (Casse IV) contam com um teto de pagamento prioritário de R$ 8 mil.

No entanto, o cenário é muito mais complexo para os credores quirografários, que detêm 98,4% do passivo total. Para este grupo, a Fictor propõe um deságio de 95% sobre o valor de face das dívidas, com o pagamento do saldo remanescente ocorrendo em 15 parcelas anuais, após um período de carência de cinco anos.

Essa proposta, embora severa, é apresentada como a única alternativa viável caso a companhia não consiga obter, ainda este ano, um financiamento DIP, modalidade de crédito para empresas em recuperação que permitiria condições ligeiramente mais favoráveis, no valor de R$ 150 milhões.

É em torno dessa massa de credores quirografários, composta majoritariamente por investidores que aportaram recursos no grupo via Sociedades em Conta de Participação (SCP), que reside a grande inovação estrutural do plano: a criação de um Fundo Estruturado de Recuperação, batizado internamente como Fundo Credores.

Caso o plano seja aprovado – uma assembleia para que os credores decidam se aceitam ou não as condições propostas ainda deve ser marcada –, este veículo funcionará como um condomínio de ativos para onde a Fictor transferirá bens que hoje estão imobilizados ou subutilizados, como precatórios, recebíveis ou créditos de clientes inadimplentes.

O fundo estruturado será, na verdade, formado por seis diferentes fundos, com saldo agregado declarado de aproximadamente R$ 6,5 bilhões. De acordo com a companhia, os veículos seriam divididos pela categoria dos ativos. O Fictor Securitizadora, por exemplo, teria como patrimônio R$ 431,6 milhões em carteiras NPL, termo que indica créditos inadimplidos por mais de 60 dias detidos pela empresa junto a cliente.

Já o Fictor Desenvolvimento Imobiliário somaria R$ 44 milhões em recebíveis imobiliários e o FictorPay, com recebíveis da empresa de pagamentos do grupo, outros R$ 400 milhões.

O maior desse veículos seria o Claim IAA, com R$ 5 bilhões em créditos contra o Instituto do Açúcar e do Álcool, cuja monetização depende, no entanto, do desfechos de ações judiciais ainda em curso.

Na prática, a proposta é transformar os credores em cotistas do fundo estruturado, conectando a liquidação da dívida ao sucesso da venda ou exploração desses bens ao longo dos próximos anos. Os integrantes da Classe III ficariam com a maior fatia desse veículo, detendo 65% das cotas, enquanto o Grupo Fictor preservaria 25% para garantir que a holding mantenha o interesse e a capacidade de gerir a retomada. Os 10% restantes seriam divididos entre os credores das classes II e IV.

O plano de RJ traz anexo um parecer técnico de viabilidade, assinado pela empresa paulista Laboratório de Negócios, que em sua página no LinkedIn se define como “especializada em consultoria de gestão e financeira para pequenas e médias empresas” e, entre os serviços oferecidos, inclui a elaboração de planos de recuperação econômico e judicial.

Segundo esse parecer, o motor que deve dar tração a toda essa engenharia é a retomada operacional, centrada quase exclusivamente na divisão de Alimentos, maior área de negócios da Fictor. A estratégia teria como protagonista uma das empresas do grupo, Fredini Alimentos, apresentada como um projeto de verticalização total da cadeia de proteínas.

A estratégia consiste em controlar desde os incubatórios e a produção de ração até o abate e a distribuição final, eliminando intermediários e capturando margens em cada etapa do processo.

O parecer técnico detalha que a empresa passará por um período de "sobrevivência e consolidação" entre 2026 e 2027, operando com margens estreitas e dependendo do financiamento DIP para recompor o capital de giro.

O salto real está projetado para 2028, ano em que a Fredini deve atingir escala plena, fazendo com que a receita bruta da divisão salte de uma receita prevista para R$ 16 milhões em 2026 para R$ 353,6 milhões em 2028, quando, na visão dos consultores, o Ebitda do grupo finalmente deve se tornar positivo e sustentável.

Para que essa engrenagem gire, o fluxo de monetização de ativos e o cronograma de desembolsos foram desenhados de forma a acompanhar o amadurecimento da operação de alimentos. Entre 2026 e 2029, o grupo prevê levantar R$ 475 milhões através da alienação de ativos não estratégicos e da liquidação de posições em outros setores, como infraestrutura e energia.

Esse capital seria o combustível para os primeiros pagamentos e para o investimento necessário na Fredini. A partir de 2028, com a operação de alimentos em ritmo acelerado, o fluxo de caixa operacional passaria a ser a principal fonte de alimentação do plano de pagamentos.

O cronograma de desembolso para os credores que optarem pela regra geral prevê que, após uma carência de cinco anos, os pagamentos anuais comecem a fluir de forma mais robusta, estendendo-se por 15 anos, garantindo que a empresa não sofra uma asfixia financeira logo nos primeiros passos da retomada.

Segundo o parecer da Laboratório de Negócios, “o cronograma de pagamentos inserido na modelagem financeira projeta desembolsos substanciais aos credores a partir de 2027, ano em que a contratação do DIP viabiliza os primeiros pagamentos concursais relevantes”.

Apenas para os credores da classe III, segundo o documento, os valores alcançam R$ 194,3 milhões em 2027, R$ 188,5 milhões em 2028 e R$ 61,8 milhões em 2029.

Assim, a viabilidade do plano de recuperação da Fictor Alimentos depende de um alinhamento quase perfeito entre a anuência dos credores quirografários e a execução técnica da verticalização da Fredini. O laudo técnico ressalta que, embora a crise tenha sido severa e de origem reputacional, os fundamentos do negócio de alimentos permanecem sólidos.

A aposta da Fictor é que, ao transformar o passivo bilionário em cotas de um fundo de ativos diversificado e focar todas as energias na produção de proteína animal, a companhia conseguirá atravessar o deserto de liquidez dos próximos dois anos para emergir, a partir de 2028, como uma operação enxuta e focada no agronegócio.

O sucesso dessa jornada, contudo, permanece atrelado à capacidade de atrair o financiamento DIP e à eficácia na venda dos ativos que compõem o Fundo Credores, elementos essenciais para que a Fredini Alimentos deixe de ser uma promessa e se torne a realidade financeira projetada pelo grupo.

Resumo

  • Plano de RJ da Fictor prevê deságio de até 95%, criação de fundo de credores e conversão de dívidas em cotas lastreadas por ativos
  • Estrutura reúne cerca de R$ 6,5 bilhões em recebíveis, precatórios e créditos inadimplidos para financiar a recuperação do grupo
  • Estratégia aposta na expansão da Fredini Alimentos e na verticalização da cadeia de proteínas para gerar caixa e sustentar pagamentos