A matéria foi atualizada no dia 30/01/2026 para incluir um posicionamento oficial da Aliança Agrícola do Cerrado. O texto pode ser visto ao final da reportagem.
E-mails não respondidos, ligações ignoradas e até executivos deletando perfis no LinkedIn. Nos últimos dias, o silêncio (e breve reaparecimento) da trading Aliança Agrícola do Cerrado mexeu com credores, investidores e parceiros comerciais de uma das maiores tradings de grãos do País. Algo que, nos bastidores, já é interpretado como o prenúncio de um processo de insolvência.
Controlada pelo grupo russo Sodrugestvo, do empresário Alexander Lutsenko, a companhia desapareceu do radar do mercado no início de janeiro, num movimento que antecedeu uma sequência de eventos que culminaram no vencimento antecipado de dívidas, execução de garantias e num pedido de proteção judicial contra credores.
Para advogados e credores que acompanham o caso de perto, a leitura hoje é que a empresa perdeu o timing e o controle da própria estratégia.
Nesta sexta-feira, 23 de janeiro, como mostrou o site The Agribiz, a empresa protocolou um pedido de tutela de urgência cautelar na Justiça de São Paulo para suspender o pagamento de dívidas por 60 dias, o chamado stay period, numa tentativa de ganhar fôlego para negociar com credores, buscar novos financiamentos ou até avaliar alternativas como parcerias e arrendamentos.
O pedido de tutela segue em análise, mas o juiz Marco Antonio Abdallah Deotti Ibrahim indeferiu o pedido de segredo de justiça, apontando falhas formais na petição, incluindo a escolha do foro e a ausência de fundamentos legais para o sigilo.
Nos bastidores, a avaliação é que a companhia tentou seguir um caminho comum no mercado: usar uma cautelar antecedente como porta de entrada para uma recuperação judicial, mas a leitura é que a empresa errou na execução.
Segundo um advogado que acompanha de perto o processo, havia um diálogo constante entre a empresa e seus financiadores até o final de 2025. Esse contato, no entanto, foi abruptamente interrompido.
“Até o final do ano passado, havia comunicação permanente com credores. De repente, a empresa adotou uma estratégia de silêncio absoluto, sem responder e-mails ou ligações, provavelmente já costurando essa tutela com efeitos de recuperação”, afirmou ao AgFeed.
O problema, segundo ele, é que a petição foi mal instruída, uma verdadeira "trapalhada", nas palavra do advogado, sem base legal sólida para o foro escolhido e sem justificativa consistente para o pedido de sigilo.
Um dos motivos de questionamento - e consequente negação do pedido de sigilo na justiça - envolve geografia: o Estatuto Social da Aliança Agrícola fixa a sede da empresa em Uberlândia (MG), mas a empresa utilizou a filial de São Joaquim da Barra (SP) no argumento para o pedido.
O estopim concreto veio no dia 15 de janeiro, quando a Aliança deixou de pagar os juros de uma emissão de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), estruturada pela securitizadora Ecoagro. Diante da inadimplência, a Ecoagro declarou o vencimento antecipado automático dos títulos no dia seguinte e iniciou o processo de execução das garantias, conforme previsto nos documentos da operação.
Em comunicado ao mercado, a securitizadora informou que utilizará R$ 114,3 milhões já retidos em uma conta vinculada para realizar o resgate antecipado total dos CRAs no próximo dia 27 de janeiro, com pagamento integral de principal, juros, multa e encargos.
“Após a confirmação da inadimplência, enviamos notificação formal à empresa. Como não houve pagamento nem manifestação dentro do prazo contratual, iniciamos a execução das garantias, em cumprimento das obrigações com os investidores”, informou a Ecoagro no documento.
Segundo a securitizadora, os investidores não correm risco de calote. A operação é lastreada por garantias como soja depositada sob custódia, cessão de contratos de compra e venda e recursos em uma conta destinada ao processo.
O modelo previa que, à medida que a soja fosse retirada, a empresa recomporia as garantias com aportes em dinheiro, justamente o que deu liquidez para o pagamento.
Esse movimento acabou comprimindo ainda mais o espaço de manobra da Aliança e acelerando um processo que, na visão do advogado que falou com a reportagem, tende a desembocar numa insolvência formal. “Quando você erra na estratégia e expõe o problema, o mercado reage rápido. A tendência agora é essa”, resume.
Segundo ele, o efeito foi oposto do esperado, e ao invés da Aliança ganhar tempo, deu visibilidade ao problema, fazendo com que outros credores acelerassem imediatamente sua execução de garantias.
O caso chamou a atenção do mercado por que, do ponto de vista operacional, tudo parecia normal na Aliança. Segundo reportagem do The Agribiz, a companhia faturou R$ 4,6 bilhões na safra 2024/25 e registrou um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) de R$ 152 milhões, com margem de 3,3%, compatível com o mercado de tradings de grãos.
O problema estava no financeiro. Ao fim de junho, a empresa acumulava cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas e já havia rompido covenants financeiros no fim de 2025, o que levou credores a intensificarem o monitoramento da companhia. “Os números não refletiam bem uma operação que, no dia a dia, funcionava. Mas o mercado já vinha desconfiado”, afirma a fonte.
Em um posicionamento público publicado no LinkedIn no dia 22 de janeiro, a própria Aliança Agrícola do Cerrado reconheceu as dificuldades. A empresa citou volatilidade de preços, compressão de margens, restrição de liquidez, juros elevados e desafios logísticos.
Somado a isso, admitiu que perdas acumuladas na operação de trading elevaram o endividamento e levaram à paralisação temporária das plantas industriais, embora tenha reforçado um discurso de continuidade.
“A Companhia reafirma seu compromisso com a continuidade das operações e com a preservação de valor”, afirmou a empresa, que também informou estar revisando o modelo de negócios e buscando alternativas de capital e parcerias.
Posicionamento oficial da Aliança Agrícola do Cerrado
A Aliança Agrícola do Cerrado esclarece que realizou uma paralisação operacional temporária, decisão tomada diante do contexto desafiador do mercado nacional e internacional de grãos. A empresa segue ativa, com diretoria em exercício e uma estrutura que conduz um processo de reestruturação focado na perenidade. A Companhia avalia alternativas para a retomada da operação, tanto que continua realizando manutenções preventivas em suas plantas de esmagamento.
O silêncio institucional recente decorreu da expectativa de uma decisão judicial célere, no âmbito de medida cautelar, e de uma estratégia de preservação das negociações em andamento.
Desde 2025, o cenário global teve volatilidade de preços, compressão de margens, restrição de liquidez e juros elevados. A Aliança sempre cumpriu suas obrigações legais para preservar valor e manteve um canal aberto de comunicação com a liderança sindical.
A empresa esclarece que não há favorecimento na quitação dos credores. Os recursos destinados ao pagamento de instituições financeiras já estavam legalmente garantidos, ou seja, já na posse das instituições financeiras, respeitando contratos e dispositivos jurídicos vigentes.
Por fim, a Companhia ressalta que mantém neste momento uma estrutura formada por aproximadamente 60 profissionais focados na reestruturação e retomada da continuidade da operação o mais rápido possível.
Resumo
- A Aliança sumiu do radar no início de janeiro e deixou de pagar juros de um CRA, acionando vencimento antecipado e execução de garantias de uma operação de R$ 114,3 milhões
- A empresa tentou ganhar tempo com uma tutela cautelar para suspender dívidas por 60 dias, mas teve o pedido de sigilo negado, o que acelerou a reação de outros credores
- Apesar de faturar R$ 4,6 bilhões na safra 2024/25 e ter Ebitda de R$ 152 milhões, a trading acumulava R$ 1,3 bilhão em dívidas e já havia rompido covenants no fim de 2025