E-mails não respondidos, ligações ignoradas e até executivos deletando perfis no LinkedIn. Nos últimos dias, o silêncio (e breve reaparecimento) da trading Aliança Agrícola do Cerrado mexeu com credores, investidores e parceiros comerciais de uma das maiores tradings de grãos do País. Algo que, nos bastidores, já é interpretado como o prenúncio de um processo de insolvência.

Controlada pelo grupo russo Sodrugestvo, do empresário Alexander Lutsenko, a companhia desapareceu do radar do mercado no início de janeiro, num movimento que antecedeu uma sequência de eventos que culminaram no vencimento antecipado de dívidas, execução de garantias e num pedido de proteção judicial contra credores.

Para advogados e credores que acompanham o caso de perto, a leitura hoje é que a empresa perdeu o timing e o controle da própria estratégia.

Nesta sexta-feira, 23 de janeiro, como mostrou o site The Agribiz, a empresa protocolou um pedido de tutela de urgência cautelar na Justiça de São Paulo para suspender o pagamento de dívidas por 60 dias, o chamado stay period, numa tentativa de ganhar fôlego para negociar com credores, buscar novos financiamentos ou até avaliar alternativas como parcerias e arrendamentos.

O pedido de tutela segue em análise, mas o juiz Marco Antonio Abdallah Deotti Ibrahim indeferiu o pedido de segredo de justiça, apontando falhas formais na petição, incluindo a escolha do foro e a ausência de fundamentos legais para o sigilo.

Nos bastidores, a avaliação é que a companhia tentou seguir um caminho comum no mercado: usar uma cautelar antecedente como porta de entrada para uma recuperação judicial, mas a leitura é que a empresa errou na execução.

Segundo um advogado que acompanha de perto o processo, havia um diálogo constante entre a empresa e seus financiadores até o final de 2025. Esse contato, no entanto, foi abruptamente interrompido.

“Até o final do ano passado, havia comunicação permanente com credores. De repente, a empresa adotou uma estratégia de silêncio absoluto, sem responder e-mails ou ligações, provavelmente já costurando essa tutela com efeitos de recuperação”, afirmou ao AgFeed.

O problema, segundo ele, é que a petição foi mal instruída, uma verdadeira "trapalhada", nas palavra do advogado, sem base legal sólida para o foro escolhido e sem justificativa consistente para o pedido de sigilo.

Um dos motivos de questionamento - e consequente negação do pedido de sigilo na justiça - envolve geografia: o Estatuto Social da Aliança Agrícola fixa a sede da empresa em Uberlândia (MG), mas a empresa utilizou a filial de São Joaquim da Barra (SP) no argumento para o pedido.

O estopim concreto veio no dia 15 de janeiro, quando a Aliança deixou de pagar os juros de uma emissão de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), estruturada pela securitizadora Ecoagro. Diante da inadimplência, a Ecoagro declarou o vencimento antecipado automático dos títulos no dia seguinte e iniciou o processo de execução das garantias, conforme previsto nos documentos da operação.

Em comunicado ao mercado, a securitizadora informou que utilizará R$ 114,3 milhões já retidos em uma conta vinculada para realizar o resgate antecipado total dos CRAs no próximo dia 27 de janeiro, com pagamento integral de principal, juros, multa e encargos.

“Após a confirmação da inadimplência, enviamos notificação formal à empresa. Como não houve pagamento nem manifestação dentro do prazo contratual, iniciamos a execução das garantias, em cumprimento das obrigações com os investidores”, informou a Ecoagro no documento.

Segundo a securitizadora, os investidores não correm risco de calote. A operação é lastreada por garantias como soja depositada sob custódia, cessão de contratos de compra e venda e recursos em uma conta destinada ao processo.

O modelo previa que, à medida que a soja fosse retirada, a empresa recomporia as garantias com aportes em dinheiro, justamente o que deu liquidez para o pagamento.

Esse movimento acabou comprimindo ainda mais o espaço de manobra da Aliança e acelerando um processo que, na visão do advogado que falou com a reportagem, tende a desembocar numa insolvência formal. “Quando você erra na estratégia e expõe o problema, o mercado reage rápido. A tendência agora é essa”, resume.

Segundo ele, o efeito foi oposto do esperado, e ao invés da Aliança ganhar tempo, deu visibilidade ao problema, fazendo com que outros credores acelerassem imediatamente sua execução de garantias.

O caso chamou a atenção do mercado por que, do ponto de vista operacional, tudo parecia normal na Aliança. Segundo reportagem do The Agribiz, a companhia faturou R$ 4,6 bilhões na safra 2024/25 e registrou um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) de R$ 152 milhões, com margem de 3,3%, compatível com o mercado de tradings de grãos.

O problema estava no financeiro. Ao fim de junho, a empresa acumulava cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas e já havia rompido covenants financeiros no fim de 2025, o que levou credores a intensificarem o monitoramento da companhia. “Os números não refletiam bem uma operação que, no dia a dia, funcionava. Mas o mercado já vinha desconfiado”, afirma a fonte.

Em um posicionamento público publicado no LinkedIn no dia 22 de janeiro, a própria Aliança Agrícola do Cerrado reconheceu as dificuldades. A empresa citou volatilidade de preços, compressão de margens, restrição de liquidez, juros elevados e desafios logísticos.

Somado a isso, admitiu que perdas acumuladas na operação de trading elevaram o endividamento e levaram à paralisação temporária das plantas industriais, embora tenha reforçado um discurso de continuidade.

“A Companhia reafirma seu compromisso com a continuidade das operações e com a preservação de valor”, afirmou a empresa, que também informou estar revisando o modelo de negócios e buscando alternativas de capital e parcerias.

Resumo

  • A Aliança sumiu do radar no início de janeiro e deixou de pagar juros de um CRA, acionando vencimento antecipado e execução de garantias de uma operação de R$ 114,3 milhões
  • A empresa tentou ganhar tempo com uma tutela cautelar para suspender dívidas por 60 dias, mas teve o pedido de sigilo negado, o que acelerou a reação de outros credores
  • Apesar de faturar R$ 4,6 bilhões na safra 2024/25 e ter Ebitda de R$ 152 milhões, a trading acumulava R$ 1,3 bilhão em dívidas e já havia rompido covenants no fim de 2025