O ano de 2026 já está marcado como um dos períodos mais ativos do grupo Amaggi no mercado de capitais. Em junho passado, a companhia captou R$ 3,5 bilhões em notas de dívida para financiar a compra de 40% da FS, produtora de etanol de milho.
Dois meses depois, em agosto, emitiu R$ 500 milhões em CRA com prazo de sete anos, quase em simultâneo com a liquidação de uma emissão anterior, do mesmo valor.
Nesta semana, um novo movimento do conglomerado da família Maggi chamou a atenção. A Amaggi concluiu na terça-feira, 27 de outubro, a recompra de US$ 257,4 milhões (o equivalente a R$ 1,375 bilhão no câmbio do dia) em títulos de dívida internacional com vencimento em janeiro de 2028.
Os papeis em questão são do tipo sustainability bonds (títulos sustentáveis, conforme a própria companhia define em documentos internos), instrumento que combina critérios ambientais e sociais, e foram emitidos em 2021 pela Amaggi Luxembourg International, subsidiária indireta do grupo sediada em Luxemburgo com foco na emissão de títulos representativos de dívida.
Na ocasião, a empresa captou US$ 750 milhões. Antes da operação, o saldo em circulação desses papeis era de US$ 655,4 milhões.
A recompra foi feita por meio de uma “tender offer” (oferta voluntária de recompra antecipada), estratégia de gestão de passivos financeiros na qual a empresa oferece aos investidores a possibilidade de revender seus títulos antes do vencimento, mediante pagamento em dinheiro.
A oferta foi aberta em 19 de outubro. Nela, a empresa se dispunha a retirar do mercado um total de até US$ 300 milhões desse total, propondo o pagamento de US$ 990 para cada US$ 1.000 de valor nominal, um deságio de apenas 1% sobre o principal, com pagamento de juros acumulados até a data de liquidação.
A demanda atingiu 85,8% da meta dentro do prazo estipulado, que se encerrava no dia 23. Com isso, restaram US$ 397,934 milhões em aberto da emissão original.
O Banco Bradesco BBI e o Santander US Capital Markets atuaram como dealer managers da operação. A D.F. King & Co. foi o agente de informação e de tender.
A resposta dos investidores à proposta foi considerada bem-sucedida por uma fonte próxima da Amaggi, por reduzir o saldo nominal dessa emissão em quase 40% – a companhia não se manifestou sobre a operação.
Ao mesmo tempo, a adesão abaixo do limite ofertado foi interpretado como uma demonstração de “conforto dos investidores que não querem se desfazer do papel da empresa”.
Segundo essa fonte, “a decisão da companhia de antecipar o resgate dos títulos ocorreu em função do acúmulo e disponibilidade de caixa para o reperfilamento de seu endividamento”. No documento da oferta, Amaggi declara que pagará a compra e as despesas com caixa próprio.
A gestão do endividamento é uma preocupação crescente na companhia, sobretudo após o anúncio da aquisição da participação na FS. A alavancagem necessária para o investimento levou a Fitch a rebaixar, em julho passado, os ratings de crédito da companhia para B+ e o rating nacional para A(bra), com perspectiva estável.
A agência de rating projeta alavancagem ajustada por estoques de liquidez imediata (RMI) de 5,6 vezes em 2026, 5,2 vezes em 2027 e 4,8 vezes em 2028, com a alavancagem líquida ajustada por RMI acima de 4,0 vezes em todo o período.
Frente a esse quadro, a recompra se encaixa dentro de uma gestão ativa de passivo. O cronograma de amortização pro forma divulgado pela Fitch aponta US$ 1,2 bilhão de vencimentos em 2026, US$ 765 milhões em 2027 e US$ 1,3 bilhão em 2028. Com isso, a operação retira cerca de um quinto do muro de 2028.
Resumo
- Amaggi recompra US$ 257,4 milhões em títulos sustentáveis emitidos em 2021, reduzindo em quase 40% o saldo em circulação
- Operação foi financiada com caixa próprio e integra a estratégia de gestão da dívida após a aquisição de 40% da FS
- Recompra reduz parte dos vencimentos previstos para 2028, em meio à alavancagem elevada