Faz pouco mais de um ano que a multinacional agrícola americana Corteva e a britânica BP anunciaram a intenção de trabalhar juntas em um projeto de biocombustíveis. A ideia, segundo informaram em novembro de 2024, era aproveitar o momento em que muitas indústrias precisam cumprir normas de descarbonização e atuar fornecendo matérias-primas para produção de combustíveis verdes.

Nesta quarta-feira, 7 de janeiro, o projeto saiu do papel com a criação de uma joint-venture focada na produção de óleos vegetais que serão usados para a manufatura de biocombustíveis.

Batizada de Etlas, a nova empresa nasce com seu capital dividido igualmente entre as companhias e, segundo comunicado, irá produzir óleo a partir de culturas como canola, mostarda e girassol - culturas ou de inverno ou de terceira safra no Brasil - para uso na produção de biocombustíveis, como combustível sustentável (ou sintético) para aviação (SAF) e diesel renovável (RD).

"A Etlas aproveitará a experiência centenária da Corteva em tecnologia de sementes para desenvolver culturas idealmente adaptadas à produção de SAF e RD, bem como a expertise da BP em refino e comercialização de combustíveis para o mercado de transporte comercial", diz a nota.

A meta da nova companhia é produzir 1 milhão de toneladas métricas de matéria-prima por ano até meados de 2030, o que, nas contas da empresa, pode gerar mais de 800 mil toneladas de biocombustível. O fornecimento inicial está programado para começar em 2027 para uso em coprocessamento em refinarias, bem como em plantas dedicadas à produção de biocombustíveis.

O pano de fundo sob qual a empresa nasce é a perspectiva de mercado de que a demanda global por SAF possa atingir 10 milhões de toneladas até 2030, enquanto que a de diesel renovável chegue a 35 milhões de toneladas até o mesmo ano.

As empresas calculam que, em 2024, a demanda por SAF era de 1 milhão de toneladas, e a de RD, de 17 milhões de toneladas.

O CEO da Etlas será Ignacio Conti, que até então ocupava o posto de diretor global de desenvolvimento de negócios na Corteva. Do lado da BP, Gauray Sonar, vice-presidente de insumos da BP, será o presidente do conselho de administração.

Na parte agrícola, mais atribuída à Corteva, a ideia é contar com produtores na América do Sul e Europa. Para além do refino, do lado da BP, entra também a expertise com empresas aéreas compradoras.

Por meio de sua subsidiária BP Air, a empresa atende companhias aéreas comerciais, operadores de jatos privados, governos e forças armadas, além de aeroportos e serviços de aviação geral.

A britânica BP tem dado sinais trocados em sua aposta nos biocombustíveis. Primeiro, adquiriu a parte da Bunge em uma joint-venture (a então BP Bunge) do setor sucroenergético brasileiro em junho de 2024.

A companhia pagou US$ 1,4 bilhão para ficar com o controle integral de 11 usinas de etanol em cinco estados brasileiros, com capacidade para moer 32 toneladas de cana. Com isso, a BP Bioenergy se posicionou como a segunda maior companhia sucroenergética do País.

O movimento era parte de uma estratégia iniciada em meados de 2019 de redesenhar a histórica petroleira como uma empresa de energia, atuando fortemente na transição energética.

De lá até 2025, contudo, em meio a pressões de fundos ativistas entre acionistas, a guerra na Ucrânia que elevou o preço do barril do petróleo e uma mensagem clara do novo presidente dos EUA, Donald Trump, em seguir com uma agenda mais amigável aos combustíveis fósseis, a BP voltou atrás.

Em 2025, anunciou - em um comunicado chamado de "reset estratégico" -, que iria aumentar em 50% seus investimentos em óleo e gás, para um patamar de US$ 10 bilhões ao ano. Ao mesmo tempo, cortou em 70% os investimentos em energia renovável.

Na época, o CEO da BP, Murray Auchincloss, afirmou ao mercado que o "otimismo por uma transição rápida estava fora do lugar e foi longe demais", e disse que óleo e gás serão necessários por décadas.

Resumo

  • Corteva e BP tiram do papel parceria anunciada em 2024 e criam a Etlas, joint-venture com capital dividido igualmente, focada na produção de óleos de canola, mostarda e girassol para biocombustíveis
  • Nova empresa mira produzir 1 milhão de toneladas de matéria-prima por ano até meados de 2030, com potencial de gerar mais de 800 mil toneladas de SAF e diesel renovável, e início do fornecimento previsto para 2027
  • Projeto nasce em meio a um mercado que projeta demanda global de até 45 milhões de toneladas de SAF e RD até 2030, enquanto a BP tenta equilibrar apostas em biocombustíveis com um recente reforço bilionário em óleo e gás