As duas últimas semanas foram marcadas por um “sopro de otimismo” no mercado de fertilizantes no Brasil, com o maior nível de comercialização dos últimos doze meses.

A definição é de Eduardo Monteiro, country manager da multinacional americana Mosaic no País. Segundo ele, as indústrias do setor venderam cerca de 2 milhões de toneladas de produtos no período, com as encomendas impulsionadas pela correção dos preços da soja, tanto no mercado internacional como no nacional.

“Ficamos felizes. Não significa que a tendência já virou, mas foram uns 14 dias intensos e isso é bom”, afirmou o executivo ao AgFeed em conversa na manhã desta segunda-feira, 20 de julho.

A valorização da soja – que subiu para patamares acima de US$ 12 o bushel (medida equivalente a 27,2 quilos) no exterior e levou a negociações na casa dos R$ 120 a saca no Cerrado brasileiro – melhorou a relação de troca com adubos, animando o produtor rural a avançar nas compras de insumos, que vinham em ritmo muito lento praticamente desde o começo do ano.

‘”Se você olhar a média histórica das relações de troca, média Mato Grosso, é de 22 sacas por hectare. Estava pior, em 26, e esse aumento deu uma ajuda e fez com que o gap fosse reduzido”, afirmou Monteiro. “No ano passado, foi 25”.

Segundo ele, com o impulso das últimas semanas, a comercialização de fertilizantes para a próxima safra de soja, que começa a ser plantada em breve, já atingiu 80% das necessidades dos produtores.

O resultado é puxado pelo maior estado produtor, Mato Grosso, onde as encomendas já atingiram 90% do estimado para a safra. Paraná (84%) e a região do Matopiba (acima de 80%), também contribuíram.

“Goiás também, que estava atrasado até antes dessa rodada ficou em linha, está com 80% do volume comercializado”, disse Monteiro.

Em compensação, os produtores de Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão atrasados, com índices entre 55% e 70%.

O avanço para o patamar nacional de 80% é positivo, mas ainda coloca a atual safra em um ritmo inferior, em cerca de 5 pontos percentuais, em relação ao ano passado - antes do atual rally esse atraso era de 10 pontos.

A recuperação vista, na visão do executivo, não é suficiente para reverter as previsões de consultorias especializadas de que a produção de soja na safra 2026/2027 vai recuar em relação a 2025/2026 também por conta de um menor investimento dos produtores na adubação.

Mas, segundo Monteiro, esta queda pode ser “menor do que aquilo que as consultorias estavam prevendo, que era algo em torno de 7 milhões de toneladas”.

Ele lembrou que, além de preços mais elevados, prejudicando a relação de troca, os agricultores têm tido de lidar com as restrições de crédito, com os bancos sendo mais seletivos em virtude do aumento dos índices de inadimplência.

Diferentemente do mercado de insumos, a venda de fertilizantes está pouco associada a estratégias de crédito concedido pela indústria ou o setor de distribuição. A comercialização normalmente é feita com pagamento em 30 dias, o que acaba exigindo dos produtores a busca por crédito bancário para o custeio.

Além da safra de verão, em que vê pontos positivos na reação da soja, mas também dos preços do café e do açúcar, Monteiro olha com preocupação para a próxima safrinha de milho.

Segundo ele, as encomendas de fertilizantes nitrogenados e potássio, mais utilizados nesse período, estavam na casa dos 30% do volume até uma semana atrás, antes da retomada dos combates no Oriente Médio.

Aqui, da mesma forma, são cinco pontos percentuais a menos que no ano passado. E isso porque o Mato Grosso está mais avançado, com 45%.

“E aí você tem os outros mercados aí que já com uma diferença bem importante. Paraná, Maranhão, Tocantins, Piauí vêm com uns 14%, 16% e Minas e São Paulo, sempre mais abaixo, 6% e 7%”.

O quadro também está relacionado diretamente à escalada de preços, como consequência dos conflitos geopolíticos. O mercado de potássio, por exemplo, é afetado por outra guerra mais antiga, a da Ucrânia, que envolve um dos maiores fornecedores do produto, a Rússia.

Esta semana, por exemplo, um dos maiores produtores russos informou que estava reduzindo sua produção.

“Então, é um aviso que a gente tem falado aos produtores regionais aqui no Brasil. A gente não tem o controle do conflito bélico entre Irã e Estados Unidos. A gente vê o agravamento do conflito bélico na Rússia. São fatores que fogem do controle”, afirmou.

“O produtor precisa olhar sua relação de troca, procurar garantir seu abastecimento”, disse.

O cenário dos preços

São contas que precisam ser refeitas cada vez com maior frequência. A ureia, que era comercializada a US$ 500 a tonelada antes do conflito do Irã, hoje superos os US$ 1 mil. Chegou a recuar para perto do valor anterior com a perspectiva de um acordo no Golfo pérsico, mas com a retomada das tensões, voltou a subir.

“O nitrogênio é extremamente volátil e suscetível a essas variações”, afirmou Monteiro.

Já para o fósforo, segundo ele, existia uma perspectiva também de uma redução, que foi frustrada pelo problema de abastecimento de enxofre.

“Não é só uma questão de oferta e demanda, mas de produção. E infelizmente o Estreito de Ormuz, aquela região, representa um percentual relevante da produção de enxofre do mundo”.

Como os preços do enxofre subiram e não cederam em nenhum momento, o preço do fósforo também se manteve em patamares elevados.

Assim, no Brasil, o preço do fertilizante fosfatado MAP está na casa dos US$ 900 dólares. Na Índia, US$ 935, puxado por uma demanda um pouco mais forte. Nos Estados Unidos, estão um pouco abaixo disso, em torno dos US$ 880.

Antes do conflito, o produto era cotado por cerca de US$ 700. “O preço não cedeu porque para produzir uma tonelada de MAP são necessários entre 350 e 400 quilos de enxofre”, explicou ele.

E esse, disparou de dos US$ 500 antes da guerra para o atual piso de US$ 1,2 mil a tonelada.

“É um valor expressivo, que vem impulsionando não só a volatilidade do preço do fertilizante, mas uma redução de demanda temporária, principalmente para a fósforo”, analisou.

Cortes de produção

Os fosfatados são o principal produto da Mosaic, que responde por cerca de 60% da produção dessa categoria de fertilizantes no Brasil. E que vem promovendo seguidas reduções na sua operação no País, justificadas justamente pela inviabilidade de produzir com o preço tão elevado do enxofre.

Desde o ano passado, foram vários os movimentos da companhia nesse sentido. O primeiro deles foi a venda da única mina de potássio do Brasil, o complexo Taquari-Vassouras, no estado de Sergipe, para, a VL Mineração (hoje chamada Stratos), controlada por Valere Batista, irmã de Joesley e Wesley, da JBS, por US$ 27 milhões, concluída em novembro.

Logo depois, em dezembro, a Mosaic interrompeu parte da produção de fertilizantes, com “paradas temporárias” na fabricação de superfosfato simples (SSP) em Araxá, Minas Gerais, e na unidade chamada de Fospar, em Paranaguá (PR) – esta foi retomada posteriormente, mas a planta mineira permanece fechada e foi colocada à venda em abril passado.

Também em abril, as unidades de Tapira e Patrocínio, no Alto parnaíba (MG), tiveram a produção suspensa.

Agora, no início de julho, a Mosaic anunciou que vai colocar em hibernação gradual o seu complexo de produção de fosfato em Uberaba, no Triângulo Mineiro, a partir de setembro.

“A Mosaic implementou, em 8 de julho, medidas temporárias de redução de produção em parte de suas operações de fosfato no Brasil em resposta às restrições globais no fornecimento de enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados”, informou a companhia na ocasião.

“Tem essa redução do mercado”, disse Monterio na conversa com o AgFeed. “Então, a gente está se adaptando a essa redução. Mas o mais importante aqui é o quê? Você tem uma situação de preço que, do ponto de vista econômico, gera um desequilíbrio econômico no final do dia”.

Segundo ele, a “decisão responsável no curto prazo” visa continuar investindo e crescendo no longo prazo. “Em nenhum momento isso significa que a gente vai deixar de investir no Brasil. Muito pelo contrário. A gente investe aqui há décadas”, afirmou, repetindo o discurso de outra entrevista, em abril passado.

Monteiro defendeu mais ênfase na elaboração do Plano Nacional de Fertilizantes, uma antiga promessa do governo para incentivar a produção local e reduzir a dependência das importações de adubos.

Agora, do ponto de vista emergencial, ele lembrou que desde o começo dos conflito no Oriente Médio foi criada uma “sala de situação” junto aos ministéris da Agricultura, da fazenda e da Casa Civil para estudar “uma forma de estabelecer uma subvenção temporária para aquisição de enxofre, da mesma forma que foi estabelecida uma subvenção para aquisição de petróleo, de óleo diesel”.

“Esse é um ponto aqui que se torna um hot topic. E é claro que quando a gente anuncia hibernações temporárias, isso acaba se tornando ainda cada vez mais relevante”, afirmou.

Segundo ele, o governo tem mostrado sensibilidade com a questão, apesar da situação das contas públicas brasileiras, alé de estar preocupado com a geração de empregos locais e da geração de renda.

“Depois dos anúncios que a gente fez, percebemos sim uma mobilização maior. A gente vem trabalhando aqui a quatro mãos. Não significa que temos nada garantido, mas a conscientização por parte das autoridades e um interesse legítimo e genuíno em entender o que eles podem fazer para nos ajudar, isso vem acontecendo”.

No âmbito local, houve gestões de sindicatos e associações de empresários para obter isenções de impostos municipais em Uberaba para tentar viabilizar a reversão da decisão de suspender a produção.

Mas, para o executivo, embora bem-vindo, esse esforço seria insuficiente. Ele afirmou que o que pesa na balança é mesmo o custo do enxofre, que só seria compensado com a subvenção. Ou um movimento, hoje improvável, de baixa importante nas cotações internacionais do enxofre.

Questionado sobre quanto o preço precisaria cair para viabilizar a reabertura da planta, Monteiro foi categórico: “O que a gente vem discutindo é estabelecer uma normalidade. E uma normalidade seriam os patamares pré-guerra”. Ou seja, um recuo de volta dos atuais US$ 1,2 mil para os US$ 500.

Preocupação com a safrinha

O bom momento de preço da soja pode até ajudar a recompor parcialmente a margem do produtor e ajudar na safrinha, mas as cotações de milho não tiveram um repique – na cultura, pelo menos, a conta fecha de forma positiva.

Para Monteiro, as instabilidades atuais têm exigido capacidade de adaptação do mercado e do próprio produtor. Ele vê, por exemplo, um aumento na contratação de serviços de agricultura de precisão, como estratégia para tentar reduzir o uso de insumos e, assim, ficar menos exposto aos humores do mercado, com adubação de taxa variável. “Ele está olhando os níveis de fósforo no solo, mas ele não está reduzindo tudo”, apontou.

Da mesma forma, outra estratégia tem sido o aumento do uso de produtos biológicos e solubilizadores de solo, que vem sendo utilizado pelo agricultor para melhorar a eficiência do aproveitamento do fósforo por parte da planta.

“Isso é suficiente para resolver todo o problema? Não é, mas vai ajudar quando você olha o horizonte de longo prazo”, disse.