A venda de 41,2 mil hectares de terras produtivas e valiosas no Mato Grosso, pertencentes à Radar, empresa de propriedades rurais controlada pela Cosan e pela gestora americana Nuveen, virou um impasse entre dois dos maiores grupos agrícolas do País, SLC e Bom Futuro.

As duas empresas anunciaram, com diferença de poucas horas, que pretendem exercer o direito de preferência de compra existente em seus contratos de arrendamento das terras da Radar incluídas no chamado Bloco Mato Grosso, que está sendo negociado pelo valor de R$ 1,85 bilhão.

A manifestação da Bom Futuro, companhia, ocorreu através de nota distribuída cerca de 4 horas depois de a SLC Agrícola, da família Logemann, publicar fato relevante informando que pretendia utilizar o mecanismo de preferência e arrematar as terras, que uma semana antes haviam sido objeto de uma transação anunciada entre a Radar e o grupo comandado por Eraí Maggi Scheffer.

Assim como a SLC apontou ter esse direito expresso nos contratos de arrendamento de 17,6 mil hectares desse conjunto de terras, a Bom Futuro apontou ser arrendatária de outra parte, tendo em seu contrato cláusula semelhante, com as mesas garantias de preferência – a empresa não informou o total da área sob sua gestão.

Em sua nota, a Bom Futuro comunica apenas que “na condição de arrendatária, exerceu junto ao Grupo Radar, seu legítimo direito de preferência na aquisição dos imóveis que compõe o denominado Bloco Mato Grosso, na sua totalidade e nos termos da oferta, no montante de R$ 1,85 bi”.

“O referido investimento tem sinergia com as demais propriedades da empresa e adere sua estratégia de crescimento no Mato Grosso, onde atua há mais de 44 anos”, conclui o documento.

Segundo o fato relevante da SLC, do total agora disputado pelas duas companhias, 28,8 mil hectares são agricultáveis e apresentam potencial para 100% de plantio de segunda safra.

A SLC pontuou no seu comunicado que a aquisição seria realizada “na modalidade ‘porteira fechada’, em caráter indivisível e em igualdade de condições com a proposta recebida pelas proprietárias dos ativos".

E chegou inclusive a detalhar a forma de pagamento do montante bilionário: um sinal de R$ 700 milhões em até cinco dias úteis a partir desta sexta-feira, cujo valor deverá ser corrigido por 100,25% do CDI a partir cinco dias úteis contados a partir de 28 de maio de 2026, e o saldo de R$ 1,15 bilhão a ser pago na data da lavratura das escrituras públicas de compra e venda, que deveria ocorrer até 30 de outubro de 2026.

A disputa se explica pelo valor estratégico das terras para ambos os grupos. As fazendas incluídas na transação estariam na região dos municípios de Diamantino e Campo Novo do Parecis, hoje uma das mais valorizadas do estado do Mato Grosso e onde ambas as empresa já investiram milhões no melhoramento do perfil produtivo das terras, pro´pícias para o cultivo de grãos e de algodão.

A venda do Bloco Mato Grosso foi comunicada pela Radar em comunicado protocolado na CVM no dia 17 de junho. Na ocasião, a empresa não informou quem seria o comprador, mas rumores apontaram, desde o início, para a Bom Futuro.

No dia seguinte, a SLC Agricola, também em comunicado, informou ter sido formalmente notificada pela Radar sobre a negociação dos 41,2 mil hectares com o Grupo Bom Futuro. E indicou, então, que avaliaria se exerceria ou não, o seu direito de preferência.

O prazo previsto nos contratos entre as partes para que essa decisão fosse informada era de 30 dias, mas a SLC levou apenas 8 dias para concluir que pretendia adquirir as áreas.

Agora, é provável que uma definição sobre quem será o comprador demore muito mais. Com o impasse, não é improvável que a questão seja levada à Justiça. Consultada sobre essa possibilidade pelo AgFeed, a Bom Futuro preferiu não dar informações além das constantes na nota.

Radar e SLC Agrícola também foram procuradas e, através de suas respectivas assessoria, informaram que não se pronunciarão sobre o tema.

Resumo

  • Bom Futuro afirmou ter exercido o direito de preferência para comprar o Bloco Mato Grosso, gerando impasse com a SLC Agrícola
  • As duas empresas alegam cláusulas contratuais que garantem prioridade na aquisição das terras da Radar avaliadas em R$ 1,85 bilhão
  • Disputa envolve 41,2 mil hectares no Mato Grosso e pode terminar na Justiça diante das reivindicações concorrentes