Há um ano, a Acelen inaugurava, em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, um centro para tentar resolver um dos principais desafios de seu ambicioso projeto de biocombustíveis: transformar a macaúba, uma espécie nativa brasileira de difícil cultivo em escala comercial, em matéria-prima para uma nova cadeia de combustíveis renováveis.
De lá para cá, o Acelen Agripark conseguiu elevar a taxa de germinação da oleaginosa de algo entre 3% e 5%, na natureza, para mais de 80%, instalou uma biofábrica capaz de escarificar 1,7 milhão de sementes por mês e começou a levar ao campo as pesquisas desenvolvidas no complexo, com os primeiros testes de variedades, espaçamentos e modelos de plantio.
O avanço faz parte do plano de US$ 3 bilhões da Acelen Renováveis, controlada pelo Mubadala Capital, que pretende, até 2029, colocar de pé uma cadeia que vai do cultivo de até 144 mil hectares de macaúba à produção de 1 bilhão de litros anuais de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável.
“O Agripark é um marco para a gente, o primeiro ativo real da Acelen Renováveis”, disse Marcelo Lyra, vice-presidente de Comunicação, ESG, Relações Institucionais e Desenvolvimento Territorial da companhia, em entrevista ao AgFeed.
Um ano depois da inauguração do complexo mineiro, o projeto começou a avançar também em outras frentes. A companhia já iniciou a aquisição de terras, começou as obras da futura biorrefinaria na Bahia e assinou contratos para garantir tanto a matéria-prima quanto o mercado para os combustíveis que pretende produzir.
São três frentes que avançam ao mesmo tempo: a pesquisa e o desenvolvimento da macaúba, a implantação da cadeia agrícola e a construção da biorrefinaria.
Na frente agrícola, a Acelen já adquiriu cerca de 3 mil hectares. É pouco diante dos 144 mil hectares previstos no projeto, mas a companhia ainda está nos primeiros passos da estratégia de formação da base produtiva.
“A estratégia agrícola vai ser dividida em módulos de quatro a cinco hubs envolvendo 30 mil, 40 mil, 50 mil hectares. No centro geográfico de cada um deles tem a parte industrial, o esmagamento da macaúba, onde recebemos ela de produção própria ou de produtor”, afirmou Lyra.
Segundo Lyra, o primeiro hub está concentrado no Recôncavo Baiano, onde a empresa começou as aquisições de terras. A estratégia, porém, não depende apenas da compra direta de propriedades.
A Acelen também avalia parcerias com grandes proprietários e pretende formar uma rede de produtores menores e médios por meio do programa Valoriza, que deverá responder por cerca de 20% da produção de macaúba.
A intenção é aproveitar mais do que o óleo destinado aos combustíveis. A empresa vê potencial para desenvolver cadeias paralelas a partir dos coprodutos da macaúba, incluindo óleo da amêndoa para a indústria de cosméticos, proteínas e outros derivados, além do uso da casca na produção de biochar. “Macaúba é igual o boi: se aproveita tudo. Melhor que o boi, porque não berra”, brincou o executivo.
Enquanto a cadeia agrícola começa a ser montada, a Acelen também acelerou a frente industrial. A futura biorrefinaria está sendo construída ao lado da Refinaria de Mataripe, na Bahia, e já teve iniciados os trabalhos de terraplanagem.
A planta terá capacidade para produzir até 1 bilhão de litros por ano de SAF e diesel renovável por meio da tecnologia HEFA (Hidroprocessamento de Ésteres e Ácidos Graxos). A previsão é que esteja pronta para operar em agosto de 2029.
Do total de US$ 3 bilhões previstos para o projeto, US$ 1,5 bilhão corresponde ao investimento na biorrefinaria. Esse valor foi objeto de um financiamento estruturado com um consórcio de 12 instituições financeiras, liderado pelo IFC, braço do Banco Mundial, e pelo HSBC, com participação de instituições como BNDES, BID Invest, Bradesco e Bank of China.
Mas há uma questão que a Acelen ainda precisa administrar: a macaúba não estará produzindo óleo em escala quando a biorrefinaria começar a operar.
A planta é de ciclo longo e as áreas agrícolas ainda estão começando a ser implantadas. Por conta disso, até que a produção própria de macaúba ganhe escala, a companhia terá de usar outras matérias-primas.
É aí que entram alguns dos acordos anunciados nos últimos meses. O primeiro envolve a trading asiática Trafigura, que irá fornecer cerca de 470 mil toneladas anuais de óleo de cozinha usado, o chamado UCO, à Acelen Renováveis.
Segundo Lyra, o volume é suficiente para produzir cerca de 460 milhões de litros de SAF. O acordo também envolve a comercialização de parte dos combustíveis produzidos pela futura biorrefinaria nos mercados europeu e americano.
Outra parceria é com a Bunge. A Acelen fechou um contrato de cinco anos para o fornecimento de 300 mil toneladas anuais de óleo de soja certificado, totalizando 1,5 milhão de toneladas a partir de 2029. O produto virá do Brasil e da Argentina e também será utilizado na produção de SAF e diesel renovável.
Os dois contratos ajudam a resolver o intervalo entre o início da operação da refinaria e a maturação da cadeia de macaúba. Segundo Lyra, a empresa já tem contratados mais de 85% do feedstock e dos volumes de offtake necessários para o início da operação. Ainda assim, a companhia continua conversando com novos fornecedores de matéria-prima e potenciais compradores dos combustíveis.
“Construindo a refinaria, a gente já tem mercado e já tem matéria-prima, enquanto vai estabelecendo e plantando as unidades agrícolas”, explicou o executivo.
A estratégia também passa pelas certificações necessárias para acessar os principais mercados consumidores. A Acelen pretende habilitar sua produção para os padrões europeu, americano e o Corsia, programa global voltado à redução das emissões da aviação internacional.
Ao atender esses mercados, a empresa também estará posicionada para os mandatos brasileiros previstos na Lei do Combustível do Futuro, relembrou Lyra.
Resumo
- A Acelen já adquiriu cerca de 3 mil dos 144 mil hectares previstos para a cadeia de macaúba e pretende acelerar as compras a partir de 2026
- Biorrefinaria de US$ 1,5 bilhão começou a sair do papel na Bahia, com operação prevista para agosto de 2029 e financiamento de um consórcio de 12 bancos
- Contratos com Trafigura e Bunge garantem 470 mil toneladas anuais de óleo de cozinha usado e 300 mil toneladas de óleo de soja certificado para abastecer a planta durante a fase de transição da macaúba