Os últimos anos não foram fáceis para o mercado de crédito privado do agro, que ficou mais contido após o aumento da inadimplência de muitos produtores rurais e grandes empresas da cadeia em dificuldades financeiras.
Mas, passada a tormenta, o ano de 2025 já marcava uma reorganização do mercado, com certa recuperação no nível de emissões e melhora do humor dos investidores que aportam recursos nos fundos da cadeia, conforme mostrou o AgFeed no fim do ano passado.
No começo de 2026, a tendência continua favorável, a julgar pelos dados da edição de março do Boletim de Finanças Privadas do Agro, divulgado mensalmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Em fevereiro de 2026, o estoque total de instrumentos como CPR, LCA, CRA, CDCA e FIDCs superou R$ 1,4 trilhão – 12% a mais do que o volume registrado há um ano, quando o patrimônio líquido dos títulos vinculados ao agro somava R$ 422 bilhões.
Ainda que o Mapa saliente que a soma de valores dos títulos supracitados não representa a totalidade do financiamento privado do setor, dado que alguns instrumentos podem servir de lastro para os demais, como é o caso da CPR, os números indicam que está em curso uma alta generalizada no patrimônio dos principais títulos privados utilizados pela cadeia.
As CPRs continuam sendo o principal mecanismo de financiamento privado do setor, seguida pelas Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e pelos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA).
O estoque de CPRs chegou a R$ 561,3 bilhões em fevereiro de 2026, crescimento de 16% em relação ao mesmo período de 2025. Além da expansão de volume financeiro, também houve crescimento no número de operações.
A quantidade de CPRs registradas passou de 356 mil em fevereiro de 2025 para 402 mil em fevereiro de 2026, enquanto o ticket médio subiu para cerca de R$ 1,40 milhão por operação.
Apesar da expansão do estoque na comparação mensal, o fluxo de novas emissões na safra 2025/2026 mostra leve desaceleração em comparação com o ciclo anterior, possivelmente indicando que os produtores estão buscando outras formas de financiamento privado.
Entre julho de 2025 e fevereiro de 2026 foram registrados R$ 248,4 bilhões em CPR, recuo de 8% frente ao mesmo período da safra anterior, indicando um ritmo mais moderado de novas operações.
Outro instrumento relevante para o financiamento do setor é a LCA, emitida por instituições financeiras para captar recursos destinados ao agronegócio.
O estoque dessas letras alcançou R$ 588,21 bilhões em fevereiro de 2026, crescimento de 9% na comparação anual.
O Mapa lembra que, na safra 2025/2026, as instituições financeiras precisam aplicar 60% das captações de LCA em operações do agro, percentual maior que os 50% exigidos nas safras anteriores.
Do percentual direcionado para o financiamento rural, a instituição deve obrigatoriamente aplicar pelo menos 45% em operações de crédito rural na safra 2025/26. Nas temporadas anteriores, o índice era de 50%.
Entre os agentes financeiros que utilizam recursos dessas letras para conceder crédito rural, bancos públicos respondem por 38% das contratações, seguidos por bancos privados (33,5%) e cooperativas de crédito (27,5%).
O boletim indica ainda que instrumentos ligados ao mercado de capitais também continuam ganhando espaço no financiamento do setor.
É o caso dos CRAs, cujo estoque somou R$ 176,94 bilhões em fevereiro de 2026, avanço de 15% na comparação com o mesmo período de 2025.
Já os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio (Fiagro) somaram um patrimônio de R$ 48,35 bilhões em janeiro de 2026, crescimento de 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
O número de fundos em operação subiu para 220, 61% a mais que os 137 veículos registrados em janeiro de 2025.
Na contramão dos demais títulos, os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA) apresentaram recuo. O estoque caiu de R$ 35,1 bilhões em fevereiro de 2025 para R$ 32,2 bilhões em fevereiro de 2026, redução de 8%.
Resumo
- Estoque de instrumentos privados do agro (CPR, LCA, CRA, CDCA e FIDC) superou R$ 1,4 trilhão em fevereiro, alta de 12% em um ano
- As CPRs seguem como principal instrumento, com estoque de R$ 561,3 bilhões (16% a mais em um ano), embora as emissões da safra 2025/26 mostrem leve desaceleração
- Mercado de capitais ganha espaço, com avanço de CRAs (+15%) e Fiagros (+10%), enquanto as LCAs atingem R$ 588 bilhões (+9%)