As expectativas são baixas no mercado de algodão para 2026. O ano não deve trazer grandes novidades aos cotonicultores, que já operam praticamente há dois anos com queda nos preços, que recentemente bateram o menor nível real desde 2009.

Além disso, a combinação entre oferta global elevada, demanda contida com o avanço do mercado de fibras sintéticas e custos crescentes limita o espaço para uma recuperação mais consistente das cotações, mesmo diante da redução de área já contratada em importantes regiões produtoras.

Na visão do analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Raphael Bulascoschi, esse cenário é resultado de um desequilíbrio que se construiu ao longo das últimas safras e que ainda não foi totalmente absorvido pelo mercado.

“O algodão vive hoje um ambiente de sobreoferta global. Tivemos safras muito boas em três dos principais players: Estados Unidos, Brasil e China, ao mesmo tempo em que a demanda não respondeu”, afirmou ao AgFeed.

Segundo ele, o movimento de baixa ganhou força a partir de março de 2024, quando os preços em Nova York chegaram próximos de US$ 1 por libra-peso e, desde então, passaram a operar em trajetória descendente por mais de 20 meses.

“Em 2024, os Estados Unidos tiveram uma área plantada elevada, o Brasil colheu uma safra recorde e a China seguiu expandindo a produção doméstica. Isso reforçou um quadro de excesso de oferta num mercado em que o consumo cresce pouco”, explicou.

Ao olhar dados históricos do USDA, Bulascoschi cita que a demanda pelo algodão era maior em 2005 do que é hoje. Ao mesmo tempo, o preço do petróleo depreciado por conta também de uma sobreoferta contribui para o mercado de fibras sintéticas, como o poliéster, que ganham competitividade no mercado têxtil.

Essa soma chega ao seguinte resultado: preço baixo (sem sinal de melhora) e uma menor área plantada no Brasil na temporada 2025/2026.

Dados do Cepea/Esalq mostram que o preço do algodão em pluma no Brasil ronda os R$ 3,50 por libra-peso, o menor patamar para o mês desde 2009 em termos reais.

No lado da área, a StoneX projeta 2 milhões de hectares, com a produção recuando 11% na comparação com o ano anterior, em 3,7 milhões de toneladas de pluma.

Já a Agroconsult estima que a área plantada com algodão no Brasil deve atingir 2,16 milhões de hectares, enquanto a produção deve cair 3,5%, para cerca de 4,1 milhões de toneladas.

André Pessoa, sócio da consultoria, avalia que o recuo está diretamente ligado à maior atratividade do milho, especialmente em regiões com forte presença de usinas de etanol.

“Pensando na fixação, comparando o sistema soja e milho ou soja e algodão safrinha, o segundo ainda é melhor, mas a diferença não é igual à de anos atrás. No milho, o produtor consegue travar preço em volumes grandes. No algodão, essa liquidez não existe”, afirmou.

Na prática, isso tem levado produtores a reequilibrar seus sistemas produtivos, especialmente no Mato Grosso. No chamado “Nortão” do estado, grupos agrícolas vêm reduzindo a área de algodão para abrir espaço ao milho de segunda safra, buscando proteger o caixa em um momento de margens mais apertadas.

Em outubro, o AgFeed visitou a região e percebeu esse movimento em duas operações agrícolas. O Grupo Biancon, com 45 mil hectares de terra entre Lucas do Rio Verde e Sinop, a redução de área de algodão deve chegar a 10%.

“O algodão passa por um momento difícil. Vamos reduzir a área para dar espaço ao milho, que aqui na região está mais atrativo por causa do etanol”, disse Ivan Biancon, um dos diretores e sócios da empresa. O grupo ainda atua com soja, milho e integração lavoura-pecuária (ILP).

Segundo o empresário, o movimento é limitado pelo elevado investimento já feito na cultura. “As máquinas já estão aí, a algodoeira já está aí, então não posso parar. A gente ajusta, mas não sai totalmente”, afirmou.

Em Paranatinga, o Grupo JCN adota lógica semelhante. Dono de 90 mil hectares, sendo 50 mil produtivos, o conglomerado mantém o algodão como uma cultura central, já que é responsável por cerca de metade do faturamento.

“Vamos manter porque a gente tem plantadeira, colheitadeira, algodoeira. O capex já foi feito”, explicou Elson Esteves, diretor-geral do grupo, acrescentando que a estratégia passa por intensificar o uso da pecuária como fonte de adubação para reduzir custos.

Bulascoschi, da StoneX, cita que é comum ouvir que o algodão é uma cultura que “se paga com algodão”, justamente por exigir investimentos elevados e de longo prazo.

“Quando o produtor entra no algodão, ele assume um compromisso estrutural. Por isso, mesmo em momentos ruins de preço, a saída é limitada. O ajuste acontece mais na margem do que em grandes cortes”, disse.

Do lado dos custos, o cenário também é desafiador para 2026 na cultura. Na SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de algodão do País, os custos médios por hectare na safra 2025/2026 serão 10,2% maiores. No algodão, o custo médio por hectare deve alcançar R$ 13,8 mil na primeira safra e R$ 12,8 mil na segunda, altas de 7,8% e 10,5%, respectivamente. A companhia atribui o aumento à maior necessidade de reposição de nutrientes no solo e ao reforço no pacote de defensivos.

Ao olhar para a safra brasileira, a StoneX vê que grande parte da redução de área plantada deve se dar na Bahia, onde o recuo pode chegar a 5% para para 393 mil hectares, refletindo essa frustração com a rentabilidade da cultura.

No Mato Grosso, a estimativa de área permanece em 1,42 milhão de hectares, mas o analista alerta para riscos climáticos que ainda podem afetar o plantio do algodão de segunda safra. “Chuvas irregulares podem atrasar a semeadura da soja e, consequentemente, o calendário do algodão safrinha”, afirmou.

Mesmo com menor produção, as exportações brasileiras seguem firmes. A expectativa é que os embarques da safra 2024/2025 atinjam 3 milhões de toneladas, mantendo o Brasil como principal fornecedor global.

Para Bulascoschi, no entanto, isso não muda o quadro estrutural. “Os estoques seguem elevados no Brasil, nos Estados Unidos e na China. Isso coloca um teto nos preços”, disse.

Na avaliação do analista, a tendência para 2026 é de um mercado um pouco mais equilibrado do ponto de vista de oferta, mas ainda longe de um cenário apertado.

“A queda de área ajuda, pode dar algum respiro no preço, mas deve ser muito limitado. Não dá para falar em grandes ralis de preço sem uma quebra relevante de safra, que não é algo que dê pra prever”, afirmou.

“Além disso, falamos de uma matéria-prima ligada a bens de consumo discricionários, muito sensíveis ao ciclo econômico. Com crescimento global mais lento, juros elevados em vários países e concorrência das fibras sintéticas, o algodão perde espaço”, explicou.

Nesse contexto, o clima segue como a principal variável capaz de mudar o jogo. “Se houver um problema climático relevante, o mercado reage. Mas, olhando os fundamentos hoje, 2026 tende a ser mais um ano de preços baixos e gestão defensiva para o produtor”, concluiu Bulascoschi.

Resumo

  • Algodão entra em 2026 com preços em torno de R$ 3,50 por libra-peso no Brasil, o menor nível real desde 2009, pressionado por sobreoferta global e demanda fraca.
  • A área plantada deve ficar entre 2 e 2,16 milhões de hectares, com produção próxima das 4 milhões de toneladas, ante concorrência com o milho safrinha
  • Os custos seguem elevados e estoques altos no Brasil, EUA e China limitam qualquer reação relevante de preços em 2026