"Tudo pode acontecer. A melhor e a pior notícia vai ser a de amanhã", brincou Felipe Coutas, country manager no Brasil da multinacional Itafos, na tentativa de aliviar a tensão de uma plateia recheada de executivos de indústrias de fertilizantes e de produtos químicos em um evento da agência de análise de preços Argus Media na manhã desta segunda-feira, dia 6 de abril, em São Paulo (SP).
Coutos se referiu, em sua fala, à imprevisibilidade que vem trazendo o conflito no Oriente Médio, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, interrompendo uma das principais rotas de envio de petróleo e fertilizantes do mundo. O setor de fertilizantes tem acompanhado de perto a escalada dos preços de suas principais matérias-primas, que parece não dar sinais de arrefecimento, pelo contrário.
Com a oferta restrita de enxofre no mercado global e custos de produção em alta, executivos do setor começam a admitir que o risco de desabastecimento dos adubos no campo já é uma realidade. “Talvez não tenha produto mesmo”, afirmou Coutas em mesa redonda com executivos do setor no evento.
Nayara Piloto, gerente de vendas da EuroChem, também vê risco de escassez. “Acho que pode faltar produto”, afirmou. Segundo a executiva, já há paralisação de algumas plantas, seja pela falta de enxofre, seja porque o custo elevado do insumo tem tornado inviável a produção de fertilizantes. A executiva, no entanto, não detalhou quais unidades foram afetadas e se foram plantas da EuroChem.
“A gente já vê algumas plantas parando por falta de enxofre ou até mesmo porque essa relação do enxofre dentro do produto está muito alta e não faz sentido mais fazer a produção do fertilizante. Vale muito mais a pena você vender o ácido sulfúrico do que você fazer um fosfatado de baixa concentração”, avaliou.
O enxofre, insumo fundamental para a indústria de fertilizantes fosfatados, já vinha registrando forte aumento de preço desde meados do ano passado. Mas, com a crise no Oriente Médio, a situação se agravou, com os preços chegando à casa de preços próximos a US$ 800 a tonelada.
Nível semelhante só foi visto antes em 2022, durante a crise entre Rússia e Ucrânia, e em 2008. O Oriente Médio é um dos principais produtores de enxofre no mundo, uma vez que é obtido a partir do refino do petróleo e processamento de gás natural.
Assim, os preços do ácido sulfúrico, obtido a partir do enxofre e base de produtos como MAP, também estão nas alturas, chegando a cerca de US$ 300 a tonelada nos preços spot do mercado brasileiro, segundo a Argus. Isso porque grande parte dos produtores de insumos responsáveis pela fabricação de ácido sulfúrico está concentrada na China e em outros países da Ásia como Japão e Coreia do Sul.
A China deve produzir cerca de 120 milhões de toneladas de ácido sulfúrico neste ano, segundo a Argus, mas o governo chinês decidiu redirecionar o destino desse volume.
Diante da crise no Oriente Médio e da disparada dos preços, o país passou a priorizar o abastecimento do mercado doméstico, atendendo principalmente as indústrias locais de fertilizantes e baterias. Com isso, as exportações da China devem cair para menos de 2 milhões de toneladas em 2026, estima a Argus.
Além das dificuldades de oferta, há impacto negativo também vindo dos fretes, que disparou após a guerra. Segundo a Argus, na rota Europa-Brasil, o preço do frete de 20 mil toneladas de ácido sulfúrico antes estava estimado entre US$ 42 e US$ 45 antes do conflito. Agora, está entre US$ 75 e US$ 80.
Coutas, da Itafos, lembrou que, além da crise de oferta, também há uma crise de demanda. "Acredito que, na indústria química, o limite (de preços) é um pouco mais elástico. Se nós trouxermos para o lado do fertilizante, essa elasticidade já não existe", disse.
Segundo Coutas, equipes da Itafos já identificam no mercado sinais de que alguns produtores podem reduzir ou até abandonar o uso de fertilizantes diante da escalada de preços. “Não é nem uma questão de qual será o preço. Pode ser R$ 5 mil. Ele simplesmente não vai usar”, avaliou.
Roberto Baretto, diretor comercial da Itafos, relatou que os produtores estão arredios no momento de fechar compras. "A gente ainda tem disponibilidade de venda de fertilizantes, mas quando você repassa os aumentos de custo, você não vê nenhuma vontade ou nenhuma iniciativa de compra por parte dos clientes, a não ser dizer que vai esperar até a última hora e que se esse cenário não se alterar, ele vai partir por um produto alternativo ou até por não colocar fósforo em áreas antigas", disse.
Diante desse cenário, uma alternativa considerada pelas indústrias é o aumento da demanda por produtos com menor concentração de fosfato. “Essa migração deve ocorrer de alguma forma, seja para fosfatos de menor teor ou até mesmo pela redução da adubação”, afirmou Nayara Piloto, da EuroChem.
A executiva lembrou que a EuroChem já dispõe, em seu portfólio, de opções como fosfato precipitado, fosfatos de baixo teor e gesso agrícola. "Temos visto um aumento expressivo da demanda desses produtos, justamente porque eles têm um percentual interessante de fosfato", disse Piloto.
Por ora, os planos de produção de fosfatados da EuroChem para o ano não se alteraram, relatou a executiva, mas a guerra permanece trazendo incertezas.
“A gente está se mantendo na posição do que a gente vai produzir, o que estava o plano do ano, mas os próximos passos em relação à guerra é o que de fato vai definir se a gente vai conseguir manter ou não, se vamos para a produção de super simples, por exemplo, para vender mais sulfúrico”, afirmou.
No caso de falta de enxofre e ácido sulfúrico, Coutas, da Itafos, mencionou também outras possibilidades de como mais remotas, como a utilização de reservas de fosfato no solo ou ainda o apoio da Petrobras, que anunciou recentemente que pode elevar a produção de diesel no futuro e, consequentemente, ampliar também a produção de enxofre.
Mas os executivos avaliam que um eventual aumento da produção de enxofre da Petrobras não seria relevante para as indústrias do setor. "O enxofre da Petrobras não vai fazer cócegas. Não vai ser capaz de nos ajudar", disse Coutas.
A demanda local das indústrias de fertilizantes, estima Nayara Piloto, da EuroChem, é de cerca de 2,5 milhões de toneladas mensais de enxofre a ser importado. "E a Petrobras tem um volume muito pequeno de enxofre, oferta entre mil a duas mil toneladas por mês", disse.
Além de baixo, o volume ofertado pela Petrobras também é de uma qualidade diferente do que a indústria está acostumada “Acaba gerando mais resíduos, como uma borra de enxofre”, relatou Piloto.
Resumo
- Escalada do enxofre, agravada pela crise no Oriente Médio e restrições da China, eleva custos do ácido sulfúrico e pressiona a produção de fertilizantes fosfatados
- Indústria já vê risco real de desabastecimento, com paralisação de plantas e possível redução ou abandono do uso de adubos pelos produtores
- Como resposta, setor considera migrar produção para fertilizantes de menor teor de enxofre