Muito se fala sobre a baixa capacidade estática de armazenagem no Brasil — e com razão. A produção cresce ano após ano, e é natural que o debate se concentre na necessidade de mais espaço para armazenar a safra.

Mas há uma pergunta que raramente entra nessa conversa: o que acontece com o grão depois que ele entra no silo?

A resposta, embora conhecida por quem vive o dia a dia da armazenagem, ainda é tratada com certa naturalidade: perdas acontecem. E, muitas vezes, são aceitas como parte do processo.

Tecnicamente, fala-se em algo próximo de 3% como “perdas aceitáveis”.

Mas aceitáveis para quem?

Se considerarmos a capacidade estática de armazenagem do Brasil, estimada em 231,1 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025, segundo o IBGE, e aplicarmos uma perda média de 3%, estamos falando de aproximadamente 6,9 milhões de toneladas de grãos comprometidos ao longo de uma safra.

Ao preço médio da soja em março de 2026, esse volume representa algo próximo de R$ 14 bilhões que deixam de circular na economia. Apenas em ICMS, são cerca de R$ 1,6 bilhão que deixam de entrar nos cofres públicos.

Não é pouca coisa. E não deveria ser tratado como inevitável.

Não é apenas uma perda dentro do silo. São bilhões de reais que deixam de circular na economia — recursos que poderiam contribuir para investimentos em saúde, educação, assistência e também em infraestrutura, essencial para que a própria economia funcione melhor.

Essas perdas têm causas conhecidas.

Ambientes mal controlados dentro dos silos favorecem a formação de umidade, o desenvolvimento de fungos, o surgimento de grãos ardidos e mofados, além da perda de peso e da queda na qualidade comercial. Em muitos casos, o problema começa com a entrada de grãos ainda úmidos e se agrava pela falta de controle da temperatura e da circulação de ar.

Há também custos indiretos.

Maior consumo de energia para tentar corrigir problemas, uso mais intenso de defensivos para controle de insetos, manutenção frequente e, em situações mais críticas, danos à própria estrutura dos silos. Não é raro que grãos aderidos às paredes precisem ser removidos manualmente, comprometendo a integridade do revestimento interno.

O resultado é um sistema que perde eficiência — e dinheiro — em várias frentes.

O professor Tetuo Hara, referência em pós-colheita no Brasil, costuma destacar que a armazenagem deveria receber a mesma atenção dedicada à produção no campo. É uma etapa decisiva, não complementar.

Mas, historicamente, não foi tratada assim.

Enquanto a lavoura incorporou tecnologia, genética e manejo avançado, muitas unidades de armazenagem permaneceram praticamente inalteradas. Estruturas antigas seguem operando com baixo nível de atualização tecnológica e, em alguns casos, com equipes pouco preparadas para lidar com a complexidade do ambiente armazenador.

E há um fator menos técnico — e mais difícil de enfrentar: a cultura de aceitação.

O “sempre foi assim” ainda é uma barreira silenciosa. Soma-se a isso a dificuldade de perceber, com clareza, o quanto se deixa de ganhar ao não investir em melhorias dentro do silo. Não é uma perda visível no momento em que ocorre, mas ela aparece no resultado final da safra.

E não afeta apenas o produtor.

Quando milhões de toneladas deixam de chegar ao mercado, toda a cadeia sente o impacto. Menor oferta, qualidade inferior e aumento no custo de processamento da matéria-prima acabam se refletindo no preço dos alimentos e no acesso da população.

Há, portanto, um efeito sistêmico.

A boa notícia é que essas perdas não são inevitáveis.

Hoje existem tecnologias desenvolvidas no Brasil que atuam diretamente no controle do ambiente dentro dos silos — como sistemas de exaustão do ar, soluções de secagem e ferramentas de homogeneização da massa de grãos — capazes de aumentar a eficiência das estruturas já existentes e reduzir significativamente as perdas ao longo do armazenamento.

O desafio, neste momento, não é técnico. É de gestão.

Entender que armazenar bem não é apenas guardar — é preservar valor. E que, em um cenário de margens cada vez mais pressionadas, deixar de agir pode custar mais do que investir.

O Brasil precisa, sim, ampliar sua capacidade de armazenagem. Mas precisa, antes disso, cuidar melhor do que já está dentro dos silos.

Elton Stadler é CEO da Provent do Brasil - Cycloar.