A história econômica brasileira pode ser lida, em grande medida, pela representatividade de sua ocupação produtiva. Antes de políticas públicas estruturadas, de infraestrutura consolidada ou mesmo de um Estado nacional plenamente organizado, o desenvolvimento avançou pelo interior conduzido por agentes que assumiram risco, exploraram potencial e converteram território em atividade econômica.
Foi esse impulso que integrou o Brasil profundo à economia nacional — e é ele que, em nova escala, continua sustentando a expansão produtiva contemporânea.
As bandeiras, ainda que marcadas por contradições próprias de seu tempo, inauguraram essa lógica de interiorização econômica. Não se trata de romantizar períodos históricos, mas de reconhecer um vetor persistente: produzir onde as condições ainda não estavam dadas.
A economia do interior nasceu dessa capacidade de avançar primeiro e estruturar depois — dinâmica que se repetiria, séculos mais tarde, na agricultura tropical do Centro-Oeste.
A atual safra brasileira oferece expressão concreta dessa trajetória. Segundo a Conab, o país caminha para colher cerca de 177 milhões de toneladas de soja, recorde histórico e quase 4% acima do ciclo anterior, mesmo com ritmos regionais distintos de colheita e lavouras ainda em enchimento de grãos.
O dado sintetiza o estágio alcançado pelo sistema produtivo nacional: agricultura guiada por precisão agronômica, gestão climática e escala tecnológica.
Mas o significado estrutural é ainda maior em perspectiva de longo prazo. A produção brasileira de grãos cresceu mais de 500% desde 1985/86, enquanto a área cultivada pouco mais que dobrou — evidência de ganhos contínuos de produtividade.
Esse avanço permitiu ao país produzir cerca de 353 milhões de toneladas atuais poupando aproximadamente 147 milhões de hectares. Ganhos na pecuária liberaram ainda quase 400 milhões de hectares nas últimas décadas, áreas progressivamente convertidas à agricultura e intensificação produtiva.
O Cerrado sintetiza essa conversão econômica do território. Durante séculos considerado improdutivo, tornou-se o maior polo agrícola tropical do planeta e hoje responde por cerca de 55% da soja, 49% do milho e 85% do algodão do país.
A supersafra atual é, em essência, o resultado cumulativo de ciência tropical, correção de solos, mecanização, genética e organização empresarial das cadeias agroindustriais.
Há, portanto, um paralelo histórico claro. Se a interiorização econômica do passado dependia de expedições e ocupação territorial, a expansão contemporânea se sustenta em tecnologia, pesquisa e gestão produtiva. O vetor permanece o mesmo: transformar espaço em produção. Mudaram apenas os instrumentos.
O processo ganha contornos particularmente nítidos no Centro-Oeste. Regiões que, até meados do século XX, estavam à margem dos grandes ciclos econômicos tornaram-se plataformas globais de alimentos, fibras e bioenergia. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram cadeias integradas de grãos, proteínas e etanol — expressão contemporânea da antiga lógica de ocupação produtiva do interior.
A safra recorde estimada pela Conab é, em última instância, a expressão moderna dessa longa trajetória. Ela confirma que a economia brasileira continua sendo, em sua base mais profunda, uma economia de ocupação produtiva — construída historicamente por quem transforma território em riqueza e desenvolvimento.
Edwal Portilho (Tchequinho) é presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial).