A onda de recuperações judiciais que atingiu algumas das maiores distribuidoras de insumos agrícolas do Brasil nos últimos anos expôs a fragilidade de um modelo de negócios que, durante décadas, ajudou a financiar a produção agropecuária brasileira.
Mais do que vender fertilizantes, sementes e defensivos, distribuidores de insumos passaram a exercer também o papel de instituições financeiras, comprando produtos a prazo das indústrias e revendendo-os aos agricultores com vencimento após a colheita.
O problema é que, com margens cada vez mais apertadas, juros elevados e inadimplência crescente no campo, essa conta começou a ficar difícil de fechar.
Na tentativa de mudar a maneira como os insumos agrícolas chegam aos produtores rurais, dois empreendedores brasileiros de apenas 24 anos decidiram criar uma empresa, a Vereda, para tentar mudar a maneira como os insumos agrícolas chegam aos produtores rurais.
Fundada no fim de 2025 por João Pedro Aguiar de Souza e Pedro Galindo em Rio Verde, no interior de Goiás, a Vereda nasceu com uma proposta que, à primeira vista, parece simples: conectar diretamente os fabricantes de defensivos e fertilizantes aos produtores rurais, eliminando a necessidade de uma revenda tradicional na operação.
A diferença é que a startup não compra os produtos, não mantém estoques e tampouco pretende assumir os riscos financeiros envolvidos no financiamento da safra. Além, também incorpora IA e soluções via WhatsApp para acelerar o processo de compra.
A tese chamou a atenção de alguns dos principais fundos de venture capital do Brasil e do exterior.
A Vereda acaba de anunciar uma captação de R$ 30 milhões em uma rodada seed coliderada pela gestora de investimentos norte-americana Valor Capital Group e pela Canary.
A rodada teve participação ainda do Speedrun, fundo da Andreessen Horowitz (a16z) dedicado a startups em estágio inicial e de investidores anjo que os fundadores preferem não citar quem são, mas são do agronegócio, do universo da Faria Lima e do mundo de tecnologia.
Com sede em Nova York, a Valor tem mais de 100 empresas em seu portfólio e atua nos Estados Unidos, Brasil e México, com foco em conectar investimentos entre o mercado norte-americano e o latinoamericano.
A gestora já investiu em startups conhecidas do mercado como Buser, Caju, Descomplica, Kovi, Loft, Wellhub, Stone, entre outras. No agro, investiu na Terradot e na Agrolend.
"A distribuição de insumos é um dos maiores mercados do agro brasileiro e passa por uma transformação estrutural. João e Pedro combinam proximidade real com o campo e uma tese clara de como reorganizar essa cadeia, e isso nos convenceu desde o primeiro encontro", comentou Carlos Costa, sócio da Valor Capital Group, em nota.
A Canary é uma gestora brasileira de venture capital, e coleciona vários investimentos em startups. Entre elas estão nomes como Alice, Gupy e Gabriel, entre outras, além de Grão Direto e Terra Magna no agro.
"O que nos chamou atenção [na Vereda] foi uma combinação rara no agro: conhecimento de como a indústria e a distribuição funcionam, facilidade para construir relações num setor que vive de confiança, velocidade para aprender e ajustar o modelo, e domínio de tecnologia", afirmou Kristian Huber, sócio da Canary, em nota.
Já a a16z é uma gestora americana de investimentos em tecnologia, que soma US$ 90 bilhões em ativos sob gestão.
A casa já investiu em gigantes como SpaceX, ElevenLabs, Skype, Pinterest, Substack e GitHub, entre outros nomes bastante conhecidos do mundo tech. A Vereda é o primeiro invesitmento que o fundo Speedrun, da a16z, faz no agro, segundo a própria startup.
"O que mais nos impressionou foi a escala do agro brasileiro, e nossa convicção no time fundador. Acreditamos que a próxima geração de empresas de IA não vai vender ferramentas para setores como este, e sim reconstruí-los por dentro. Estamos muito animados em apoiar a Vereda na missão de redesenhar uma das cadeias de suprimentos mais importantes do mundo", comentou Emily Bennett, sócia da a16z, também em nota.
João Pedro Aguiar de Souza e Pedro Galindo têm formações diferentes e complementares: o primeiro se graduou em finanças e políticas públicas; e o segundo em administração e aplicações de inteligência artificial. Ambos estudaram na University of Southern California, dos Estados Unidos, onde se conheceram e percebram que tinham expertises complementares.
Em entrevista ao AgFeed, os fundadores explicam que a ideia de criar a agtech nasceu da percepção de que a distribuição de insumos continuava operando sob uma lógica financeira que deixou de acompanhar as mudanças do setor.
“A revenda, muitas vezes, se comporta como um banco. Ela toma um empréstimo da indústria, via produto, para conseguir emprestar para o agricultor, em prazo safra”, diz João Souza.
Contudo, o avanço dos produtos genéricos, a maior concorrência e o encarecimento do crédito mudaram essa equação.
“Com o cenário de margens estruturalmente se comprimindo no setor, principalmente com a entrada de produtos genéricos, junto com o custo de capital mais alto, a conta parou de fechar”, afirma ele.
A saída encontrada pela Vereda foi, então, separar as diferentes atividades que hoje estão concentradas nas distribuidoras.
Na primeira etapa, já em operação, a startup atua como representante comercial das indústrias, sendo remunerada por comissões sobre as vendas.
Os fabricantes continuam responsáveis pelo fornecimento dos produtos, enquanto a Vereda se encarrega de encontrar clientes e viabilizar as negociações.
“Não compramos e revendemos produtos. A gente simplesmente agencia esse produto em nome da indústria”, explica João Souza.
No âmbito comercial, a equipe combina uma equipe de campo própria com uma rede de agentes comerciais autônomos, capazes de oferecer produtos de diversas indústrias e categorias, em um modelo que lembra o dos assessores de investimento autônomos (AAIs) no mercado financeiro, popularizados pela XP Investimentos.
“São, na prática, consultores externos que ou já são representantes de uma outra marca ou trabalham com investimento, e são pessoas que já têm um relacionamento com o produtor. O que fazemos é integrar eles no ecossistema e dar toda a infraestrutura para eles conseguirem vender o portfólio de nossas indústrias”, diz João.
Para o produtor, a principal vantagem prometida é o acesso às condições comerciais das fabricantes, sem a margem de uma revenda intermediária.
De acordo com a empresa, a diferença pode representar uma redução superior a 30% no preço final de determinados produtos.
Para a indústria, os fundadores da Vereda avaliam que o atrativo é conseguir vender diretamente a agricultores que, muitas vezes, não são atendidos por suas estruturas comerciais próprias.
“A indústria quer vender tecnologia e produto. Ela não quer necessariamente desenvolver um time comercial para acessar a granularidade dos agricultores”, diz Souza.
Atualmente, a Vereda trabalha com aproximadamente dez indústrias parceiras, entre elas Agrichem, Ourofino, CHDS, Casa Bugre, Fava Sementes e Hinove.
A decisão de criar a companhia em município do interior do Brasil não foi por acaso, explicam os fundadores.
Além da relevância agrícola, os dois lembram que Rio Verde concentra produtores que já movimentam volumes consideráveis de insumos, mas que nem sempre conseguem acessar diretamente as condições comerciais oferecidas pelas fabricantes.
De acordo com João Souza, o cliente ideal da startup, neste primeiro momento, é um agricultor com aproximadamente 2 mil hectares cultivados na primeira safra.
Para o cofundador da Vereda, trata-se de um produtor com escala suficiente para que pequenas diferenças nos preços dos insumos tenham impacto relevante sobre o custo total da lavoura, mas que não necessariamente desperta o interesse comercial das grandes fabricantes para um atendimento individualizado.
“A indústria não quer desenvolver um time para atender agricultor de 2 mil hectares. Você pega agricultor de 8 mil, 10 mil, 6, 7 mil, aí você já tem uma incidência maior de venda direta”, afirma.
Embora a operação esteja concentrada no Sudoeste de Goiás, a startup já realizou vendas para agricultores com propriedades em Mato Grosso, Tocantins e outros estados.
A venda direta, no entanto, é apenas a primeira parte do plano de negócios da Vereda.
A startup, agora, pretende introduzir um terceiro participante nessa relação: uma instituição financeira responsável por financiar a compra dos insumos.
Nesse modelo, a indústria vende os produtos diretamente ao agricultor, mas recebe o pagamento à vista de um banco, fundo de crédito privado ou trading.
O produtor, por sua vez, passa a dever à instituição financeira, com vencimento ajustado ao calendário da safra.
A Vereda ficaria responsável por conectar as partes e estruturar comercialmente a operação, sem emprestar recursos próprios ou assumir o risco da inadimplência.
“Essa trading, banco, fundo, pagará a indústria à vista, e o agricultor passará a dever essa instituição em prazo safra”, explica Souza.
A startup já trabalha com parceiros financeiros em um projeto-piloto para a safrinha 2026/27, mas não revela quais instituições estão envolvidas.
A expectativa é testar o modelo antes de disponibilizá-lo em maior escala na safra 2027/2028.
Inteligência artificial para vender mais
A Vereda também pretende usar a tecnologia para reduzir os custos operacionais que normalmente acompanham o crescimento das revendas.
A startup desenvolveu uma plataforma própria integrada ao WhatsApp, que foi batizada de “Vera”.
Por meio dela, o produtor pode solicitar insumos, receber propostas e conduzir o processo de compra digitalmente.
“O produtor pode chegar e falar que precisa de 2 mil litros de um produto, por exemplo, e a gente consegue conectar ele com uma indústria parceira”, explica Pedro Galindo.
A ideia é que a ferramenta também funcione como uma espécie de assistente para os vendedores.
Em vez de preencher manualmente sistemas de gestão de clientes, os profissionais podem enviar mensagens de áudio relatando visitas às fazendas, demandas de produtores e informações sobre a evolução das lavouras.
A inteligência artificial interpreta esses relatos e organiza os dados automaticamente no sistema comercial da empresa. Outras atividades, como solicitação de documentos, elaboração de propostas e cadastros, também são realizadas pelo aplicativo.
“Da mesma forma que o agricultor tem um canal no WhatsApp, nossos vendedores também têm, e todo o dia a dia deles é por lá”, diz Pedro Galindo.
A intenção, segundo os fundadores da Vereda, não é substituir a presença dos vendedores nas propriedades, mas reduzir o tempo gasto com tarefas administrativas.
“Acho que o acesso via humano continua sendo importante. Eu acho que você ter um time comercial experiente, que atende ao agricultor, que está próximo, é muito valioso”, afirma João Souza.
Com os R$ 30 milhões captados, a Vereda pretende ampliar sua equipe comercial, expandir a rede de agentes – hoje são apenas quatro – e continuar investindo no desenvolvimento de tecnologias próprias.
A estratégia é crescer justamente em um momento em que distribuidoras e fabricantes enfrentam dificuldades financeiras e precisam rever suas operações.
“A gente está vivendo uma oportunidade única, que a gente não só vai crescer, mas a gente vai crescer de uma forma saudável, sem colocar dinheiro na rua, sem ter a segurança de receber”, diz Souza.
Desafios pelo caminho
Na avaliação de executivos com décadas de atuação no mercado de insumos, o desafio da Vereda agora será provar que o seu modelo de negócio, ainda em estágio inicial, consegue funcionar em larga escala.
Para Antonio Prado Neto, profissional com passagens por grandes companhias como Agrex, Agroeste, Bunge e a extinta Manah Fertilizantes e hoje CEO da Pirecal Calcário, o principal desafio da Vereda será crescer a operação sem precisar incorporar as estruturas das quais pretende abrir mão por enquanto: estoques, logística e concessão de crédito. “A grande questão é como escala”, resume.
A avaliação é compartilhada por Renato Seraphim, que foi diretor de marketing da fabricante de defensivos UPL, além de ter passado por outras companhias como Albaugh e Valeouro Biotec, entre outras.
Ele destaca a dificuldade de financiamento dos produtores. Para Seraphim, por mais que a Vereda consiga atrair instituições financeiras dispostas a financiar as compras dos agricultores, será necessário encontrar condições de crédito que não eliminem a vantagem comercial proporcionada pela venda direta
"E se arranjar uma financeira, qual é o juro que essa financeira vai cobrar? O agricultor também não vai pagar juros exorbitantes", questiona.
Outro ponto levantado pelos executivos é a logística, especialmente no mercado de defensivos agrícolas, em que os agricultores frequentemente preferem receber os produtos de forma fracionada, conforme as necessidades de cada etapa da safra.
"Eu fecho o químico com você, mas eu quero ter uma entrega fracionada. Quero receber o herbicida, o tratamento de semente primeiro, depois de 30 dias eu quero receber o fungicida, inseticida e assim por diante. Como é que um modelo desse vai conseguir atuar dessa forma?", questiona Prado.
Seraphim acrescenta que o desafio aumenta quando a startup pretende atender produtores de menor porte do que aqueles normalmente atendidos pelas indústrias por venda direta.
"Uma indústria vende para uma SLC Agrícola, por exemplo, e manda caminhões fechados. Como que você vai vender diretamente para um cara que é menor?", afirma. “Se você criasse uma maneira de você baratear isso através da digitalização, através do agente autônomo, seria muito legal.”
Os executivos lembram que já existem exemplos de empresas que começaram com propostas semelhantes à da Vereda, mas que, conforme cresceram, acabaram incorporando características das distribuidoras tradicionais.
Eles citam como exemplo o caso da AgriConnection, distribuidora de insumos sediada em Campo Verde (MT), que trabalha ligando fabricantes internacionais a produtores rurais, como uma das experiências mais próximas do modelo apresentado pela startup.
"Era a mesma coisa. Eram pessoas que são nomes já antigos de mercado, de renome, de bons contatos com os fornecedores e tal, e que criaram essa plataforma. Inicialmente low cost, sem ativo, sem loja, sem nada, com o discurso de que não iria dar crédito, agenciando e tal", recorda Prado.
Com a expansão dos negócios, porém, Prado lembra que a AgriConnection passou a incorporar operações de crédito, importação de produtos e estruturas logísticas. "A coisa vai crescendo e parece que o negócio vai sempre para o tradicional", afirma.
Para Seraphim, a diferença está na tentativa da Vereda de automatizar boa parte dessa operação por meio da inteligência artificial.
"Se eles conseguirem dar para esse agrônomo uma plataforma digital, boas linhas de produto e condição de financiamento e logística, o modelo é ideal. Você está empoderando o agrônomo. Só que tem um monte de pormenores aí que ninguém conseguiu fazer isso ainda", afirma.
Há ainda um desafio adicional no lado dos agentes autônomos, segundo Seraphim: manter uma rede de representantes comerciais qualificados e interessados em continuar trabalhando com a startup.
No modelo proposto pela Vereda, esses profissionais são fundamentais para garantir o relacionamento com os produtores, mas não são exclusivos da agtech.
"O que vai fazer com que eles mantenham fiel esse agrônomo? O que vai fazer esse cara ser da Vereda e não ser, por exemplo, um funcionário de uma Pioneer, de uma Corteva?", questiona.
Resumo
- Fundada por dois jovens de 24 anos, Vereda capta R$ 30 milhões para conectar indústrias de insumos diretamente aos produtores rurais
- Sem lojas ou estoques próprios, startup aposta em inteligência artificial e agentes comerciais autônomos para reduzir custos no campo
- Especialistas veem potencial no modelo, mas alertam para desafios de escala, logística, financiamento e fidelização de vendedores