A Nutrien encerrou o terceiro trimestre de 2026 com um resultado mais fraco, mas apresentou ao mercado uma projeção que aponta em sentido mais positivo.

Para a companhia canadense de fertilizantes e distribuição de insumos, 2027 deve trazer fundamentos mais favoráveis ao produtor e, por consequência, mais volume de fertilizante vendido.

Por isso, em guidance publicado juntamente com as demonstrações financeiras do terceiro trimestre de 2026, a empresa revisou para cima as projeções de vendas de potássio e nitrogênio para o ano, cortou a de fosfato e reduziu a faixa de Ebitda ajustado do varejo.

O documento retrata, assim, uma aposta na recuperação nos segmentos onde tem minas próprias e custo controlado, enquanto administra a retração na distribuição, justamente o elo em que a operação brasileira está inserida.

No capítulo de perspectivas, a Nutrien avaliou que os fundamentos globais da agricultura seguem sustentados por demanda firme por grãos e oleaginosas, e o aperto entre oferta e demanda deve favorecer a economia do produtor em 2027.

A companhia cita ainda a variabilidade climática regional, incluindo os efeitos do El Niño, e a incerteza geopolítica como fatores de volatilidade na produção e no comércio.

Para o potássio, a Nutrien mantém a previsão de embarques globais entre 74 e 77 milhões de toneladas em 2026 e projeta de 75 a 79 milhões em 2027, em linha com o crescimento histórico do consumo.

Já para o nitrogênio, espera situação ainda apertada entrando em 2027, pressionada por disrupções no fluxo comercial, paralisações de produção, demanda de importação de Índia e Brasil e custos de energia elevados.

O fosfato, por sua vez, segue com margens pressionadas por enxofre caro e disponibilidade restrita.

O desempenho do trimestre

No trimestre encerrado em setembro, a Nutrien lucrou US$ 288 milhões, queda de 39% sobre os US$ 469 milhões de um ano antes. O lucro por ação diluído caiu de US$ 0,96 para US$ 0,60, e o Ebitda ajustado recuou 8%, para US$ 1,31 bilhão. A receita ficou praticamente estável, em US$ 6,06 bilhões.

No acumulado dos nove meses, o quadro melhora: lucro de US$ 1,65 bilhão, queda de 4%, e Ebitda ajustado de US$ 4,85 bilhões, alta de 2%. O caixa gerado pelas operações cresceu 17%, para US$ 1,21 bilhão. A companhia devolveu US$ 1,3 bilhão aos acionistas entre dividendos e recompras.

O potássio foi o pilar do período, com Ebitda ajustado de US$ 1,97 bilhão no acumulado, alta de 9%, e volumes recordes para um período de nove meses. O nitrogênio caiu 1%, para US$ 1,61 bilhão, e o fosfato despencou 68%, para US$ 88 milhões, com margem bruta negativa de US$ 79 milhões no ano.

O CEO Ken Seitz atribuiu o desempenho a "crescimento estrutural de lucros" e a "ações decisivas" na otimização do portfólio, que, segundo ele, vão "melhorar a qualidade dos lucros e sustentar o crescimento de longo prazo do fluxo de caixa livre por ação".

O release traz duas decisões que explicam boa parte da estratégia e terão efeito contábil no quarto trimestre. Após revisão completa de alternativas para o negócio de fosfato nos Estados Unidos, a Nutrien decidiu manter e otimizar a planta de Aurora e as unidades integradas de beneficiamento, e encerrar as operações de White Springs no segundo trimestre de 2027.

A companhia informa ter recebido propostas não vinculantes pelo ativo, mas concluiu que não refletiam o valor de longo prazo. Os ativos de White Springs somam US$ 430 milhões e serão avaliados para impairment, com despesas previstas no quarto trimestre.

Além disso, em 5 de outubro, a empresa anunciou o encerramento indefinido da unidade de nitrogênio de Trinidad, com US$ 760 milhões em ativos sujeitos a avaliação de impairment e expectativa de baixas contábeis no quarto trimestre.

Com essas decisões, a companhia reduz exposição a ativos de custo alto e margem frágil para concentrar capital no que dá retorno estrutural. White Springs e Trinidad são justamente as operações que a empresa classifica como de reservas no fim da vida econômica ou de custo crescente.

O potássio, por sua vez, com custo controlável na faixa de US$ 60 por tonelada no acumulado, é o oposto.

O Brasil na leitura da companhia

É no trecho sobre o varejo que o Brasil aparece com mais peso, e não em tom positivo. A empresa afirma que as condições de plantio no País sustentam expectativa de área de soja e milho estável a modestamente maior.

Acrescenta, porém, que embora a economia futura da lavoura tenha melhorado a atividade de compra do produtor continua afetada pela disponibilidade restrita de crédito e por balanços mais fracos.

A mesma avaliação reaparece nos números. A margem bruta de produtos proprietários no varejo foi impactada, segundo o release, por uma estação de saúde vegetal mais curta na América do Norte e por efeitos climáticos no Brasil.

A margem bruta de sementes caiu no trimestre e no acumulado do ano, com a companhia atribuindo parte da queda a menores volumes no Brasil, por ações estratégicas e efeitos do clima.

Além disso, a participação da América Latina nas vendas de potássio da Canpotex recuou de 47% para 40% do volume no trimestre. O release não detalha a composição regional desse recuo, mas o Brasil é o principal mercado latino-americano da companhia.

O desmonte da operação brasileira

O balanço do trimestre, com menções preocupantes ao Brasil, chega um mês e meio após mais um movimento de redução da presença da companhia no País.

Em 23 de setembro, a Nutrien confirmou o encerramento das operações de varejo em São Paulo e Mato Grosso do Sul, antecipado pela CNN Brasil. A empresa justificou a decisão como parte da "revisão contínua do portfólio de operações", com foco em eficiência e sustentabilidade do negócio.

O processo de desinvestimento da companhia no território brasileiro vem ocorrendo desde 2024, quando cinco unidades industriais de mistura deixaram de operar.

No início de 2026, a Nutrien vendeu as unidades de Araxá (MG) e Cristalina (GO) para a Terrena Agronegócios — ambas paradas desde 2024.

Antes do anúncio de setembro, a empresa operava no varejo com cerca de 130 unidades no país. Segundo fontes ouvidas pelo site The AgriBiz, a companhia também decidiu suspender a operação de varejo em Goiás, informação que a Nutrien não confirmou. Ex-funcionários relataram demissões e suspensão de negócios nas unidades que ainda estavam ativas, com casos registrados no Triângulo Mineiro.

Em maio, Seitz já havia sinalizado o desfecho aos investidores. Segundo o CEO, a companhia esperava definir o futuro do negócio brasileiro até o fim de 2026. "Esse será, de fato, o foco para o restante de 2026: definir como pretendemos sair desse negócio de varejo", disse o CEO na ocasião. Por enquanto, essa definição ainda não é pública.

Resumo

  • Nutrien projeta aumento nas vendas de potássio e nitrogênio em 2027, com expectativa de melhora nas margens dos produtores rurais
  • Companhia registra queda de 39% no lucro trimestral e concentra investimentos em fertilizantes com maior rentabilidade, como o potássio
  • No Brasil, crédito restrito e margens menores pressionam as vendas, enquanto a empresa avança na redução de sua operação de varejo