A fábrica da John Deere no município goiano de Catalão vai ganhar novo status dentro da montadora americana de máquinas agrícolas a partir de 2029.

Até lá, a companhia vai investir na adequação da unidade, onde produz colhedoras de cana e pulverizadores, segundo anúncio foi feito nesta terça-feira, 4 de novembro, junto com a divulgação de um pacote maior de mudanças na manufatura da companhia nos Estados Unidos.

O movimento visa a transformar a planta no único centro global para a produção de colhedoras de cana, trazendo para Goiás uma linha que hoje funciona na unidade de Thibodaux, no estado americano da Louisiana.

Próxima das principais regiões canavieiras do País – e, portanto, das mais produtivas do mundo no segmento – a unidade de Catalão foi inaugurada em 1999 justamente para produzir esse tipo de máquina.

Nas quase três décadas seguintes, a planta acumulou ampliações e ganhou também a linha de pulverizadores. Com a decisão agora anunciada, ela deixa de ser uma planta regional para se tornar base global de um dos equipamentos mais especializados do portfólio agrícola da Deere.

A lógica da decisão, segundo indica a própria companhia, é concentrar a produção em um único site para reduzir custo unitário, simplificando a cadeia de fornecedores e permitindo diluir investimentos em automação e ferramentas sobre um volume maior.

Para o Brasil, o efeito prático é a ampliação do conteúdo local em um equipamento de alto valor agregado, além da consolidação de Catalão como polo exportador, não apenas fornecedor do mercado interno.

Em 2024, um grande aporte de R$ 700 milhões na mesma unidade previu a criação de cerca de 400 postos em 60 meses, sendo 100 diretos e 300 indiretos.

Plataforma industrial

O anúncio desta terça se soma a uma sequência de outros que tem reforçam a relevância do País no mapa industrial da John Deere. Em abril de 2024, a empresa havia comunicado os R$ 700 milhões para Catalão, com mais de 20 mil metros quadrados de ampliação sobre os 62 mil existentes e a nacionalização do sistema de pulverização inteligente See & Spray, que usa visão computacional e aprendizado de máquina para aplicar herbicida apenas onde há planta daninha.

Em julho deste ano, a Deere anunciou mais R$ 75 milhões para produzir componentes eletrônicos em Canoas (RS), com início de operação previsto para julho de 2027 e foco exclusivo no mercado brasileiro.

A nova linha vai montar módulos de controle, GPS e monitores agrícolas, itens que hoje são importados ou vêm de outras plantas. Foi o segundo aporte na mesma unidade, inaugurada em janeiro com R$ 42 milhões para fabricar o pulverizador 1025E.

Somados, os três movimentos desenham uma estratégia de verticalização. A empresa deixa de ser apenas uma montadora que importa tecnologia e passa a produzir no Brasil tanto o hardware eletrônico quanto o equipamento de colheita mais complexo do seu portfólio.

Ao mesmo tempo em que investe em algumas plantas, no entanto, a montadora realiza ajustes em outras. Em fevereiro, a companhia concedeu férias coletivas e layoff na fábrica de Horizontina (RS), medida que alcançou cerca de 880 funcionários das áreas de produção de colheitadeiras, solda, pintura, montagem e logística. O acordo com o sindicato tinha como objetivo evitar aproximadamente 140 demissões.

Em outubro, a empresa voltou a Horizontina com uma proposta de banco de horas para tentar evitar o desligamento de cerca de 150 trabalhadores. O pacote previa folgas remuneradas às sextas-feiras, sem desconto salarial, com as horas acumuladas para compensação em até dois anos, além de redução do adicional de horas extras de 80% para 50%.

Horizontina produz colheitadeiras de grãos, segmento que sofreu com a queda nas vendas e com a compressão de margem do produtor.

Para o setor sucroenergético, a concentração da produção em Catalão pode ter efeito direto sobre prazo de entrega e custo de manutenção. Máquinas fabricadas no País reduzem a exposição a câmbio e a frete internacional, dois componentes que pesaram sobre o preço de equipamentos nos últimos ciclos.

A proximidade também encurta o ciclo de peças de reposição, ponto crítico em uma cultura cuja janela de colheita é rígida.

O contexto global

A decisão de retirar a produção de colhedoras de cana de Louisiana faz parte de um rearranjo mais amplo da manufatura da Deere nos Estados Unidos, que a companhia apresentou como resposta a mudanças na demanda e à necessidade de ajustar capacidade.

Thibodaux, que opera desde 1965 e foi incorporada à montadora em 1998, continuará produzindo outros equipamentos, entre eles o arruador de algodão e componentes para fábricas da empresa no mundo.

Resumo

  • John Deere vai transferir a produção de colhedoras de cana dos Estados Unidos para unidade de Catalão, no Brasil
  • A partir de 2029, unidade goiana será o centro global de fabricação desses equipamentos, com foco em eficiência industrial e exportações.
  • Investimento reforça a estratégia de expansão e verticalização da companhia no Brasil, enquanto outras fábricas passam por ajustes de produção