De olho em defender os interesses dos pecuaristas de diferentes Estados do País, entidades representativas da pecuária de corte estão se unindo em uma organização, a União Nacional da Pecuária (Unapec), lançada oficialmente nesta quarta-feira, 4 de novembro, em um evento em São Paulo.
A organização, cuja formação havia sido anunciada em setembro do ano passado e agora foi oficializada, conta com a adesão de Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) e da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), Associação de Criadores do Pará (Acripará), Associação dos Pecuaristas de Rondônia (Apron), Associação Baiana de Pecuária (Acrioeste), Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), Sociedade Rural Brasileira (SRB) e Associação Grupo Pecuária Brasil (GPB).
De acordo com Guilherme Bumlai, presidente da Unapec, as entidades de oito estados que fazem parte da nova entidade respondem por aproximadamente 65% do rebanho bovino brasileiro e mais de 83% da carne bovina exportada pelo País.
A organização também mantém conversas avançadas com representantes da Sociedade Rural do Paraná para ampliar sua base de associados.
“A entidade já nasce grande. A ideia é reunir forças. Temos conversas bastante frequentes sobre temas relevantes e, através dessa união de forças, queremos ter uma voz uníssona para representar a pecuária brasileira”, disse.
Pelo menos duas questões urgentes serão pauta da Unapec em seus primeiros meses, segundo Bumlai: reforma tributária e rastreabilidade.
No caso da reforma tributária, a preocupação da Unapec está concentrada nos possíveis impactos da nova cobrança de impostos sobre a atividade pecuária, especialmente para produtores que hoje não estão sujeitos ao mesmo modelo de tributação.
Segundo Bumlai, muitos pecuaristas ainda desconhecem as mudanças previstas e podem ser surpreendidos pela cobrança da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), um dos tributos criados pela reforma.
“Muitos produtores não sabem que, a partir de um faturamento de R$ 3,6 milhões, vão ter que pagar CBS de 4,53%. Isso não foi debatido, não foi colocado de uma forma clara para todos os produtores. Muitos deles sequer estão sabendo”, afirmou Bumlai.
O presidente da Unapec disse que a entidade pretende atuar para evitar que a reorganização do sistema tributário brasileiro resulte em aumento de custos para os pecuaristas.
Uma das alternativas em discussão é o diferimento da CBS ao longo da cadeia produtiva, mecanismo que permitiria postergar o recolhimento do imposto para uma etapa posterior da comercialização, em vez de concentrar a obrigação no produtor rural.
“Estamos nos movimentando para ver se teremos essa alíquota e buscar que o peso da carga não caia para o produtor rural”, disse.
Outra frente de atuação será a rastreabilidade bovina, tema que ganhou espaço nas discussões da cadeia pecuária brasileira diante das exigências cada vez maiores dos mercados internacionais em relação à origem dos animais e às condições de produção.
Na avaliação de Bumlai, embora o Brasil ocupe uma posição de liderança nas exportações mundiais de carne bovina, essa relevância também expõe o setor a novas exigências comerciais, sanitárias e ambientais.
“Somos o maior exportador de carne do mundo, mas isso gera consequências também. Barreiras comerciais travestidas de questões sanitárias e ambientais, e nós precisamos estar preparados para enfrentar ações de outros países”, afirmou.
Para o dirigente, esse cenário torna necessário ampliar a participação dos produtores nas discussões sobre a implementação dos sistemas de rastreabilidade.
A principal preocupação, segundo ele, está na forma como essas obrigações serão implementadas e na capacidade dos pecuaristas de se adaptar às novas regras.
Bumlai afirmou que ainda existem dúvidas sobre a viabilidade de cumprir o cronograma que prevê a identificação individual dos animais até 2032, prazo que a entidade pretende colocar em discussão.
O governo federal já estabeleceu um plano de implementação da identificação individual de bovinos e búfalos entre 2025 e 2032.
A proposta prevê que, ao fim desse período, os animais sejam identificados individualmente antes de sua primeira movimentação, substituindo gradualmente o modelo de controle baseado em lotes.
“Temos dúvidas se teremos, em 2032, essa obrigatoriedade. É algo que a gente gostaria de pôr em pauta”, afirmou.
Mais voz
A ideia de criar a organização começou a ganhar corpo há cerca de um ano, durante conversas entre representantes da Acrimat e Acrissul.
“[Havia a] necessidade de muitas vezes a gente falar uma voz só, com interesses comuns dos dois estados e a pecuária sempre no nosso norte”, contou Bumlai.
A partir daí, tiveram início as discussões para a elaboração do estatuto, a estruturação jurídica da organização e a aproximação com associações de outros estados, como Rondônia, Goiás, São Paulo e Pará.
Um episódio recente, segundo o presidente da Unapec, ajudou a evidenciar a necessidade de uma representação nacional mais articulada dos pecuaristas: o tarifaço imposto pelos Estados Unidos às exportações da carne brasileira.
Bumlai afirmou que, durante as discussões sobre os efeitos das sobretaxas impostas pelo governo americano, a indústria frigorífica acabou assumindo o protagonismo do debate público, enquanto os produtores rurais tiveram pouca participação.
“A gente só viu o setor da indústria se comunicando”, afirmou o dirigente, ao recordar a reação do mercado às medidas anunciadas pelos Estados Unidos.
O resultado, segundo o dirigente da Unapec, foi sentido imediatamente no campo, com uma desvalorização de R$ 25 a R$ 30 por arroba do boi gordo no dia do anúncio das medidas.
Na avaliação do dirigente, a reação dos preços foi desproporcional aos efeitos que as tarifas efetivamente teriam sobre o mercado, abrindo espaço para que frigoríficos, inclusive aqueles que não exportavam para os Estados Unidos, pressionassem os valores pagos aos pecuaristas. “Frigoríficos que sequer são exportadores, se aproveitaram do momento”, afirmou.
Contudo, Bumlai ressaltou que as entidades dos pecuaristas já avaliavam, naquele momento, que a turbulência seria passageira e que a queda da arroba não se sustentaria por muito tempo.
“Nós, produtores e entidades, avaliamos que o mercado era extremamente passageiro. O mercado é soberano. Tínhamos certeza de que a queda da arroba que foi imposta seria curta”, disse.
O episódio reforçou a percepção de que, apesar de sua importância econômica, os pecuaristas ainda careciam de uma representação capaz de apresentar uma posição conjunta diante de situações que afetam toda a cadeia. "Precisamos de uma voz uníssona", concluiu.
Resumo
- Unapec reúne oito entidades de pecuaristas de estados que concentram 65% do rebanho bovino do Brasil
- Reforma tributária e rastreabilidade estão entre as prioridades da nova entidade
- Tarifaço dos EUA expôs falta de representação dos produtores, diz líder dos pecuaristas