O ano de 2026 entrou na trajetória da Aurora Coop como o período em que a cooperativa decidiu deixar de apenas comprar peixe. Em julho, dentro de um ciclo de investimentos que supera R$ 1,1 bilhão, o presidente Neivor Canton e o secretário do conselho Romeo Bet anunciaram a entrada "definitiva e ampliada" na piscicultura com produção própria, decisão apoiada pelas 14 cooperativas filiadas, que reúnem mais de 87 mil mil famílias associadas.

Os objetivos declarados eram dois: garantir abastecimento e abrir alternativa de renda para associados que não trabalham com aves ou suínos. Mas para o plano sair do papel faltava a indústria.

Essa questão foi equacionada com uma aquisição. Nesta quinta-feira, 29 de outubro, Aurora Coop e Bello Alimentos comunicaram a formalização de operação para a Aurora comprar ativos isolados do complexo de produção e industrialização de pescados da Mar & Terra, em Itaporã (MS). O negócio inclui estrutura industrial, fábrica de rações e fazendas de produção própria.

A informação consta do comunicado assinado pelas duas empresas. A nota não detalha valores envolvidos, o perímetro exato dos ativos, o número de empregados envolvidos ou o prazo para o fechamento da operação.

O frigorífico de Itaporã tem capacidade para processar 60 toneladas de peixe por dia. A planta tem certificação FDA e BAP — credenciais que abrem o mercado americano, destino de 99,96% das exportações de tilápia sul-mato-grossenses em 2025.

A operação muda a posição da Aurora na cadeia. Até aqui, a cooperativa era compradora e distribuidora de pescados processado por terceiros, sobretudo a cooperativa C.Vale. Com a planta de Itaporã, passa a controlar abate, processamento e parte da origem.

O segmento de pescados ainda é pequeno dentro dos negócios bilionários da Aurora. A atividade respondeu por R$ 270 milhões das vendas no mercado interno da Aurora em 2025. A receita operacional bruta da cooperativa chegou a R$ 26,9 bilhões, com sobras de R$ 1,2 bilhão.

A Bello Alimentos, que assina o documento ao lado da Aurora, é a empresa avícola do Grupo Pluma, gigante do setor avícola e de proteína animal que faturou R$ 8,7 bilhões em 2025.

A Bello abate 30 mil frangos e 90 mil peixes por dia e descreve sua operação de pescados em Itaporã como vinculada à Mar & Terra, unidade de piscicultura do mesmo grupo.

A empresa mantinha, até agora, duas plantas de pescados, uma em Itaporã, negociada com a Aurora, e outra em Aparecida do Taboado.

No início de outubro, em um indício de que a negociação já estava em curso, a Bello Alimentos abriu filial em Aparecida do Taboado, com atividade principal de criação de peixes em água doce, conforme cadastro na Receita Federal.

O mercado que a Aurora compra para acessar é o de maior crescimento relativo na proteína animal brasileira. A piscicultura nacional passou de 1 milhão de toneladas em 2025, alta de 4,41%. A produção de tilápias atingiu mais de 707 mil toneladas. Mato Grosso do Sul produziu mais de 53 mil toneladas e ocupa a sexta posição entre os estados produtores.

A operação foi submetida à aprovação do Cade, notificação obrigatória quando um dos grupos envolvidos fatura acima do piso de R$ 750 milhões.

Como não há sobreposição horizontal relevante, já que a Aurora não tinha abate próprio de peixes, o cenário mais provável é de que seja avaliada em procedimento sumário.

Até a decisão, as empresas seguem operando de forma independente, segundo informou o comunicado.

Resumo

  • Aurora Coop acerta a compra de ativos da Mar & Terra, em Itaporã (MS), incluindo frigorífico, fábrica de rações e fazendas de peixes
  • Aquisição marca a entrada da cooperativa na produção própria de pescados, com capacidade industrial de processamento de 60 toneladas por dia
  • Negócio amplia as alternativas de renda para 87 mil famílias associadas e depende da aprovação do Cade para ser concluído.