Henrique Schardong, diretor comercial do banco digital Plantae Agrocrédito, recorre a um conceito da filosofia oriental para explicar por que a instituição financeira com sede em Presidente Prudente (SP) está conseguindo crescer em um momento em que bancos e gestoras vêm tirando o pé do financiamento ao agronegócio.
Trata-se do oubaitori, expressão japonesa segundo a qual cada indivíduo cresce em seu próprio ritmo, sem a necessidade de se comparar aos demais.
Na prática, é essa a lógica que a Plantae procura aplicar aos negócios. Em vez de disputar os grandes produtores rurais, já atendidos pelas principais instituições financeiras do País, o banco concentra seus esforços nos pequenos e médios, justamente aqueles que mais enfrentam dificuldades para conseguir financiamento.
E é nesse segmento, um dos mais pressionados pela escassez de crédito no agronegócio, que a instituição tem encontrado espaço para crescer. “Está difícil o agro para os bancos, mas para a gente é oba”, resume Schardong, em entrevista ao AgFeed.
O avanço das operações está levando a Plantae a buscar novas fontes de recursos. Agora, a instituição prepara sua entrada no mercado de Fiagros, com a previsão de lançar, no início de 2027, um Fiagro-FIDC de aproximadamente R$ 100 milhões.
Schardong afirma que as negociações com uma gestora para estruturar o fundo estão avançadas, embora o nome da parceira ainda seja mantido em sigilo.
A expectativa é que o produto seja direcionado inicialmente a investidores qualificados, categoria que inclui pessoas físicas com pelo menos R$ 1 milhão em investimentos financeiros.
O objetivo é diversificar as fontes de captação da Plantae, atualmente concentradas nas Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), e ampliar sua capacidade de financiar produtores rurais.
“Não temos a necessidade, mas também não queremos ficar presos em um tipo de funding. Pensando em diversificar, resolvemos montar um fundo”, afirma Schardong.
O movimento acompanha o crescimento da instituição, que projeta encerrar 2026 com uma originação de crédito entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões, mais que o dobro dos quase R$ 200 milhões registrados em 2025.
Se confirmado o teto da estimativa, o avanço será de aproximadamente 150%, considerando os valores arredondados.
Segundo Schardong, o diferencial da Plantae está principalmente no modelo de concessão de crédito, que permite financiar produtores sem exigir imóveis rurais como garantia, uma das principais dificuldades enfrentadas por quem busca recursos no sistema financeiro tradicional.
“O grande produtor já é assistido. Ele já tem os grandes bancos. A gente quer o pequeno e o médio, que é o que de fato está desassistido e sem garantia”, afirma.
O executivo explica que muitos produtores já comprometeram suas propriedades em operações anteriores ou trabalham em áreas arrendadas, sem possuir imóveis para oferecer como garantia.
A restrição, segundo ele, vai além dos bancos. Empresas que tradicionalmente financiam seus fornecedores, como usinas sucroenergéticas, revendas de insumos e distribuidoras, também vêm reduzindo a oferta de recursos.
No setor sucroenergético, por exemplo, a combinação de juros elevados, dificuldades de caixa e queda dos preços do açúcar total recuperável (ATR) tem limitado a capacidade das usinas de financiar seus fornecedores de cana-de-açúcar.
É nessa lacuna que a Plantae vem ampliando sua atuação, por meio de programas de financiamento estruturados em parceria com as próprias agroindústrias.
“Os grandes bancos não conseguem fazer esse trabalho que a gente faz porque é um trabalho de formiguinha. É um a um, visitando. E os bancos estão preferindo operações maiores com garantia porque o bicho está pegando”, afirma.
Cana à frente, com novos mercados
A cana-de-açúcar continua sendo o principal mercado da Plantae, que concentra boa parte de suas operações no financiamento do plantio e da renovação de canaviais, com prazos de dois a três anos.
No modelo de negócio, empresas que compram de pequenos produtores de cana indicam a eles a Plantae como agente financeiro.
Atualmente, a instituição mantém relacionamento com mais de 45 agroindústrias sucroenergéticas, desde grupos regionais até companhias com capacidade de moagem superior a 20 milhões de toneladas de cana.
O ticket das operações varia conforme o porte das usinas. Segundo Schardong, algumas operações ultrapassam R$ 100 milhões, enquanto outras envolvem montantes próximos de R$ 20 milhões.
Entre 70% e 80% da carteira da Plantae está no estado de São Paulo, com o restante distribuído principalmente entre Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul.
Embora a cana continue no centro da estratégia, a instituição busca ampliar sua presença em outros segmentos, depois de reduzir sua exposição ao mercado de grãos nos últimos anos.
Uma das principais apostas é a pecuária, especialmente o financiamento de animais em sistemas de confinamento no modelo boitel. “Esse é um mercado que a gente está começando a crescer bastante, fazendo parcerias com diversos boitéis”, diz Schardong.
Nesse formato, a Plantae utiliza os próprios bovinos confinados como garantia das operações, dispensando a necessidade de vincular imóveis rurais aos empréstimos.
Outra frente é a antecipação de recebíveis de contratos de arrendamento rural, principalmente para proprietários que arrendam suas terras para usinas ou até mesmo para empresas de papel e celulose com foco no plantio de eucalipto “A gente consegue fazer esse tipo de operação
Com a expansão, a carteira de crédito da instituição está entre R$ 230 milhões e R$ 250 milhões, ante aproximadamente R$ 170 milhões no ano passado.
Os financiamentos variam de R$ 20 mil a R$ 6 milhões, com tíquete médio de R$ 1 milhão. A maior parte dos clientes possui faturamento anual inferior a R$ 50 milhões.
Apesar do crescimento, Schardong afirma que a qualidade da carteira continua sendo prioridade. Hoje, a inadimplência superior a 90 dias está entre 0,4% e 0,5%.
As chuvas nas regiões produtoras de cana atrasaram a colheita e levaram a instituição a prorrogar determinados vencimentos por um ou dois meses.
Nesses casos, a Plantae utiliza imagens de satélite e informações das usinas para acompanhar as lavouras e verificar a necessidade de extensão dos prazos. “Não adianta eu chegar e querer cobrar do cara se ele não colheu”, diz Schardong.
Consórcios com Rodobens
A diversificação da Plantae também chegou à oferta de serviços financeiros. Recentemente, a instituição passou a comercializar consórcios em parceria com a Rodobens, mirando produtores interessados em renovar suas frotas de máquinas e equipamentos agrícolas.
A entrada nesse mercado surgiu da percepção de que os clientes enfrentam dificuldades crescentes para financiar tratores, colheitadeiras e pulverizadores.
“É cada vez mais difícil eles conseguirem esse recurso via Moderfrota e crédito subsidiado. Hoje, até mesmo para comprar uma máquina, os bancos estão pedindo garantia real, além do bem”, explica Schardong.
A parceria funcionará no modelo white-label, em que a Plantae comercializará os consórcios da Rodobens utilizando sua própria marca, enquanto a parceira ficará responsável pela administração dos grupos e das cotas.
“A parceria com a Plantae amplia nossa capilaridade junto aos produtores rurais. Unimos nossa experiência em consórcios à expertise da Plantae no setor agropecuário para oferecer uma alternativa de planejamento na aquisição de ativos importantes para a produção rural”, afirma Rogério Del Guingaro, superintendente de desenvolvimento de canais e parcerias estratégicas da Rodobens, em nota.
Para Schardong, um dos diferenciais está na possibilidade de a própria Plantae financiar o lance necessário à contemplação da carta de consórcio, combinando a nova atividade com sua operação tradicional de crédito rural.
“Diferente de quem só vende consórcio, como a gente tem a instituição financeira por trás, conseguimos ajudar com esse financiamento do lance”, afirma.
Resumo
- Plantae prepara Fiagro-FIDC de R$ 100 milhões para 2027, buscando diversificar a captação de recursos e ampliar a oferta de crédito rural
- Banco projeta originar até R$ 500 milhões em crédito em 2026, avanço de 150% sobre 2025, com foco em pequenos e médios produtores
- Com forte atuação na cana-de-açúcar, Plantae aposta na pecuária e em consórcios para diversificar negócios