Há dias, parte do estado do Amazonas está tomada por uma fumaça densa, fruto de queimadas na região. A capital Manaus, fincada na floresta que é considerada o pulmão do planeta, chegou a ter, no final de setembro, a pior qualidade do ar no mundo, segundo a plataforma IQAir.

Enquanto escrevo, a situação melhorou, mas não o suficiente para impedir os manauaras de respirar o pior ar do Brasil, de acordo com a mesma plataforma. Mesmo em Porto Velho, onde estou, a cerca de 800 quilômetros da capital amazonense, a concentração de partículas finas no ar é quatro vezes maior que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Estamos no chamado verão amazônico, que vai de julho a novembro e é marcado pela redução das chuvas e pelo calor intenso. Neste ano, os efeitos do El Niño agravaram as condições de seca, tornando a vegetação mais vulnerável ao fogo.

Nesse cenário, a ação humana amplia um problema que já seria grave. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, incêndios em áreas de floresta preservada indicam que parte das queimadas está associada à degradação intencional da vegetação para posterior desmatamento, muitas vezes para aproveitamento ilegal de madeira, garimpo e áreas de pasto.

O contraste é evidente. Enquanto a Amazônia sofre com a destruição de seus recursos naturais, a conservação da floresta oferece oportunidades concretas de desenvolvimento.

Segundo o SB COP Legacy Report, a valorização dos ativos florestais pode adicionar R$ 40 bilhões ao PIB brasileiro, criar 312 mil empregos e contribuir para a conservação de 81 milhões de hectares de floresta até 2050. O potencial existe. O desafio é criar condições para que ele se concretize.

Isso exige olhar para além dos indicadores tradicionais e pensar a região não somente pela lente ambiental. Um levantamento do Observatório da Amazônia, do nosso Instituto Amazônia+21, mostra, a partir de dados oficiais, que o crescimento econômico, por si só, não está associado à redução da criminalidade na região.

O estudo também reúne evidências de que a presença do Estado faz diferença: cidades incluídas na Lista de Municípios Prioritários, criada pelo governo federal para intensificar a fiscalização do desmatamento, registraram redução de 16,9% nos homicídios e de 14,6% nas mortes por arma de fogo.

Eis aí uma particularidade da região: é preciso fortalecer atividades produtivas responsáveis, como sistemas agroflorestais e industriais que respeitem as vocações do bioma, fomentando a capacitação e formalização e garantindo que mais valor seja gerado e permaneça nos territórios.

Uma economia formal torna empresas e transações mais rastreáveis, amplia a aplicação de regras e favorece a atuação do poder público. Não é uma solução isolada para a violência ou para o desmatamento, mas parte de uma estratégia que precisa combinar o cuidado ambiental com a produção, para gerar novas oportunidades econômicas e frear o desmatamento, a criminalidade e as desigualdades sociais que impactam o território.

Há um ano, o Brasil sediou a COP30 na Amazônia, reforçando a necessidade de transformar compromissos climáticos em resultados concretos. Em 2025, tivemos avanços na preservação da floresta, com o MapBiomas apontando o menor índice de desmatamento de sua série histórica para a região.

Mas a fumaça que hoje encobre Manaus mostra que esses progressos ainda convivem com ameaças persistentes. Às portas da COP31, não basta renovar promessas. É hora de buscar mecanismos financeiros diversos e acelerar investimentos para estruturar negócios sustentáveis, de forma que a riqueza da Amazônia seja também sua maior proteção.

Marcelo Thomé é presidente do Instituto Amazônia+21 (IAMZ+21), presidente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO) e vice-presidente da CNI.