A Amazônia Legal registrou, em 2026, a menor área desmatada desde 1988, início da série histórica do INPE.
A área total somou 333,5 mil hectares, 27% abaixo do menor nível anterior, registrado em 2012.

As maiores áreas desmatadas da série do PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), publicado pelo INPE, foram registradas em 1988, 1995, 2002, 2003 e 2004, todas acima de 2 milhões de hectares. Desde 2005, a área desmatada na Amazônia Legal nunca mais atingiu 1,5 milhão de hectares.

Após atingir em 2021 o maior patamar recente, de 1,3 milhão de hectares, a área total desmatada vem recuando ininterruptamente desde 2022.

A divulgação dos dados do último ano foi questionada nas redes sociais, diante da aparente contradição entre os números apresentados e a quantidade de queimadas registradas nas regiões onde o desmatamento costuma se concentrar.

Duas questões, no entanto, precisam ser levadas em consideração. Os incêndios também podem ocorrer em áreas de pastagens, o que normalmente se intensifica em anos de seca mais severa e com maior disponibilidade de material para queimar, nesse caso, o capim remanescente.

Outro ponto são as áreas regeneradas, que já foram pastagens depois de 1988 e que não serão contabilizadas pelo INPE caso sejam novamente abertas. Essa regeneração, na maior parte dos casos, ocorre de forma involuntária após a conclusão do ciclo de degradação do pasto.

Cruzando informações do TerraClass, também do INPE, sobre o avanço das áreas de agricultura e pastagens, e do próprio PRODES, a Athenagro estima que, entre 1991 e 2026, a área de pastagens que já passou por regeneração no Brasil totalize quase 70 milhões de hectares.

É possível, portanto, que parte das queimadas seja explicada pela limpeza de áreas de florestas regeneradas que não aparecem nas estatísticas.

Temos insistido, há anos, que esses dados merecem maior dedicação da pesquisa pública, envolvendo parcerias entre o próprio INPE, universidades e Embrapa, especialmente por meio da Embrapa Territorial. Muitas informações têm sido difundidas a partir de estudos privados, cujas metodologias não passam pela avaliação da academia e das instituições oficiais. Em alguns casos, as conclusões não podem ser conferidas pela academia.

Além de qualificar a composição da área atingida, é preciso analisar se a supressão da vegetação está dentro do permitido pelo Código Florestal ou se ocorre em área que não deveria ser aberta — aí sim, nesse caso, compondo o desmatamento ilegal.

A nova atualização dos dados do INPE reforça conceitos que temos defendido aqui na Athenagro: a pecuária não é causadora do desmatamento.

Em relação ao período anterior, o balanço de 2026 mostra uma queda de 239 mil hectares na área desmatada. As maiores reduções ocorreram no Pará, onde o desmatamento recuou 93,4 mil hectares, e no Amazonas, com queda de 45,4 mil hectares na área desmatada.

Ambos os estados estão entre aqueles que não registraram queda no rebanho em 2025, conforme a recente divulgação da Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE. Enquanto o rebanho brasileiro total recuou quase 4 milhões de cabeças entre 2024 e 2025, o rebanho do Pará aumentou 2 mil cabeças (praticamente estável), enquanto o Amazonas registrou aumento de 77 mil cabeças.

Qualquer conclusão que relacione o menor índice de desmatamento às estatísticas de queda no rebanho estará errada, pois, na região onde o desmatamento mais recuou, o rebanho avançou, ainda que discretamente.

Os resultados financeiros da pecuária, assim como o estímulo ao criador de bezerros, permitem projetar que o rebanho deve voltar a aumentar em 2026, comportamento que tem sido corroborado pelos técnicos de campo que acompanham as propriedades pelo Brasil.

Dados projetados pela Athenagro indicam aumento de cerca de 3 milhões de cabeças no rebanho da Amazônia Legal, após a queda de 2,3 milhões de cabeças entre 2024 e 2025, sendo que quase toda a redução ocorreu em Mato Grosso e Rondônia.

No balanço geral, entre 2021 e 2026, o rebanho da Amazônia Legal aumentou 11,7 milhões de cabeças, enquanto, no mesmo período, a área desmatada anualmente recuou 970 mil hectares.

A combinação dos dados recentemente divulgados, tanto sobre o rebanho quanto sobre o desmatamento, reforça a importância de que o combate ao desmatamento ilegal seja conduzido de forma técnica, com foco nos dados.

Enquanto o assunto continuar sendo abordado de forma ideológica, transferindo a responsabilidade para quem opera dentro da legalidade, os resultados positivos tendem a ser temporários, alimentando apenas narrativas políticas e os interesses de quem se beneficia com o agravamento do problema.

É preciso seriedade e rigor técnico.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.