No dia 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para escolher, em segundo turno, quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Independentemente do resultado, quem assumir o país encontrará decisões importantes pela frente. Entre elas, está a definição de como o Brasil pretende aproveitar melhor as riquezas que já possui para gerar desenvolvimento, emprego, renda e maior segurança energética.

Para isso, encontrará uma vantagem construída ao longo de duas décadas: uma indústria que transforma matérias-primas nacionais em energia e conecta o campo, as fábricas e os grandes setores consumidores de biocombustível. Essa indústria é a do biodiesel. Sua dimensão já justifica um lugar nas principais decisões econômicas do país.

O Brasil costuma discutir o biodiesel em pontos percentuais: quanto deve ser adicionado ao diesel, quando a mistura vai aumentar e qual será o próximo patamar. Essa discussão tem consequências importantes, mas revela apenas uma parte de seu alcance. Por trás de cada litro existe uma estrutura que gera demanda agrícola, colabora para a descarbonização, estimula o processamento industrial, contrata serviços e movimenta economias regionais.

O biodiesel é uma plataforma da economia brasileira. É com essa dimensão que o próximo presidente precisa enxergá-lo. Uma decisão sobre seu crescimento repercute muito além das usinas. Chega ao produtor rural, à cooperativa, ao fabricante de equipamentos, à transportadora e ao comércio das cidades onde essa atividade acontece. O biocombustível é o produto final de uma cadeia que distribui oportunidades ao longo de sua produção.

A industrialização ajuda a entender esse efeito. Segundo estudos, em 2025, a geração de empregos por mil toneladas de soja produzida e processada no país foi mais de quatro vezes a observada na soja produzida e exportada diretamente. O biodiesel integra essa dinâmica ao sustentar uma importante demanda pelo óleo obtido no processamento do grão.

O País agrega valor quando realiza mais etapas produtivas dentro de seu território. Amplia a atividade industrial, desenvolve fornecedores e abre espaço para novas competências profissionais.

Essa engrenagem também conecta energia e alimentos. Ao estimular o processamento da soja no Brasil, o biodiesel contribui para a produção de farelo proteico, insumo essencial à alimentação de aves, suínos e bovinos.

A maior disponibilidade dessa proteína fortalece a competitividade da pecuária brasileira e pode contribuir para reduzir os custos de alimentação animal. É uma relação virtuosa: a mesma cadeia industrial produz energia renovável, agrega valor ao agronegócio e amplia a oferta de insumos para a produção de alimentos.

A diversidade de matérias-primas acrescenta outra força a essa plataforma. Ao lado da soja, gorduras animais, óleo de cozinha usado e outras fontes conectam diferentes atividades à produção de biocombustível. Essa combinação valoriza recursos, amplia a base de fornecimento e aproveita vocações regionais.

Na agricultura familiar, a conexão acontece também por meio do Selo Biocombustível Social, que estabelece critérios de aquisição de matérias-primas e assistência técnica aos agricultores participantes. A cadeia energética se aproxima, assim, de necessidades concretas de quem produz: acesso a mercado, apoio técnico e oportunidade de renda.

O alcance dessa plataforma cresce ainda mais quando olhamos para quem pode consumir o biocombustível. Rodovias, ferrovias, mineração, siderurgia, navegação, geração de energia e operações agrícolas compõem uma extensa agenda de expansão. São atividades centrais para a economia brasileira, com máquinas, equipamentos e sistemas de transporte que abrem novos mercados para o biodiesel.

O caminhão e o trem que levam a safra ao porto, os ônibus que transportam passageiros diariamente, os equipamentos que movimentam uma mina, as frotas das operações siderúrgicas e os navios que transportam nossas exportações fazem parte dessa perspectiva. Ampliar o uso de biodiesel nesses segmentos significa conectar uma indústria nacional a uma parcela maior da demanda energética do país.

Na navegação, a oportunidade ganha dimensão internacional. O Brasil reúne produção de biocombustível, infraestrutura portuária e grandes fluxos de comércio exterior. Articular essas capacidades permite agregar uma nova atividade econômica à movimentação de mercadorias e ao abastecimento de embarcações.

Há também um resultado estratégico para o país: maior segurança energética. Em 2025, o Brasil importou mais de 17 bilhões de litros de diesel fóssil, o equivalente a 25% do consumo nacional no ano passado. A produção nacional de biodiesel já contribui para reduzir a necessidade dessas compras e a exposição às condições de fornecimento do exterior.

Emprego, industrialização, renda no campo, novos mercados, descarbonização e abastecimento fazem parte da mesma equação. É essa combinação que torna o biodiesel relevante para um projeto nacional de desenvolvimento.

O Brasil não precisa escolher entre fortalecer o agronegócio, desenvolver sua indústria e avançar na transição energética. O biodiesel demonstra que essas três agendas podem crescer juntas, gerando emprego, renda, segurança energética e oportunidades para o País.

Ao próximo presidente, caberá transformar esse potencial em uma agenda concreta de desenvolvimento. Isso exige previsibilidade regulatória para sustentar investimentos e o avanço da mistura obrigatória, condições para ampliar o uso de biodiesel em novos setores consumidores e uma política industrial capaz de integrar energia, agronegócio, transportes e inovação.

O Brasil já dispõe de capacidade produtiva, conhecimento e uma cadeia industrial consolidada. O desafio agora é criar as condições para que essa estrutura amplie sua contribuição ao crescimento econômico e à segurança energética do país.

Como empresário do setor, é essa visão que espero de quem assumir a Presidência. Uma visão capaz de compreender os efeitos de cada investimento para além dos limites de uma fábrica e os benefícios de cada novo mercado para além do biocombustível vendido.

O Brasil construiu uma indústria, desenvolveu conhecimento e organizou uma cadeia produtiva de grande alcance. Os próximos anos oferecem a oportunidade de multiplicar os resultados dessa construção. O biodiesel já é uma potência brasileira. O que espero do próximo presidente é que lhe dê lugar à altura no projeto econômico do país.

André Lavor é CEO e cofundador da Binatural, produtora brasileira de biodiesel.