O interesse de empresas, produtores rurais e investidores estrangeiros por inovações desenvolvidas no agro brasileiro levou a PwC a estruturar uma nova frente internacional de negócios para seu hub AgTech Innovation, sediado em Piracicaba (SP).

Depois de dois anos atendendo demandas pontuais de diferentes países, a consultoria decidiu estabelecer um roteiro para conectar seu ecossistema de aproximadamente 700 startups à rede global de clientes da PwC.

"A ideia é que a gente possa pegar a tecnologia que temos aqui e colocá-la a favor de produtores e clientes na Nova Zelândia, nos Emirados Árabes, na Colômbia, nos Estados Unidos. E isso vem acontecendo", afirma Dirceu Ferreira Júnior, sócio da PwC Brasil.

Em entrevista ao AgFeed durante o AgTech Meeting 2026, realizado ontem no Palacete Monte Alegre, em Piracicaba, Ferreira e Mayra Theis, sócia e líder da Indústria Agro da PwC Brasil, explicaram que a iniciativa surgiu da demanda externa, e não de um plano original de expansão geográfica.

"Praticamente toda semana a gente recebe uma demanda", diz Mayra. Os contatos chegam por intermédio dos escritórios da PwC em diferentes países e envolvem desde startups e produtores até grandes corporações interessadas em tecnologias, práticas agrícolas e oportunidades de investimento.

Segundo os executivos, o Brasil se tornou uma referência internacional em inovação para a agricultura tropical, especialmente em soluções relacionadas à sustentabilidade e ao manejo agrícola.

"Essa é uma pauta que o Brasil lidera globalmente", afirma Ferreira, ao destacar a diversidade de práticas sustentáveis desenvolvidas no País.

A procura já envolveu clientes da Oceania, Europa, Oriente Médio e Américas, incluindo demandas relacionadas à produção de palma no Equador e à piscicultura em outros países latino-americanos. "Nosso network é muito grande", garante Ferreira.

A movimentação inclui a chegada ao Brasil do neozelandês Ben Wakely, sócio da consultoria especializado em agronegócio e transformação tecnológica. Ele terá a missão de organizar os processos e a governança da internacionalização, com previsão de permanecer no País por três anos.

Segundo ele, Wakely já trabalha na identificação de clientes e sócios da consultoria em mercados prioritários, para os quais o hub poderá oferecer soluções.

Referência

A nova etapa representa outra transformação na trajetória do antigo AgTech Garage, fundado em 2017 e que se tornou um dos principais pontos de encontro do ecossistema brasileiro de inovação agrícola.

Durante os anos de expansão das agtechs, antes e durante a pandemia, o espaço reuniu empreendedores, investidores e grandes empresas interessadas em novas tecnologias para o campo.

Em novembro, a aquisição do hub pela PwC completará quatro anos. Desde então, a consultoria ampliou sua atuação para além das conexões entre startups e empresas agrícolas.

"A aquisição do hub não veio pela receita direta que ele poderia prover. O grande ganho é poder trazer o cliente e ampliar a perspectiva, saindo de um âmbito de inovação apenas para serviços mais complexos”, diz.

O portfólio chegou a reunir quase mil startups, mas atualmente se mantém próximo de 700, incluindo empresas de outros setores. Google Cloud, AWS e SAP estão entre as grandes companhias de tecnologia conectadas ao ecossistema.

"Antes da compra pela PwC, o hub era uma grande startup. Com a aquisição, profissionalizamos os serviços e a maneira de atuar", detalha Ferreira.

Para Mayra, a integração permite combinar a capacidade de inovação das startups com os serviços de consultoria e as alianças tecnológicas globais da PwC.

Uma das iniciativas é a frente denominada Acelerar, que reúne grupos de startups e agtechs para solucionar problemas complexos de grandes clientes.

Impacto da IA

A inteligência artificial (IA) motiva um poderoso impulso para a inovação. Segundo Mayra, um recorte da CEO Survey da PwC mostra que 33% dos CEOs do agronegócio já identificam resultados decorrentes do uso da tecnologia.

Ferreira afirma que a tecnologia também está acelerando o desenvolvimento de novos produtos agrícolas. Na biotecnologia, processos de pesquisa que anteriormente demandavam cerca de dez anos já poderiam ser concluídos em cinco anos ou menos, segundo ele.

A tecnologia, além de ampliar a presença de startups no ecossistema, pode aproximar mais produtores rurais das iniciativas do hub, inclusive por meio de cooperativas como a Cooxupé, uma de suas parceiras.

A mudança ocorre em um ambiente de maior seletividade dos investidores. Após a expansão do venture capital durante a pandemia e a retração posterior, as startups enfrentam exigências de retorno financeiro mais rápido.

"Hoje em dia o investidor não está apto a colocar dinheiro numa startup esperando dez anos", afirma Ferreira.

Para a PwC, o desafio agora é transformar a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias agrícolas em negócios internacionais recorrentes de retorno rápido.

Resumo

  • PwC estrutura frente internacional para levar tecnologias do agro brasileiro a mercados como EUA, Nova Zelândia, Emirados Árabes e Colômbia
  • Hub AgTech Innovation reúne cerca de 700 startups e conecta empresas inovadoras a produtores, investidores e grandes clientes globais
  • Pesquisa da PwC aponta que 33% dos CEOs do agronegócio já identificam resultados com inteligência artificial