Uma boa conversa não tem preço no mundo real, mas, no mercado de inovação do agro, essa habilidade pode abrir as portas de um fundo de até R$ 200 milhões.
Agtechs com inteligência artificial (IA) capaz de conversar com produtores rurais estão entre as prioridades do RAIZ, novo fundo da The Yield Lab Latam.
Para Kieran Gartlan, sócio-gerente da instituição, agentes de IA que interagem com agricultores por WhatsApp, inclusive por voz, podem mudar a relação entre startups e produtores de diferentes portes.
“Para mim, é o essencial. Só isso já basta para abrir um mercado de cinco milhões de produtores”, afirmou Gartlan ao AgFeed.
Segundo ele, a primeira geração de agtechs dependia de aplicativos, plataformas e inserção manual de dados, ferramentas pouco adaptadas à rotina do campo.
Com a IA conversacional, o produtor pode acessar serviços sem precisar aprender a utilizar novos sistemas.
Gartlan estima que as tecnologias digitais tradicionais alcançam principalmente cerca de 100 mil grandes produtores.
“Os agentes conversacionais podem chegar, potencialmente, aos cinco milhões de estabelecimentos rurais brasileiros”, apontou.
Retorno mais rápido
A facilidade de adoção e o potencial de escala também alteram, na avaliação de Gartlan, as perspectivas dos investidores dessas empresas.
Ele estima que o ciclo entre o investimento inicial e a venda da participação em uma startup, tradicionalmente próximo de dez anos, possa cair para seis anos com a IA.
“Estamos pensando em empresas do agro investindo para ter mais inserção em tecnologia e inovação. A gente está atrás de smart money, não está indo concorrer com os juros altos”, argumenta.
Outro fator é a pressão sobre grandes companhias para incorporar inteligência artificial às operações.
Embora tenham interesse em desenvolver soluções próprias, elas enfrentam dificuldades para contratar especialistas, integrar tecnologias e atender exigências de proteção de dados.
Nesse cenário, a aquisição de startups com produtos já testados pode se tornar uma alternativa mais rápida, favorecendo a saída dos investidores.
“A gente espera atrair mais capital por isso. Se você tem rodadas de follow-on com mais capital, você está dentro de um espaço onde tem mais liquidez”, avaliou.
Gartlan também considera favorável o momento de menor liquidez no mercado de capital de risco, que permite negociar participações em startups com avaliações mais baixas.
“Quando o mercado está muito aquecido, você tem menos tempo para avaliar e acaba pagando mais caro”, afirmou.
Atualmente, a gestora administra US$ 54 milhões em ativos na América Latina, com mais de 90% dos recursos já aplicados. Em nove anos, investiu em 35 startups de sete países, mais da metade delas brasileiras.
Os US$ 5 milhões restantes estão reservados para novos aportes em empresas do portfólio.
Os atuais parceiros da gestora já sinalizaram interesse em participar do RAIZ, segundo Gartlan, embora ainda não haja anúncios confirmados de investimento.
Entre os investidores de fundos da administradora estão multinacionais como Nestlé e Grupo Bimbo, além da chilena SQM e do BID Lab, braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Primeiros aportes em 2027
Já o RAIZ pretende formar uma carteira de aproximadamente 25 startups, com aportes individuais entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões.
Os recursos serão direcionados a startups “AI first”, como fintechs agrícolas, tecnologias para comercialização e logística, além de bioinsumos.
A meta inicial é captar R$ 50 milhões até março de 2027, quando a gestora espera “assinar os primeiros cheques”.
Gartlan admite antecipar operações caso receba compromissos de investidores antes desse prazo.
A captação deverá continuar por mais seis meses a um ano, até alcançar os R$ 200 milhões pretendidos.
A rede internacional da The Yield Lab também permitirá trazer tecnologias estrangeiras ao mercado brasileiro, destinando até um terço dos recursos do novo fundo a essas operações.
Para selecionar as startups, a gestora lançou o AI Readiness Program, iniciativa que testa soluções com grandes grupos do agronegócio antes dos investimentos.
Os primeiros projetos envolvem a cadeia de grãos, com participação da bolsa de Chicago, e buscam avaliar a viabilidade técnica e comercial das tecnologias.
Entre as empresas do portfólio que utilizam agentes conversacionais, Gartlan cita Grão Direto, Gold Flux e Agroforte.
A Grão Direto, por exemplo, desenvolveu o agente de IA Ayrton para conversar com agricultores sobre preços, tendências de mercado e comercialização de grãos.
O sistema permite consultar cotações, solicitar operações comerciais e identificar intenções de venda.
Segundo Gartlan, essas informações ajudam tradings a localizar produtores interessados em negociar, reduzindo custos de prospecção e permitindo uma precificação mais eficiente.
Resumo
- Gestora mira 25 startups, com aportes individuais entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões
- Primeiro cheque está previsto para o início de 2027, mas pode ser antecipado
- Escassez de capital favorece negociação de participações em startups com valuations menores