A confirmação de um caso de doença de Newcastle em Santa Catarina reacendeu o alerta no setor avícola brasileiro, mas, para o banco americano J.P. Morgan, o susto pode ter sido maior que o real impacto junto ao setor.
Em relatório assinado pelos analistas Lucas Ferreira, Larissa Perez e Froylan Mendez, a instituição avalia que o impacto sobre as duas maiores empresas exportadoras de produtos a base de aves do País, JBS e MBRF, tende a ser limitado.
O Ministério da Agricultura (Mapa) confirmou a detecção da doença em uma granja de perus em Santa Catarina. Além do isolamento da área e do abate dos animais na propriedade, o banco espera que o governo imponha uma suspensão temporária das exportações de produtos avícolas até o controle total do foco.
É a segunda vez que o Brasil registra um surto de Newcastle, e, na avaliação da casa, a lição aprendida pelo mercado no surto de 2024 indica que o efeito tende a ser menos danoso do que o inicialmente temido.
No evento anterior, detectado em uma granja comercial em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, em 17 de julho de 2024, o Mapa adotou o abate sanitário de cerca de 7 mil aves, controles de movimentação e a autossuspensão preventiva das exportações.
A suspensão foi levantada em cerca de uma semana para a maioria dos mercados, e o Brasil declarou à Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH, na sigla em inglês) a autodeclaração de liberdade da doença em 23 de outubro de 2024.
O efeito prático foi uma queda de 100 mil toneladas, cerca de 25%, nas exportações brasileiras de frango no mês das restrições, com recuperação logo em seguida — e os preços médios de exportação não recuaram no evento. O Ebitda de JBS e MBRF não foi materialmente impactado, com as vendas externas retomando o ritmo.
O J.P. Morgan aponta ainda um fator estrutural a favor desta vez: vários países mudaram seus protocolos de restrição para um raio geográfico, em vez de proibições nacionais ou estaduais.
No episódio de 2024, as reações variaram muito. A China foi o caso mais severo e duradouro, suspendendo as importações nacionalmente, reabrindo os demais estados em 12 de agosto de 2024, mas mantendo o Rio Grande do Sul restrito até 16 de janeiro de 2026 — o que deixou oito plantas paradas por cerca de 18 meses, incluindo unidades de BRF e JBS.
O México passou de uma suspensão nacional para restrição apenas ao Rio Grande do Sul, com as exportações se recuperando. A União Europeia restringiu apenas a área do foco e seguiu permitindo produtos tratados por calor.
A Arábia Saudita limitou as barreiras ao Rio Grande do Sul e as removeu em maio de 2025. E o Japão teve a resposta mais localizada, com controle num raio de 50 quilômetros, sem afetar o fluxo comercial.
Neste novo caso, o banco estima que Santa Catarina responde por 10% a 20% das exportações de frango da MBRF e da JBS/Seara. A menos que haja um evento de disseminação ampla, improvável para essa doença, com o Mapa agindo rápido para conter o foco, o impacto deve ser ainda menor do que o de 2024.
O relatório lembra que a Newcastle é uma doença viral altamente contagiosa em aves, causada pelo paramixovírus aviário tipo 1 (APMV-1), de notificação internacional obrigatória. Surtos podem se espalhar rapidamente e acionar controles sanitários e barreiras comerciais no âmbito da WOAH e da OMC, ainda que o risco à segurança alimentar humana em produtos inspecionados não seja a preocupação central.
O banco mantém a recomendação Overweight, acima da média, para as duas ações. A leitura de fundo é que o episódio sanitário, embora gere ruído de curto prazo, não altera a tese das companhias, que no precedente de 2024 mostraram resiliência operacional e rápida recomposição das exportações.
Resumo
- J.P. Morgan avalia que o caso de doença de Newcastle em Santa Catarina deve ter impacto limitado nas exportações brasileiras de frango
- Experiência do surto de 2024 e protocolos sanitários com restrições geográficas podem reduzir os efeitos sobre JBS e MBRF
- Banco mantém recomendação de compra para as duas empresas, destacando a resiliência operacional e a recuperação das exportações após o episódio anterior