O açúcar foi uma das principais portas de entrada da trading Timbro no agronegócio e continua sendo o produto de maior peso nas operações agrícolas da companhia brasileira, a maior exportadora da commodity que não é ligada a um grupo sucroenergético e que concorre diretamente com o “ABCD” – acrônimo para as gigantes ADM, Bunge, Cargill e Louis-Dreyfus Company.

Após consolidar sua presença no comércio internacional do adoçante, a empresa começou a olhar para outros produtos que podem percorrer os mesmos caminhos comerciais já estabelecidos entre o Brasil e outros continentes ao redor do mundo.

É nesse sentido que a Timbro entrou na comercialização de proteínas congeladas brasileiras para África e Ásia, operação que começou no fim de 2025 e deve avançar em 2027.

Também no ano que vem, a companhia pretende começar a operar com arroz, aproveitando uma estrutura de originação que está sendo montada na Índia e na Tailândia, também tendo como destino o continente africano.

Por trás desses movimentos está uma estratégia de aproveitar a carteira de clientes construída ao longo dos últimos anos para comercializar novos produtos, sem necessariamente precisar desenvolver mercados do zero..

"Temos uma operação muito grande de açúcar na África. Em alguns mercados, a gente tem cerca de 20% da importação no país. Só que um comprador de açúcar, faz açúcar e outros N produtos. Então, a gente detectou essa oportunidade", afirma Pietro Costantino, diretor e sócio da Timbro, em entrevista ao AgFeed.

Foi justamente essa característica que abriu caminho para o ingresso da Timbro no comércio internacional de carnes.

"Montamos uma mesa que tem capacidade de originar produto, proteína congelada, principalmente no Brasil", explica o executivo.

A operação concentra-se, neste primeiro momento, no envio de carne bovina e de frango do Brasil destinadas principalmente à África, com uma parcela menor das vendas direcionada à Ásia.

A ideia é ampliar gradualmente a presença nesse mercado, inclusive com a possibilidade de originar proteínas em outros países. “Queremos vender no mesmo canal de distribuição que a gente já tem o açúcar hoje”, diz Costantino.

Outra frente dessa estratégia será o arroz. Diferentemente do que acontece com as proteínas, porém, a operação foi desenhada para funcionar inicialmente fora do Brasil.

A Timbro está estruturando a originação do cereal na Índia e na Tailândia, dois grandes fornecedores mundiais, para atender principalmente o mercado do continente africano.

Costantino explica que a escolha pelo arroz asiático, em vez do brasileiro, se dá pelas condições comerciais mais favoráveis oferecidas por esses países nos mercados em que a companhia atua. “O arroz asiático, para os mercados em que nós atuamos, tem mais competitividade", diz.

O escritório da companhia em Dubai será responsável pela operação, que poderá futuramente incorporar outros países fornecedores. “Em algum momento a gente deve ir para a América do Norte também”, diz Costantino.

O movimento ilustra uma característica que a Timbro procura reforçar em sua estratégia comercial: utilizar sua presença internacional para conectar diferentes regiões produtoras e consumidoras, independentemente de o Brasil estar envolvido diretamente nas transações.

"É muito parecido com o que a gente faz hoje. A gente fala que tem sourcing global. E tem mesmo", diz o executivo.

A expansão do portfólio acontece em um momento em que o agronegócio ganha representatividade dentro dos negócios da companhia, fundada há 16 anos.

De acordo com Costantino, a Timbro projeta encerrar 2026 com faturamento de R$ 25 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 8 bilhões devem vir das operações agrícolas, o equivalente a cerca de um terço da receita total. Em 2025, a área havia faturado aproximadamente R$ 7 bilhões.

Se a projeção se confirmar, o crescimento será de cerca de 14% em um ano, mesmo diante de um cenário marcado por preços mais baixos em algumas commodities e maiores custos logísticos.

Com mais de 540 funcionários e escritórios no Brasil, China, Suíça, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Portugal, Japão, Colômbia e Marrocos, a Timbro construiu uma estrutura de atuação que vai além da comercialização de produtos agrícolas.

A Timbro também faz trading de metais ferrosos como aços carbono planos, longos e inox, ferro-gusa e sucata de aço, e não ferrosos como alumínio, cobre, níquel, zinco, molibdênio e vanádio, além de commodities minerais como minério de ferro, minério de manganês e coque de petróleo.

Atua, também, prestando serviços para grandes empresas, especialmente multinacionais, na importação de insumos e produtos. “As grandes empresas usam grandes tradingspara prestar o serviço de desembaraço para eles e muitas vezes também o financiamento e logístico. Então, é aí que a gente entra”, diz Costantino.

A Timbro, por exemplo, tem um grande centro automotivo em Cariacica (ES), onde armazena carros da chinesa GWM. “A gente importa, nacionaliza os carros por lá e os carros são distribuídos pelos concessionários no Espírito Santo”, afirma o executivo.

No agro, o açúcar continua liderando o faturamento, seguido pelo etanol, pelos grãos e algodão e pelo café. A companhia também atua na comercialização de produtos como gergelim e feijões para mercados internacionais.

Para Costantino, o crescimento da área reflete tanto a ampliação dos destinos comerciais quanto o amadurecimento das relações com produtores brasileiros.

"A Timbro se consolidou como um nome no agronegócio. Hoje os produtores procuram a gente para fazer negócios", afirma.

A aproximação com os fornecedores também se traduz na oferta de soluções financeiras e comerciais, especialmente em operações de proteção de preços.

No mercado de açúcar, por exemplo, a trading mantém contratos de longo prazo com produtores e oferece instrumentos de hedge, que ajudam a reduzir a exposição às oscilações das cotações internacionais.

Segundo o executivo, essa estrutura permitiu que parte dos fornecedores atravessasse o período recente de queda dos preços com menor impacto sobre os resultados.

"Tem muito produtor que já estava hedgeado, então ele não sofreu tanto com essa queda. Obviamente a queda é ruim, mas quem tem uma política de hedge bem feita conseguiu se sair melhor nessas situações", avalia.

A estratégia também ajuda a trading a garantir volumes recorrentes de produto para seus clientes internacionais.

Mas, embora esteja ampliando sua atuação em diferentes cadeias agrícolas, a Timbro não pretende necessariamente avançar sobre todas as etapas de processamento das commodities.

Costantino explica que o modelo predominante da empresa permanece concentrado na compra e venda direta de produtos, com posições próprias nas operações comerciais.

Uma exceção está no mercado de etanol, em que a companhia possui uma pequena destilaria no Rio Grande do Sul.

A estrutura industrial funciona como uma porta de entrada para uma operação comercial muito maior, que atualmente movimenta aproximadamente R$ 1 bilhão por ano.

Além do volume produzido na própria destilaria, a Timbro origina etanol de cerca de 30 usinas brasileiras e comercializa o combustível com distribuidoras.

O portfólio contempla tanto o biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar quanto de milho, em proporções semelhantes.

"A operação de etanol é relevante para a gente, é uma operação de cerca de R$ 1 bilhão de faturamento", explica o sócio da companhia.

Outra frente de atuação ligada ao agronegócio está na importação de insumos e equipamentos.

Diferentemente do modelo adotado na comercialização de commodities, a Timbro trabalha principalmente como prestadora de serviços para fabricantes e empresas multinacionais que precisam trazer fertilizantes e produtos químicos ao Brasil.

Nesse caso, a companhia não assume posições comerciais próprias nos produtos, mas oferece serviços de importação, desembaraço aduaneiro, financiamento e distribuição.

O mesmo modelo é utilizado nas operações com máquinas agrícolas e equipamentos de construção civil de fabricantes chinesas como XCMG e Sany.

Nos últimos dois anos, a empresa participou da estruturação de armazéns no interior do País para atender essas operações, diz Costantino.

A presença em diferentes atividades, dentro e fora do agronegócio, também cria oportunidades para compartilhar estruturas logísticas e financeiras, uma das características do modelo de negócios da Timbro.

Esse alcance internacional, entretanto, também expõe a companhia às turbulências do comércio global.

Segundo Costantino, os conflitos no Oriente Médio provocaram aumentos relevantes nos custos dos fretes marítimos, sobretudo em operações dependentes de contêineres e navios.

As mudanças chegaram a alterar os fluxos comerciais entre países de origem e destino, exigindo adaptações na estrutura das operações.

"Não se normalizaram, mas se acomodaram", resume o executivo, ao avaliar o comportamento dos custos logísticos após os impactos iniciais.

Mesmo nesse ambiente, a Timbro vê espaço para ampliar sua presença internacional, especialmente no agronegócio, aproveitando a estrutura montada ao longo dos últimos anos.

“Nós somos brasileiros, o DNA do Brasil é o agronegócio, então, faz muito sentido para a gente crescer nessa frente.”

Resumo

  • Timbro projeta faturar R$ 8 bilhões no agro em 2026, alta de 14%, e amplia portfólio para além do açúcar
  • Trading iniciou exportações de carnes brasileiras em 2025 e prepara entrada no mercado de arroz em 2027
  • Companhia aproveita carteira de clientes na África para comercializar novos produtos sem precisar desenvolver mercados do zero