A agfintech Grão Direto, plataforma que atua na comercialização digital de grãos na América Latina, conseguiu nos últimos anos montar uma carteira de investidores com empresas do primeiro time do agronegócio.

Entre elas estão gigantes como Bayer, ADM, Cargill, Amaggi, Louis Dreyfus Company, Basf e SLC Agrícola. Agora, esse grupo ganha um novo integrante.

A Minerva Foods é a mais nova investidora da Grão Direto, em uma operação que marca a entrada de uma das maiores empresas de proteína animal da América Latina no quadro societário da agtech, informou a startup em primeira mão ao AgFeed.

A operação, no entanto, não envolveu uma nova rodada de investimentos. A Minerva comprou a participação de um dos primeiros investidores da Grão Direto, em uma transação secundária.

O fundo de venture capital, que entrou na empresa ainda em estágio inicial, realizou seu desinvestimento após o período de maturação de sua participação. A Grão Direto não revelou qual foi o investidor que deixou o quadro de investidores.

Para Alexandre Borges, CEO e cofundador da Grão Direto, a operação representa um exemplo para investidores que apostam em startups do agronegócio ainda em estágio inicial.

"[A saída] reforça para o venture capital, para quem acredita no agro, para quem acredita nas startups que estão trabalhando no agro, que é possível ter grandes retornos, grandes operações, apostando em ideias iniciais, fazendo esse ciclo junto", diz Borges, em entrevista ao AgFeed.

A chegada da Minerva ao grupo de investidores, segundo Borges, segue a lógica que a companhia adotou desde as primeiras rodadas: combinar investidores financeiros com empresas estratégicas do agronegócio.

“Sempre tivemos um cap table, um grupo de investidores muito peculiar, muito único no mundo, de combinar esse venture capital e combinar os estratégicos”, afirma.

A Minerva é a primeira empresa da pecuária a investir na Grão Direto, trazendo uma perspectiva diferente das empresas de insumos, tradings, bancos e demais companhias da cadeia do agro que já fazem parte da base de acionistas. “E, ao mesmo tempo, o setor de proteína animal é o fim do elo da cadeia, pois demanda e consome derivados de grãos ou o próprio grão, no caso do milho.”

Para a Grão Direto, isso abre também possibilidades de adaptação de soluções desenvolvidas originalmente para a comercialização de commodities agrícolas a processos relacionados à cadeia de proteína animal e os diferentes elos da cadeia que demandam grãos e derivados.

“Muitos dos aprendizados que a gente tem, que a gente construiu em grãos, eventualmente podem ser traduzidos, adaptados e entendidos como eles podem funcionar no mercado de proteína animal”, diz Borges.

A Grão Direto avalia ainda que a própria operação de pecuária da Minerva pode se beneficiar das soluções digitais da Grão Direto, uma vez, que segundo a empresa, boa parte dos aprendizados na digitalização da comercialização de grãos pode ser adaptada à comercialização de gado.

A hipótese de estender a lógica da plataforma a esse mercado é uma oportunidade real que está em avaliação conjunta, porém sem cronograma fechado. Por ora, segundo Alexandre Borges, as primeiras possibilidades de interação entre Minerva e Grão Direto devem estar concentradas em áreas como back-office, otimização de equipes comerciais e automação de processos. "Há muita similaridade do que está acontecendo, desses fluxos de negócios”, diz.

Pedro Sampaio, gerente de Planejamento Estratégico e Corporate Venture Capital da Minerva Foods, afirmou, em nota, que a companhia busca, por meio de sua área de CVC, estar próxima de empresas que estão inovando no agronegócio, especialmente aquelas com histórico de colaboração com grandes corporações.

“Acreditamos que existe muito espaço para inovação em nosso mercado e queremos estar na fronteira deste movimento nos negócios em que atuamos, além de darmos nossa contribuição às startups com nosso valor estratégico e aprendizados”, afirmou.

Sem novas rodadas – por enquanto

A entrada da Minerva ocorre em um momento em que a Grão Direto afirma estar com uma posição de caixa confortável, segundo Borges. A agtech realizou uma rodada de investimentos no ano passado, que somou R$ 90 milhões.

O cheque foi liderado pelo Kaszek, maior fundo de investimento da América Latina, e contou com a entrada de novos investidores como o Bradesco, por meio de sua área de venture capital, a SLC Ventures e o CME Ventures (que opera na Bolsa de Chicago) e a Endeavor Scale-Up Ventures.

A Grão Direto havia passado por outras rodadas anteriores. A primeira captação, de R$ 2,3 milhões, foi liderada pela Monsanto, que hoje faz parte da Bayer, e contou com o fundo Canary e os criadores do OpenVC.

Depois, a companhia levantou mais R$ 13 milhões em 2021, numa rodada que contou com a Barn e outros fundos, e R$ 40 milhões em 2022, com Amaggi, ADM, Cargill e LDC.

Por ora, a Grão Direto não trabalha com uma data definida para uma nova captação, segundo Borges – ainda que continue conversando com potenciais investidores e parceiros estratégicos.

“O trabalho de fundador de CEO de startup é fundraising 24 por 7. Você está sempre conversando, está sempre interagindo com novos parceiros potenciais”, afirma.

A diferença, segundo ele, é que a Grão Direto atualmente tem mais liberdade para escolher quando abrir uma nova rodada, quais investidores pretende trazer e em quais condições.

“A gente nunca teve um investidor que a gente conheceu e muito rapidamente a gente trouxe, porque acho que é um processo de você conhecer, de você ir amadurecendo. A própria Minerva a gente conhece há bastante tempo, a gente já conversa com eles e as relações vão amadurecendo”, explica Borges.

O executivo estima que uma nova rodada possa acontecer nos próximos 18 meses, mas ainda sem um calendário definido.

“Se a gente projetar nos próximos 18 meses, é possível que a gente tenha algo, mas acho que com muita tranquilidade para poder escolher o melhor momento, com quem e em que termos”, afirma.

A expectativa é de que uma eventual nova captação sirva, principalmente, para alavancar operações envolvendo serviços financeiros e o uso de inteligência artificial, diz Borges.

Do ponto de vista operacional, o momento também é positivo para a Grão Direto. No ano passado, a agfintech movimentou 12 milhões de toneladas de grãos em sua plataforma.

“Neste ano, a gente praticamente deve dobrar em relação ao ano passado. E acho que com números muito animadores, tanto em termos de volume, receita, operações", ressalta o CEO da Grão Direto.

O crescimento ocorre em paralelo à ampliação das categorias e dos serviços disponíveis na plataforma.

Em julho, a empresa anunciou uma parceria com a StoneX para iniciar a comercialização digital de café e algodão em uma plataforma chamada “Clicou, Fechou!”.

As novas operações ainda estão em fase de desenvolvimento, validação e calibração dos times e devem entrar em operação até o fim deste ano, segundo Borges.

No início deste ano, a Grão Direto lançou a funcionalidade Mercado 24 Horas, que permite negociar produtos já disponíveis na plataforma fora do horário tradicional de funcionamento dos mercados de referência, como a Bolsa de Chicago.

Para validar a funcionalidade, a empresa executou um projeto piloto com a ADM do Brasil, no qual movimentou, durante três meses, 55 mil toneladas de soja e milho que foram negociadas fora do horário convencional de comercialização, como à noite e nas primeiras horas da manhã, fora do pregão tradicional das bolsas internacionais.

Foram mais de 100 negócios fechados nesses horários, volume suficiente para encher um navio inteiro de grãos.

A empresa também vem ampliando os serviços financeiros, incluindo soluções de antecipação de recebíveis, e expandindo as operações de barter, que passou a oferecer aos clientes desde o fim de 2024.

“Você vai ampliando a sua proposta de valor, o valor que você entrega para a cadeia”, afirma.

O avanço do AIrton

A outra frente de expansão da Grão Direto está na inteligência artificial. Há quase um ano, a startup lançou o AIrton, um assistente de IA acoplado ao WhatsApp, que envia em tempo real informações sobre preços atualizados, análises de mercado, notícias, cotações, clima, alertas sobre flutuações relevantes em relação ao preço-alvo do produtor.

Das 12 milhões de toneladas negociadas pela Grão Direto no ano passado, 2 milhões de toneladas passaram pelo AIrton de alguma forma.

“Já há efeito na prática. Você sai daquela AI que é muito promissora, de que ela potencialmente poderia ser boa, para fazer diferença no dia a dia”, diz Borges.

Hoje a ferramenta já é utilizada tanto por produtores, mas também por times comerciais de empresas clientes da Grão Direto – mensagens que antes eram enderaçadas aos profissionais como pedidos de preço, dúvidas sobre pagamento, chegada e saída de pagamentos e outros acompanhamentos burocráticos, agora podem ser respondidos pela ferramenta.

Por trás disso, há uma estratégia clara, segundo Borges: integrar a tecnologia aos processos do ambiente corporativo, em vez de tratá-la apenas como uma nova funcionalidade do produto.

“A gente está trabalhando muito um conceito que se chama human in the loop, o humano dentro do processo, para você dar esse superpoder para o ser humano, que continua essencial na relação”, diz.

Nesse contexto, o uso da IA já requer que as empresas tenham digitalizado seus processos Com informações e interações estruturadas digitalmente, a companhia consegue aplicar ferramentas de inteligência artificial sobre uma base de dados maior e mais organizada.

“Não adianta você querer falar de inteligência artificial se os seus processos são analógicos, porque você não consegue extrair o valor da inteligência artificial se as suas conversas estão lá no WhatsApp desconectado de nada, por exemplo”, afirma.

Borges cita uma conversa recente com um cliente para ilustrar como enxerga a evolução da tecnologia. “Outro dia um cliente disse que foi a um evento de IA. E a gente começou a conversar: o quanto não é estranho se a gente dissesse que está indo a um evento de internet?”, conta.

O executivo avalia que, assim como a internet deixou de ser uma tecnologia isolada para se tornar parte dos processos cotidianos, a inteligência artificial deve seguir o mesmo caminho.

“Muito em breve, você falar que foi a um evento de IA vai ser um negócio que não faz sentido, porque ela está presente em todos esses campos. Ela está presente em tudo o que a gente está fazendo.”

Resumo

  • Minerva Foods compra participação de fundo na Grão Direto e se torna a primeira empresa de proteína animal no cap table da agfintech
  • Startup movimentou 12 milhões de toneladas em 2025 e projeta praticamente dobrar o volume negociado neste ano
  • Empresa avalia nova rodada de investimentos em até 18 meses, com foco em serviços financeiros e inteligência artificial