A Kepler Weber está mais preparada para atravessar o atual ciclo de vacas magras do que esteve em qualquer outra crise agrícola das últimas décadas.

Essa é a principal leitura do Itaú BBA em um relatório sobre a companhia centenária de soluções de pós-colheita, enviado aos seus clientes na quinta-feira, 17 de setembro.

O documento derivou da participação dos analistas do banco no evento "Portas Abertas", da Kepler Weber, realizado em uma das unidades da companhia em Campo Grande (MS).

Apesar da visão mais positiva, o Itaú BBA informa no relatório que fez um corte expressivo no preço-alvo da ação, de R$ 15,50 para R$ 10,00. Ainda assim, no entanto, manteve a recomendação de compra (Outperform) para o papel.

O banco usa como referência a cotação média da ação em setembro, de R$ 6,58, o que implica um potencial de valorização de aproximadamente 52% em relação ao novo preço-alvo.

Segundo o relatório, o corte reflete o reconhecimento de que o momento do setor segue desafiador e que a recuperação da demanda por silos e armazéns deve demorar mais do que se esperava.

A tese central do Itaú BBA é a de que o déficit estrutural de armazenagem de grãos no Brasil — um desequilíbrio histórico que só se agravou com a expansão da produção do Cerrado e das fronteiras agrícolas — segue intacto como motor de longo prazo para a Kepler.

O problema, diz o banco, é o timing. Com margens apertadas e elevada alavancagem, os produtores rurais têm priorizado gastos com insumos e equipamentos, adiando investimentos em armazenagem, irrigação e logística para quando as condições operacionais melhorarem.

"A demanda do setor deve se recuperar com defasagem, mesmo com os preços das commodities agrícolas começando a melhorar", resume o relatório, indicando que a confiança para investir em ativos de longo prazo pode não voltar enquanto o custo do dinheiro continuar alto e o balanço do produtor, apertado.

Na visão dos analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e e Ryu Matsuyana, do time agro do Itaú BBA, os números mais recentes da Kepler mostram uma empresa que não está imune ao ciclo, mas que aprendeu a sofrer menos.

No segundo trimestre de 2026, a receita líquida somou R$ 299,1 milhões, queda de 3,9% sobre o mesmo período do ano anterior. O lucro líquido encolheu 56,1%, para R$ 6,3 milhões.

A queda precisa ser lida à luz do contexto: em ciclos agrícolas passados, quedas dessa magnitude costumavam ser muito piores.

O que mudou, segundo a análise, foi a diversificação. No primeiro trimestre, enquanto o segmento de Fazendas, mais exposto ao humor do produtor, registrou queda de 34% na receita, os Negócios Internacionais cresceram quase 50% e o segmento Agroindústrias avançou 4,2%.

A empresa também passou a ter maior presença em portos e terminais, um mercado que ajuda a compensar a volatilidade do produtor individual.

A gestão, liderada pelo CEO, Bernardo Nogueira, e pelo CFO, Renato Arroyo, tem mantido disciplina de custos e reorganização interna. O resultado é que a companhia acredita estar "mais resiliente hoje devido ao seu modelo de negócios mais diversificado, que ajudou a mitigar o impacto da atual desaceleração em comparação com ciclos agrícolas anteriores", conforme registra o relatório.

Um dos pontos mais relevantes da visita do Itaú BBA foi a avaliação do braço de automação da Kepler, a Procer. Com investimentos crescentes em P&D — que já fazem com que 19% da receita consolidada venha de produtos recém-lançados —, a empresa vem construindo um portfólio que vai muito além dos silos de chapas metálicas.

A Procer oferece desde sistemas avançados de monitoramento de armazéns até robôs operacionais autônomos que reduzem a necessidade de mão de obra, diminuem custos operacionais e melhoram a segurança no trabalho.

A visão de longo prazo da administração da Kepler é de uma unidade de armazenagem totalmente autônoma. O banco, por sua vez, vê "potencial significativo para a Procer desenvolver novas soluções, expandir a adoção e desbloquear valor adicional de longo prazo".

Resumo

  • Itaú BBA reduz o preço-alvo da Kepler Weber, mas mantém recomendação de compra diante da resiliência da companhia
  • Recuperação da demanda por armazenagem pode demorar, enquanto produtores adiam investimentos devido ao cenário de custos e alavancagem
  • Diversificação dos negócios e avanço da Procer em automação ajudam a Kepler a enfrentar o ciclo de baixa do agronegócio