Em novembro de 2025, quando JBS e Grupo Viva anunciaram a intenção de unir seus ativos de couro, o mercado passou a acompanhar a formação de uma companhia sem paralelo no setor.

Dez meses depois, na terça-feira, 15 de setembro, os dois grupos assinaram na Holanda o acordo que criou a JBS Viva — uma joint venture dividida em partes iguais, com 31 fábricas em seis países, capacidade para processar mais de 20 milhões de couros por ano e cerca de 11 mil empregados.

A operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mas para entender como um negócio desse porte nasceu, é preciso voltar sete décadas, a duas cidades do Sul do Brasil e a duas famílias que construíram, separadamente, com as marcas Viposa e Vancouros (depois reunidas no Viva), boa parte da indústria brasileira de couros.

A história da Viposa é a mais antiga e começa em agosto de 1954, em Caçador, no Oeste de Santa Catarina, numa indústria que tinha a manipulação de couros como atividade principal. Fundado originalmente como Indústrias Berger, o pequeno curtume, após a divisão de um patrimônio familiar, em 1974, acabou nas mãos de Elias Seleme Neto, que prosperava com o negócio de madeiras na região.

A empresa tinha então cerca de 300 funcionários e atravessava dificuldades financeiras. Como forma de homenagear um antigo sócio, Seleme rebatizou o negócio com um anagrama de "Vitório Poleto S/A" — e assim nasceu o nome Viposa.

Seleme Neto se tornaria um dos nomes de referência do empresariado catarinense. Ele morreu em fevereiro de 2023, em Caçador, cidade que adotara 76 anos antes, poucos meses antes de a fusão com a Vancouros, que mudaria o patamar da empresa.

Hoje, as empresas ligadas à sua família, que atuam em couro, calçados, madeira, pecuária, reflorestamento e construção civil, geram em torno de 1,5 mil empregos diretos em Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e Rondônia.

Ao longo de décadas, a Viposa se firmou como exportadora. A companhia exporta há mais de 30 anos, atende Europa, Ásia e as Américas e, mais recentemente, passou a destinar sete de cada dez unidades produzidas ao mercado externo. Foi essa vocação exportadora que a levou às cadeias de fornecimento mais exigentes do mundo.

Do outro lado, a trajetória da Vancouros é mais recente e tem berço em Rolândia, no norte do Paraná, onde foi fundada em 1990, inicialmente com a produção de couro bovino wet blue.

A empresa, especializada em couro curtido e semiacabado, se apresenta hoje como uma das principais indústrias de manufatura de pele bovina do País e atende as indústrias automotiva, moveleira, calçadista e de vestuário.

Com mais de três décadas de operação, é comandada por Edson Vanzella Pereira de Souza, à frente da família Vanzella, que deu nome, inclusive, a uma das holdings acionistas da Viva, a Vanz Holding.

O cruzamento das estradas

O que aproximou as duas companhias não foi um plano de fusão, mas uma coincidência geográfica de investimentos. "As estradas das nossas empresas eram paralelas e se cruzaram no ano de 2001, quando nós montamos uma planta em Sinop, no Mato Grosso", contou Vanzella ao portal Globo Rural, em 2023.

A partir dali, os dois grupos passaram a investir juntos. Ao longo de duas décadas, essas parcerias se materializaram em seis joint ventures — entre elas duas indústrias químicas, criadas para atender as próprias operações com couro, e, mais recentemente, uma fábrica de gelatinas.

Foram cinco anos de negociações até que, em setembro de 2023, Viposa e Vancouros protocolassem no Cade o pedido de fusão de suas operações, dando origem à Viva S/A.

A empresa nasceu com faturamento de R$ 3,1 bilhões e capacidade de processamento de 7 milhões de unidades de couro ao ano, consolidando-se como uma das maiores indústrias do segmento no País. O nome, segundo Vanzella, era uma síntese óbvia das duas marcas: "O nome Viva vem de Viposa e de Vancouros."

Para o executivo, a fusão representava mais do que escala operacional. "A gente muda de patamar e passa a ter uma capacidade maior de financiabilidade e de bancabilidade", afirmou.

A meta anunciada na época da fusão era ambiciosa: dobrar o faturamento nos primeiros quatro anos de operação, com a abertura de mais uma planta de processamento de couro e a internacionalização das operações, por meio de filiais na América Latina e na América do Norte, movimentos previstos para ocorrer até 2028.

O contexto, porém, não era favorável. O preço médio do couro no Rio Grande do Sul chegou a passar de R$ 4,47 o quilo em outubro de 2021, mas o quadro inflacionário global freou a retomada esperada e o setor, como um todo, entrou em compasso de espera.

Segundo números do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) citados na época, o País contava com 214 unidades produtivas ativas no setor de couro em 2020, ante 240 em 2018 — um retrato da retração de um mercado historicamente fragmentado.

Couro de luxo e mercado automotivo

Enquanto a estrutura societária mudava, as empresas que formaram o Grupo Viva buscavam alternativas. A operação industrial da Viposa, por exemplo, seguia avançando nos segmentos de maior valor agregado.

A companhia construiu reputação no fornecimento para a indústria automotiva — um dos usos mais sofisticados do couro — e hoje tem cerca de seis clientes estratégicos nesse mercado, entre montadoras premium alemãs e norte-americanas.

Mais recentemente, uma gigante chinesa de veículos elétricos e híbridos passou a integrar a carteira, abrindo um enorme mercado potencial. Segundo Eduardo Seleme, a China produz aproximadamente 31 milhões de veículos por ano, contra cerca de 2,3 milhões no Brasil.

A área de pesquisa e desenvolvimento criou 14 novos artigos — entre couros semiacabados, acabados e produtos para calçados —, e o couro semiacabado permite ajustar tonalidade, resistência e maciez conforme a especificação de cada cliente. Além do automotivo, a empresa fornece para marcas globais de moda e luxo, com produtos em vitrines de Paris, Milão e Nova York.

Do lado da Vancouros, a diversificação caminhava em outra direção. Em 2019, a família Vanzella investiu na Gelprime, fábrica de gelatinas instalada em Ibiporã (PR). A unidade passou a produzir 8 mil toneladas de gelatina ao ano, com previsão de triplicar a operação até 2028, transformando a pele animal não só em revestimento, mas em proteína.

"Era uma possibilidade que existia e que estava sendo usada por grandes players no mercado, mas nunca pela indústria de couro", disse Vanzella na época da fusão.

Segundo ele, o Grupo Viva seria a primeira indústria exclusivamente de couro do mundo a aproveitar a pele animal para a produção de gelatina — algo até então restrito a frigoríficos.

O negócio ganhou um novo capítulo em maio passado, quando atraiu outro gigante do mundo das proteínas. A MBRF anunciou um investimento de R$ 500 milhões na Gelprime, com o objetivo de erguer a maior fábrica de colágeno do mundo.

O plano prevê ampliar a linha de colágeno hidrolisado, com entrada em operação prevista para 2027, e atingir cerca de 30 mil toneladas de capacidade de produção até 2030.

A joint venture com a JBS

O movimento que levou as duas famílias ao topo global começou a ser desenhado em novembro de 2025, com a assinatura de um memorando de entendimento vinculante entre a JBS e o Grupo Viva. A negociação se estendeu por quase um ano e envolveu um ponto sensível: decidir o que ficaria de fora.

O acordo, assinado esta semana, prevê a formação da JBS Viva, com controle dividido igualmente, 50% para cada sócio. A JBS S.A. transferirá toda a sua divisão brasileira de couros para o novo negócio, enquanto a Viva Holding consolidará o controle da Viva S.A. antes do fechamento da transação.

A governança será compartilhada: o conselho de administração terá seis membros, com a JBS indicando o presidente do conselho e o diretor financeiro, e a Viva nomeando o CEO. Como intervenientes anuentes e garantidoras da operação figuram a Vanz Holding Ltda. e a Viposa Participações Ltda., as duas holdings que representam as famílias acionistas.

Ficaram deliberadamente fora do negócio as atividades de colágeno e gelatina — ou seja, o braço de proteína que o grupo vinha desenvolvendo e que já tem parceria com a MBRF continuará sob controle separado.

Também foram excluídas a unidade de Cactus, no Texas (EUA), e os ativos da JBS na Alemanha, no Uruguai e no México. A leitura do mercado é que a JBS pretende concentrar a nova empresa em polos de grande escala, mantendo sob controle direto os negócios de menor sinergia.

Na prática, o desenho operacional é complementar: a JBS fornecerá couro cru à JBS Viva e comprará as aparas e as raspas geradas no processamento dessas peças, destinando-as à sua indústria de gelatina e colágeno.

A criação da JBS Viva acelera a consolidação de um mercado que sempre foi pulverizado. O setor de couro bovino é historicamente sensível a dois vetores — as variações de preço da pecuária e o humor das indústrias calçadista e automotiva —, e a fragmentação sempre dificultou a formação de preços e a previsibilidade de escoamento.

Com escala global, a nova companhia tende a reduzir parte dessa volatilidade e a agregar valor aos subprodutos do abate, com efeitos diretos para os pecuaristas.

Há também um componente de acesso a mercados. Como a rastreabilidade se tornou exigência concreta de compradores europeus, norte-americanos e asiáticos, uma companhia com 31 fábricas em seis países passa a ter mais musculatura para atender às exigências sanitárias e ambientais de clientes premium, algo que a Viposa já vinha fazendo individualmente, com certificações ambientais e quase 70% da produção exportada.

Assim, dois curtumes familiares, um de 1954 e outro de 1990, que se cruzaram por acaso em Sinop em 2001, agora formam a maior processadora de couro do planeta. Falta apenas o aval do Cade e, até lá, o setor observa o que pode ser o movimento mais transformador de sua história recente.

Resumo

  • JBS e Grupo Viva assinam acordo para criar uma das maiores operações globais de processamento de couro
  • A nova JBS Viva terá controle dividido entre os dois grupos e reunirá ativos em seis países
  • Negócio consolida a trajetória de duas famílias do setor e ainda depende da aprovação do Cade