O debate sobre sustentabilidade no agro brasileiro passou a ser cada vez mais associado a conceitos como rastreabilidade, compliance ambiental e cadeias produtivas livres de desmatamento. Pressões regulatórias internacionais e compromissos assumidos pelas empresas ampliaram significativamente o nível de exigência sobre a produção agrícola.
No entanto, existe um aspecto fundamental nesse debate que ainda é pouco discutido: a capacidade de implementação dessas exigências no campo.
Em um país com mais de cinco milhões de estabelecimentos agropecuários, a adoção de boas práticas de produção e o cumprimento da legislação ambiental são desafios que podem ser enfrentados com o acesso à assistência técnica, com orientações e suporte especializado aos produtores rurais.
Dados do Censo Agropecuário do IBGE mostram, entretanto, que apenas 19,9% dos produtores rurais brasileiros recebem algum tipo de assistência técnica. Ou seja, somente 1 em cada 5 produtores conta com este tipo de apoio.
Além da baixa cobertura, o acesso é profundamente desigual. Enquanto a região Sul alcança cerca de 48,6% dos estabelecimentos com assistência técnica, no Nordeste esse número cai para apenas 7,4% , o que demonstra que a assistência técnica no Brasil não apenas é limitada, mas estruturalmente deficiente.
Historicamente, o país construiu uma rede importante de apoio no campo, com destaque para instituições como a Emater. Ao longo das últimas décadas, no entanto, essa estrutura perdeu escala e alcance, abrindo espaço para um cenário em que milhões de produtores trabalham com suporte técnico insuficiente ou inexistente.
As consequências dessa falta de apoio são amplas. A assistência técnica não serve apenas para aumentar a produtividade, mas também orientar no uso correto e eficiente de insumos, melhorar a gestão da propriedade e garantir o cumprimento da legislação ambiental.
Os próprios dados mostram de forma clara que apenas uma parcela dos produtores que utilizam insumos como defensivos agrícolas recebe orientação técnica adequada sobre seu uso, o que evidencia o risco de desperdício e de impactos ao meio ambiente. Em outras palavras, sem assistência técnica, boa parte das exigências que hoje orientam o debate sobre sustentabilidade no agro simplesmente não sai do papel.
Esse ponto se torna ainda mais relevante no contexto atual, em que a governança ambiental na produção agrícola está cada vez mais dependente de sistemas de monitoramento, rastreabilidade e compromissos corporativos.
O setor privado tem avançado significativamente na criação de ferramentas para acompanhar fornecedores e garantir a conformidade de suas cadeias. No entanto, esses sistemas dependem de algo fundamental: a capacidade do produtor rural de implementar, no seu dia a dia, os requisitos exigidos e fazer as adequações necessárias para garantir o cumprimento da legislação.
A efetividade da sustentabilidade no agro não se mede apenas pelos compromissos assumidos, mas pela capacidade de implementá-los no campo. Esse é um ponto frequentemente esquecido no debate público. A evolução dos sistemas de controle e o aumento de dados ambientais são avanços importantes, mas não substituem a necessidade de apoio técnico junto ao produtor.
Nesse contexto, a assistência técnica também passa por uma transformação. Mais do que o modelo tradicional focado apenas em aspectos produtivos, ganha espaço uma atuação integrada, que combina gestão, tecnologia, sustentabilidade e respeito às normas socioambientais.
Esse novo modelo atende às demandas atuais das cadeias produtivas, conectando o produtor a mercados cada vez mais exigentes e a sistemas de gestão mais sofisticados de governança.
É nesse cenário que surgem oportunidades para iniciativas voltadas à construção de modelos mais estruturados de assistência técnica, capazes de integrar produtividade, gestão e sustentabilidade. O Agro Plus, por exemplo, se insere nessa dinâmica como uma proposta de atuação que busca apoiar produtores na adoção de boas práticas, no aprimoramento da gestão da propriedade e na adequação a requisitos socioambientais cada vez mais exigidos pelo mercado.
Trata-se de um programa gratuito ao produtor rural, presente em 14 estados e alcançando mais de 6 milhões de hectares, que oferece orientação técnica e capacitação para evoluir continuamente os indicadores econômicos e socioambientais das propriedades.
No fim, o avanço da sustentabilidade no agro não dependerá apenas de sistemas mais sofisticados de monitoramento, de regras mais rígidas ou de metas corporativas ambiciosas. Dependerá, sobretudo, da capacidade de levar conhecimento, ferramentas e suporte técnico ao produtor rural.
Em um país onde a maioria dos produtores ainda está fora do alcance da assistência técnica, o desafio central não é apenas elevar padrões, mas garantir que eles possam, de fato, ser aplicados no campo.
Pedro Garcia é gerente de sustentabilidade da Abiove.
Douglas Chahine é gerente operacional do Agro Plus.