Empresário experiente, Frederico Ribeiro Krakauer, aos 51 anos, não esconde o orgulho com sua mais recente conquista: um contrato exclusivo de distribuição global das máquinas da CMAK, empresa da qual é sócio, com a gigante americana John Deere, fechado no final de agosto passado.
“Não é usual uma empresa como a John Deere vender máquina com outra marca”, diz ele, em conversa com o AgFeed.
Pouca coisa é usual, de fato, na trajetória desse paulista com raízes em Nova Mutum, no coração produtivo do Mato Grosso, e negócios que cruzam as fronteiras do País.
Em 1994, com apenas 19 anos, ele assumiu o comando de um grupo familiar que reunia operações agrícolas, em áreas que chegaram a superar 200 mil hectares, e empreendimentos urbanísticos como a Riviera de São Lourenço, valorizado refúgio da classe média alta no litoral norte de São Paulo.
Krakauer herdou a cadeira e a ousadia do avô materno, José Aparecido Ribeiro, personagem emblemático do desbravamento do Mato Grosso e sua transformação no estado líder na produção agropecuária brasileira – Nova Mutum, por exemplo, surgiu de uma colonização erguida por ele em uma de suas fazendas.
Desde então, através de uma holding pessoal, a Ardua, ele vem fazendo apostas nem sempre convencionais, com investimentos (com recursos e provocações) em start-ups cuja proposta seja, como diz, “fazer algo que ninguém mais esteja fazendo”.
É essa explicação que o empresário dá para ter conseguido despertar o interesse da John Deere na CMAK, uma fabricante de equipamentos para o manejo de florestas plantadas, que ele criou ao lado do engenheiro Julio Waszak, um especialista em automação industrial que, até poucos anos atrás, pouco conhecia do universo agro.
E que agora, após o acordo com a gigante americana, ganha um impulso e um desafio. “A hora que você põe uma John Deere no jogo, mudou o jogo”, comemora. “Iniciamos uma nova fase, com enorme potencial de crescimento, inclusive sendo abordados por investidores”, afirma Krakauer.
A CMAK nasceu de um atalho inesperado. Fred, como costuma ser chamado, se interessou por um projeto de bioplástico biodegradável à base de batata-doce — depois mandioca —, com o amido como matriz. O empreendimento atendia uma de suas exigências, ter “um pé no agro”, mas ainda não atendia a uma segunda condição.
“Se não tiver mecanização, eu não me envolvo”, afirmou ele aos empreendedores que lhe apresentaram o negócio. Foi aí que entrou Julio Waszak, engenheiro especialista em máquinas industriais especiais, com passagem por empresas alemãs e até um projeto para a produção de Havaianas.
Fred pediu a ele que desenvolvesse um equipamento capaz de automatizar etapas do cultivo do insumo. Em pouco tempo, depois de estudar a cultura, Waszak trouxe uma solução. “Ele é o filho das máquinas. Eu sou o filho da terra”, define ele sobre a parceria com Waszak.
O projeto acabou não avançando como planejado, interrompido pelo falecimento de um dos sócios durante a epidemia de Covid. Mas um protótipo já estava pronto e ambos compartilhavam o desejo de dar um novo passo.
Os empreendedores miraram, então, outro mercado muito maior e que enfrentava a mesma carência por soluções de mecanização: a silvicultura. Waszak voltou para a prancheta e desenhou uma plantadora automatizada.
Um amigo o levou à Suzano, a quem Fred chama de “madrinha”. A gigante da celulose, que administra 1,6 milhão de hectares de florestas plantadas e planta mais de 300 milhões de mudas de eucalipto por ano, viu o conceito e respondeu com uma provocação.
Segundo Fred, o time da companhia disse que a máquina, por seu porte, “não ia andar” nas áreas florestais. Em apenas 30 dias, porém, o engenheiro voltou com uma nova versão. “Ele cortou o equipamento ao meio”, lembra Fred.
Da conversa nasceu a CMAK Agro, fabricante de plantadoras florestais e irrigadores de mudas, e um primeiro contrato para a mecanização das operações nas florestas da Suzano, assinado há cerca de dois anos.
O acordo previa uma opção para um futuro aporte da indústria de celulose na agtech, através do seu braço de investimentos. Mudanças na gestão da Suzano Ventures acabaram fazendo com que essa opção acabasse vencendo sem ter sido exercida.
Nesse meio tempo, a CMAK já havia instalado fábricas em São Leopoldo e Novo Hamburgo (RS), hoje com capacidade de produzir em torno de 20 máquinas por mês.
O portfólio inclui plantadoras, adubadoras, irrigadora e o que Fred destaca como o primeiro trator florestal customizado do Brasil. “Não tem ninguém no Brasil que faz trator florestal. Somos o primeiro”, diz, reformando que o DNA da empresa é a provocação permanente. “A gente não faz nada que tiver no mercado. Tudo que já tiver, a gente não faz.”
A relação com a Suzano jogou luzes sobre a jovem companhia, abrindo novas portas para potenciais parcerias. A que mais avançou foi com a japonesa Komatsu, uma das maiores fabricantes do segmento de máquinas para a área florestal.
Fred conta que as conversas começaram com tom de ceticismo, já que os japoneses não tinham a cultura do venture capital. Iniciadas no Brasil, as tratativas escalaram à matriz do grupo e um memorando de entendimento chegou a ser rascunhado.
O ritmo das negociações, entretanto, era lento para a velocidade do avanço da CMAK. Enquanto isso, em uma feira do setor no final do ano passado, Waszak apresentou seus projetos a executivos da John Deere.
Então, as coisas passaram a evoluir. A conversa foi direta, sem a participação de consultorias especializadas nessa área, e rapidamente levou ao desenho de acordo de comercialização que Fred descreve como “inédito no mundo”.
Com tecnologias proprietárias e agilidade na inovação, a CMAK é comparada pelo empresário a uma “Tesla agroflorestal”. A expectativa dele agora é escalar a produção com a chegada de novos recursos.
No projeto de expansão, além das fábricas gaúchas, a CMAK já tem no radar a possibilidade futura de uma planta na ZPE de Bataguaçu (MS), primeira zona franca privada do País, e outra em Portugal, voltada para o mercado europeu.
A localização no Centro-Oeste seria estratégica. Além de estar no coração do chamado Vale da Celulose – a região sul-mato-grossense concentra alguns dos maiores projetos industriais do setor no mundo – a planta teria incentivos fiscais para exportação.
Somente no Brasil, com mais de 10 milhões de hectares de florestas plantadas apenas pela indústria de celulose, além da demanda crescente por biomassa para as usinas de etanol de milho, a empresa estima um mercado potencial de US$ 450 milhões. Globalmente, os valores chegariam a US$ 1,5 bilhão por ano.
“Estamos com essa missão agora”, resume, repetindo o lema que usa com os sócios. “Vamos na missão.”
O avô que desbravou o Cerrado
O estilo arrojado de Frederico Krakauer é herança do avô, transmitida ao longo de uma intensa relação na adolescência do empresário. José Aparecido Ribeiro chegou a Mato Grosso em 1965, atraído pelos incentivos fiscais da Sudam e da Sudene, em um tempo em que a região viva “um desbravamento do zero, com pouquíssimo apoio e muita solidão”, segundo diz Fred.
O patriarca tinha uma visão para aquela área ainda inexplorada. Em 1974, depois de receber um pesquisador da FAO, Ribeiro previu que ali seria “o celeiro do mundo”. E, enquanto outros usavam “a pata do boi” para abrir caminho, ele montou um campo experimental de soja, milho e algodão na sua Fazenda Mutum, usando sementes do IAC de Campinas.
O avô de Fred sabia, entretanto, que desbravar aquele território exigia mais que ações individuais. Por isso, foi cofundador e presidente da Associação dos Empresários da Amazônia, entidade que reunia o empresariado paulista com interesses na Amazônia Legal — e que, segundo o neto, tinha uma articulação fortíssima.
“Todo mundo usava ele de case, porque foi sério. Destinou o recurso para o que tinha que ser destinado”, conta, contrastando o avô com os muitos projetos da época que desviavam os incentivos para São Paulo.
A evolução do projeto seguiu uma lógica própria. Começou pecuário, virou agropecuário e, em 1978, chegou à colonização, com o embrião da cidade de Nova Mutum, planejada com um masterplan de desenvolvimento de 30 a 50 anos.
Em 1986, o avô já falava, em uma entrevista à TV Bandeirantes cuja gravação Fred faz questão de mostrar sempre que possível, sobre o potencial do Arco Norte e do deslocamento do polo de grãos para o Planalto Central. “Tudo que está acontecendo hoje, com a saída pelo Arco Norte, ele já dizia ali 40 anos atrás”, observa Fred.
Pioneiro também no plantio de seringueiras e no uso de técnicas de inseminação artificial no Mato Grosso, José Aparecido Ribeiro morreu em dezembro de 1994, deixando um legado para a região e terras que a família mantém até hoje.
Fred assumiu, então, a gestão das propriedades com apenas 19 anos, em meio ao lançamento do Plano Real. “Caiu no meu colo”, afirma. Aos desafios de tocar milhares de hectares somaram-se o ceticismo da própria família — “falavam que não vai dar certo, vai quebrar tudo” — e até uma rixa herdada: um prefeito local que brigara com o avô ameaçava desapropriar a fazenda inteira.
Fred conta que, para encerrar a contenda, pegou um avião, marcou uma reunião e inverteu a relação. “A briga era com meu avô. Agora comigo nós vamos juntar força aqui e vamos fazer essa cidade crescer", disse ao dirigente.
A aproximação rendeu frutos, como a abertura de um frigorífico de frango. que mais tarde se tornaria parte da BRF, movimento que Fred ajudou a atrair para industrializar Nova Mutum.
Na fazenda, o jovem repetiu o ímpeto do avô com novas tecnologias. Transformou a pecuária extensiva em pecuária tecnificada e intensificada, recuperou pastagens degradadas e migrou para a agricultura. Chegou a plantar 44 mil hectares de soja, milho e algodão, montando armazém e algodoeira. “Quem planta algodão é respeitado”, brinca.
O avô, após uma quebra de safra em 1986, jurara nunca mais mexer com agricultura. O neto provou o contrário. Essa vivência do campo, somada à formação em São Paulo — o pai, engenheiro eletricista, montou os primeiros computadores da IBM no Brasil —, deu a ele o que chama de “mix único” de conhecimento do negócio rural com o network junto aos mercados urbanos e de capital.
“Eu cresci nesse ambiente, minhas férias todas era em Mato Grosso, fui beber no meio da floresta com os peões vaqueiros”, lembra. “Eu brinco que eu olho todos os negócios de drone”, diz, explicando a visão de enxergar as coisas de cima, integrando oportunidades e sinergias.
Após a divisão dos negócios entre outros herdeiros de Ribeiro, Fred hoje mantém sob seu controle cerca de 18 mil hectares na região. Ele já não atua diretamente na operação.
A área está em grande parte arrendada, com uma fração com vocação cada vez mais voltada à expansão imobiliária da cidade de Nova Mutum. Lá, ele atua com a empresa JAR, batizada com as iniciais do avô. "Ele não olhava para o lado econômico financeiro, mas para o lado de deixar um legado", resume.
De Nova Mutum, a cidade que o avô ajudou a fundar e que atualmente tem um hospital com o nome da avó, onde se faz até neurocirurgia e cirurgias cardíacas, ao acordo inédito com a maior fabricante de máquinas agrícolas do planeta, a missão, como ele gosta de dizer, continua.
Resumo
- CMAK fecha contrato exclusivo com a John Deere para distribuir globalmente suas máquinas voltadas à silvicultura
- Fabricante brasileira nasceu de parceria entre experiência no agro e engenharia de máquinas e já atende grandes empresas do setor florestal
- Com o acordo, CMAK planeja ampliar a produção e avalia novas fábricas no Brasil e em Portugal para atender mercados internacionais