Foi um “rigoroso inverno”, mas os sinais da primavera começam a despontar em várias frentes do agro. A analogia climática é de Matheus Ganem, CEO da agtech Seedz, referindo-se a um período de quase três anos em que tempestades financeiras e de mercado castigaram o agro brasileiro – e a uma perspectiva de um tempo mais ensolarado a partir dessa safra.

Enquanto durou o ciclo de baixa, Ganem olhou mais para dentro da empresa, que nasceu como uma plataforma digital de relacionamento entre empresas e produtores rurais e evoluiu para um modelo de software as a servisse (SaaS) voltado para o mercado B2B.

Entre 2023, quando o mercado começou a desacelerar depois de um ciclo de euforia embalado por safras fortes e preços agrícolas generosos, e o início da safra 2026/2027, a Seedz passou por uma importante correção de rota.

Em uma entrevista ao AgFeed há pouco mais de três anos, Ganem falava em internacionalização da companhia, com a América do Norte no horizonte. Desde então, pisou no freio dos planos de expansão global, descontinuou produtos que não emplacaram, reconstruiu as plataformas em uma visão IA-first e redirecionou a aposta internacional para a América Latina — com a Argentina no centro do plano.

O último ano foi particularmente crucial nesse processo. "A gente aproveitou o ano de 2025 para reorganizar a casa e entramos em 2026 crescendo super forte de novo", resume Ganem, em nova conversa com o AgFeed.

Os números contam essa trajetória. Em 2023, a Seedz tinha cerca de 1.800 empresas cadastradas, 100 contratos recorrentes e 100 mil produtores na base. Hoje, são mais de 3 mil empresas usando a plataforma, mais de 200 contratos diretos, mais de 150 mil produtores rurais cadastrados e mais de 25 mil profissionais — majoritariamente vendedores — que usam o sistema diariamente, somando mais de 180 mil usuários distintos entre empresas, profissionais e agricultores, segundo dados da própria empresa.

A receita ultrapassa R$ 200 milhões, com crescimento médio acima de 30% ao ano nos últimos três anos — com a exceção de 2025, quando a empresa, como o próprio setor, viveu um ano de ajustes.

"A gente continua crescendo, tem crescido na média, olhando para esses últimos três anos, a mais de 30% ao ano", afirma o CEO, que credita a resiliência a uma decisão estratégica. "Mas a gente entendeu que o que vinha nos levando à vitória no passado não ia ser necessariamente o que garantiria o futuro."

O ponto de inflexão veio das aquisições. Até meados de 2023, a Seedz havia comprado três startups — a Gaivota, adquirida da gestora Mandi, de Antônio Moreira Salles e Julio Benetti, a Atomic Agro e a Perfarm — apostando que conseguiria levá-las para uma base maior de agricultores que usavam os programas de relacionamento da plataforma.

O resultado ficou aquém do previsto. "Várias dessas soluções funcionaram aquém do que a gente esperava. Teve uma baixa adoção em escala, especialmente os produtos desenvolvidos exclusivamente para produtores que vieram dessas aquisições", admite Ganem.

Diante disso, a empresa pivotou. Ao invés de insistir nas soluções voltadas diretamente ao agricultor, a Seedz "dobrou a aposta" nas soluções B2B para as empresas do agro.

O caso mais emblemático dessa reorientação é a Gaivota. O produto original, com foco ancorado em dados amplos do setor e forte componente ambiental, foi transformado em um produto de inteligência territorial com foco comercial, relançado há um ano com o nome de Seedz Atlas.

A nova versão mapeia propriedades e dados públicos usando imagens de satélite e modelos proprietários de identificação de culturas, entregando às empresas o caminho de leads que precisam trabalhar em cada região, incluindo informações de market share e presença de concorrentes.

"Se você for contratar um CRM para ter uma visão de expansão territorial, você vai ter que fazer todo o preenchimento das informações sobre o seu cliente", explica o CEO. "Aqui não, já te dá uma base de inteligência territorial".

Segundo Ganem, os resultados foram expressivos. Ele afirma que o Seedz Atlas já é utilizado por mais de 100 empresas e cresce 30% ao mês, com cases que vão de grandes marcas como John Deere e Coopercitrus — que, segundo Ganem, usou a ferramenta para "revisitar mais de 20 anos de estratégia de CRM" — até consultores independentes que atendem um punhado de municípios.

Outra analogia que o próprio time adotou, brincou o CEO, é a de um "Waze do agro", já que o produto oferece "uma visão sobre o melhor destino ou a melhor rota para aquele destino, com o foco menos no caminho e mais no que existe dentro dele".

As outras duas aquisições tiveram destinos distintos. A Atomic Agro, aplicativo de informações diárias com cotações, clima e rede social voltado ao dia a dia do produtor, foi descontinuada. "A gente percebeu que ele tinha um churn muito alto. O produtor se interessava, mas ele não tinha conteúdo suficiente para continuar", justifica Ganem.

Já a Perfarm, solução de gestão para fazendas, segue viva, mas em processo de reavaliação. Após escalar com dificuldade e enfrentar o mesmo problema de desistência pelos clientes, o produto está sendo otimizado em conjunto com consultorias e deve ser relançado em breve.

"A gente acredita que pode ajudar o agricultor e esse é um produto que a gente ainda aposta nele", afirma o CEO, vendo nas fazendas brasileiras espaço para melhores decisões de gestão.

Recalculando rotas

A outra grande mudança foi geográfica. Em 2023, a Seedz já tinha registrado uma empresa nos Estados Unidos, com planos de operar no mercado americano. A crise do agro brasileiro, primeiro nos insumos e depois nas máquinas, mudou a rota da empresa.

"A gente acabou vendo a situação no Brasil e o quanto teve que se reorganizar por aqui, e acabou postergando esses planos para fora. Acho que essa foi a principal mudança mais radical", diz Ganem.

A empresa manteve a estrutura nos EUA, mas sem operação com clientes, e concentrou a internacionalização na América Latina. Hoje, roda com clientes em todos os países, da Argentina ao México, com pelo menos duas safras de operação de teste em cada um.

O modelo utilizado nesses países é semelhante com o brasileiro, atendendo clientes como a John Deere e suas concessionárias na região. "Estamos voltando a estudar o mercado americano, mas o fato da crise, especialmente no mercado de insumos nos primeiros anos e agora também máquinas no Brasil, fez com que a gente adotasse uma estratégia mais conservadora", explica.

O movimento para fora das fronteiras brasileiras, segundo Ganem, foi em parte puxado pelos próprios clientes. Multinacionais que usam a Seedz no Brasil começaram a provocar a empresa com um problema comum em toda a América Latina: a dificuldade de se conectar com os dados do agricultor na ponta, com distribuidores e concessionárias operando sistemas antigos e estruturas de CRM pouco robustas.

"A gente ouviu muito essa provocação dos clientes ", conta o CEO, lembrando que o momento de mercado também ajuda. De acordo com Ganem, depois de duas décadas focadas em abrir território, as empresas agora precisam otimizá-lo — e é aí que o gap de dados faz diferença.

Caio Hosken Melo Macedo, diretor de Marketing da Seedz, que participou da conversa, resume o espírito: "A gente gosta de falar que o propósito não para na fronteira."

Dentro da América Latina, a Argentina é o grande foco de 2026. "Acreditamos que é um momento interessante para a escala, assim como outras empresas do agro. Tem um momento positivo em termos de safras", diz Ganem, reconhecendo os desafios econômicos do país vizinho, mas vendo uma janela propícia para a adoção de tecnologia.

O Paraguai também está no radar, com momento macroeconômico interessante, e a empresa planeja expandir para mais países nos próximos anos.

Lição de casa

Antes de entrar em novos mercados, porém, a Seedz fez o dever de casa. "A gente fez uma análise de go-to-market profunda para entender onde estão as maiores conexões, quais são as maiores dores do mercado, e a gente entendeu que a dor do mercado argentino é muito similar ao que a gente tem no Brasil", explica o CEO.

A velocidade de adoção de tecnologias, entretanto, ainda é diferente nesses novos mercados. "O Brasil está um pouco mais preparado, sobre o ângulo de uso de dados, tem mais maturidade", avalia Ganem, que vê nos demais países latino-americanos um espaço de maturação tecnológica maior.

A visão das empresas, analisa, passa pelas mesmas necessidades. Segundo ele, digitalização e inteligência artificial dominam as conversas em congressos na Argentina e visitas a empresas no Paraguai.

"A informação está muito equiparada. A pauta é bem uniforme em termos de evolução digital, mas com desafios, talvez, de maturidade um pouco diferente", pondera.

O peso internacional nos negócios da Seedz ainda é pequeno — cerca de 5% do negócio —, mas a meta é ambiciosa. "A gente espera que nos próximos dois ou três anos chegue em 15 a 20% do negócio."

No Brasil, a Seedz também se reinventou no modelo comercial. O marketplace, que em 2023 era tratado como uma das vitrines da empresa, foi reposicionado como funcionalidade do programa de relacionamento.

"A gente não tem e não pretende ter um marketplace independente de venda de insumos", afirma Ganem. A novidade mais recente é a versão white label da plataforma, lançada em meados do ano passado.

Assim, empresas de todos os portes podem usar a tecnologia da Seedz para construir seus próprios programas de relacionamento e estratégia de dados, com investimentos mais dosados.

"Eu brinco que começar a usar uma tecnologia da Seedz é mais barato do que contratar analista júnior ", diz o CEO, citando a adoção por grupos regionais e a lógica por trás do modelo.

"É como se você quisesse montar um programa de relacionamento e aderisse à Livelo, do Banco do Brasil. Se você não tiver uma escala muito grande, você vai ficar escondido dentro daquele programa. Às vezes faz sentido montar uma coisa sua, menor, com as suas vantagens competitivas naquela região."

A tese central de Ganem é que tecnologia boa sobrevive a qualquer cenário. "Tecnologia boa normalmente ultrapassa as vendas do cenário de curto prazo. Ninguém parou de usar o Google porque o Brasil está em crise econômica, ou a Meta, o WhatsApp, ele é atemporal. O iPhone não diminuiu as vendas porque um determinado país está em crise", argumenta, lembrando que a própria Seedz nasceu em ano difícil, em 2018, e cresceu no ritmo clássico das startups de alto crescimento até o agro esfriar.

"A gente precisou se reinventar nesse processo e gastou um ano e meio, exatamente, reconfigurando a empresa para crescer, mesmo em momentos de crise. É o que está acontecendo esse ano", afirma.

A fidelidade da base é outro dado que o CEO destaca. "Desde o dia que a empresa nasceu, em termos de receita, a gente perdeu menos do que 4% de receita ao longo dos anos de clientes que desistiram da Seedz", revela.

"Em geral, o cliente que não continua usando foi porque a gente fez uma oferta equivocada para o momento", afirma. Na média, de acordo com Ganem, os clientes crescem o uso da plataforma acima de 15% ao ano, com casos de empresas que triplicaram, dobraram ou quadruplicaram o uso, inclusive em meio a quedas de vendas.

Nova rodada no radar

No front financeiro, o CEO diz que a Seedz já atingiu o breakeven e vem crescendo forte. Ganem sinaliza que, com esse cenário, uma nova rodada de investimento pode estar próxima.

A mais recente aconteceu em 2022, com investidores como 10B, Alexia, Volpi, Vox e The Yield Lab no capital, além de nomes que entraram junto com as aquisições, como Mandi e Valor Capital.

"É provável que a gente olhe para uma potencial rodada de investimento em breve, possivelmente no ano que vem ou ainda neste ano, à medida que a escala consistente e as receitas previsíveis retornem", diz.

"A Seedz é uma empresa venture-backed, já investida. Então, o ciclo natural para a gente é, em tendo o caminho para acelerar crescimento, usar do mecanismo de atrair investidores".

Para o futuro, Ganem mantém o otimismo com o agro, mesmo com todos os desafios. "Estamos vendo uma janela futura interessante para o agro, mesmo no Brasil, mesmo com todos os desafios. E, olhando globalmente, a gente acha que o espaço em que a gente pode gerar muito valor existe".

Resumo

  • Seedz reorganiza a operação após a crise do agro e reforça o foco em soluções B2B, dados e inteligência artificial
  • Agtech descontinuou produtos, reposicionou aquisições e transformou o Seedz Atlas em ferramenta de inteligência territorial
  • Argentina lidera a expansão internacional, enquanto a Seedz avalia nova rodada de investimento após atingir o breakeven