Produtor rural e sócio da Enin Cafés Especiais, Enison Lopes, o Enin, tem uma visão clara sobre tamanho da oportunidade que vem da China para o café brasileiro: um gigante adormecido — e em plena expansão — que pode redefinir a demanda mundial pela bebida.

"Se o chinês tomar café, não tem café para mais ninguém beber no mundo inteiro". Afirmou em entrevista ao SpeedCast Andav 2026, iniciativa do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso da Andav.

O cafeicultor, cuja família atua no setor há mais de 100 anos, defendeu que o Brasil, maior produtor do mundo, precisa aproveitar essa onda e, sobretudo, construir uma narrativa de qualidade para o produto nacional — tanto lá fora quanto dentro de casa.

Herdar uma tradição centenária não foi, para Enin, motivo de repetição, mas de reinvenção. Ele contou que sua família cultiva café na região da Alta Mogiana, com a propriedade no município de Restinga. Aos 24 anos, ele decidiu "transformar essa cafeicultura, sendo disruptivo, levando café para o mundo todo ".

Nasceu daí a Enin Cafés Especiais, com uma metodologia própria batizada de "cafeicultura do futuro", ancorada em sustentabilidade, conhecimento social e ambiental da família e tecnologia. "Transbordando, honrando e servindo café para o mundo todo, contando essa história", resumiu.

Para explicar o que torna um café especial, o produtor recorreu à referência dos sommeliers de vinho: a pontuação da SCA, a associação norte-americana que credencia profissionais para avaliar a bebida em uma escala de 0 a 100.

"Esse café especial tem que beber acima de 80 pontos", disse, citando atributos como doçura, corpo, acidez e umami — o café servido ao vivo durante a entrevista, em um drip coffee de método japonês, levava 84 pontos.

O drip, aliás, é uma das pontas de um negócio que vende café em grão, moído e em outras embalagens, mas que encontrou no método prático um caminho para conquistar o consumidor. "Aonde você chega com o drip coffee, você não sai com menos do que 3, 4, 5 pedidos relevantes para aumentar essa escala", afirmou.

A operação da Enin é de 150 hectares, tocados por ele e a esposa, dentro de um grupo familiar maior, de cerca de 630 hectares. O produtor conta que planta café todos os anos — "porque todo ano nós estamos aprendendo com as nossas fazendas e com todo o nosso ecossistema" —, adotando manejos regenerativos, como uso de biológicos, arborização e sistema agroflorestal sintrópico.

Do que produz, exporta de 30% a 40%, com a intenção de aumentar. Mas o coração, diz, "ferve muito em transbordar e não só exportar os melhores grãos, mas trazer isso para o mercado interno e fazer com que as pessoas possam acessar esses cafés e tomar o que tem de melhor".

É aí que entra o primeiro e maior desafio do setor, na visão de Enin: ensinar o brasileiro a apreciar o café. Ele critica a narrativa, "que em muitas áreas é verdade", de que o Brasil exporta o que tem de melhor e fica com o que tem de pior.

"Isso, muitas vezes, acontece porque falta conhecimento pro consumidor", disse. Para ilustrar, recorreu a uma provocação. Segundo ele, há uma pesquisa que mostra que um dos maiores bebedores de café no Brasil “é o ralo".

"Você já se pegou na sua casa, no seu trabalho, ou viu alguém jogando café, uma garrafa fora, um resto, porque tá frio? Aquilo a pessoa tá rasgando dinheiro, jogando no ralo", afirmou, defendendo que os métodos de preparo ajudam a contabilizar o que se consome.

A torra também entrou na conversa, com uma analogia que o produtor faz questão de repetir: a da carne premiada. "Você chega num restaurante ou vai servir na sua casa, você pergunta pra pessoa qual ponto você quer da carne", disse. "Agora você vai pegar uma carne premiada. Aí você fala para pessoa: tosta, torra, carboniza, queima essa carne, porque eu gosto de uma borracha. Alguém falou já isso pra você?"

Para ele, o hábito do café escuro e queimado "foi adquirido e criado para esconder defeito". Na indústria, uma matéria-prima de péssima qualidade — "ou algo que nem é café, ou é subproduto de café" — é torrada nesse nível para mascarar o problema.

"Ao tomar café preto, você provavelmente não vai estar tomando o melhor café. E longe disso. Você vai estar tomando alguma coisa que é muito ruim ou, às vezes, nem é café", alertou.

O segundo desafio é o reconhecimento da marca brasileira lá fora. Enin contou que a inquietação nasceu em 2017, em uma imersão internacional pelo café, quando ouvia sempre a mesma história: o melhor café do mundo seria de outras regiões.

"Eu falava: não, o melhor café do mundo é do Brasil. Mas ninguém fala isso", disse. A resposta que recebia dos compradores era sempre a mesma: "Não, eu uso o seu café para blend. Você é volume commodity".

Para ele, essa mentalidade "foi praga" e foi aceita pelos próprios produtores. "Como produtor, nós aceitamos essa narrativa", admitiu, antes de apontar o caminho. "Se nós não dermos valor no que nós produzimos, nós não vamos conseguir ter valor. E não tem jeito de ter valor se você não tiver conhecimento."

O potencial da China, para Enin, é "gigantesco" — e não só para o país asiático, mas para o mundo todo. Ele lembra que o Brasil responde por cerca de 40% do market share do café planetário e que deve, por isso, ser o maior beneficiado pela sede cada do consumidor chinês pela bebida.

“Ele está tomando café em crescimento disruptivo." Na avaliação do produtor, o Brasil tem capacidade de escalar o plantio em áreas agrícolas, gerando mais emprego e distribuindo renda, uma característica que ele destaca na cafeicultura, por demandar muita mão de obra em todas as fases.

"Você está sempre com muita gente trabalhando para você e podendo honrá-los", disse.

E a Enin já está se movimentando: durante o próprio evento, contou, nasceu uma parceria com a AgriConnection para a venda ao mercado chinês. "Nosso primeiro parceiro", celebrou, ainda que as ações anteriores com o café na China não tenham sido em grande escala.

Sobre o preço, Enin foi direto ao defender o produtor em uma cadeia cheia de custos invisíveis. Segundo ele, há um entendimento equivocado de que os cafeicultores estão vendendo sua produção por preços elevados.

"O produtor está quebrando e está endividado”, afirmou, lembrando que entre o consumidor e o produtor há uma cadeia grande — frete, impostos, industrialização, logística — e que, no final, "essa conta fica em cima do produtor".

O cenário climático, por sua vez, segue como a grande ameaça: de 2019 a 2024, foram quebras de safra interrompidas por excesso de temperatura, falta de chuva, geada e chuva na hora errada. E o alerta vale para o presente.

"Se esse El Niño de fato vier, vai pegar as principais regiões cafeeiras de calça curta e desprevenida. E isso pode trazer uma outra quebra de safra", disse.

Diferente da soja ou do milho, lembrou, o café é uma cultura perene e não se replanta em 90 dias. E a combinação de clima adverso, juros altos e custos elevados de diesel segue pressionando quem produz.

O recado final de Enin, porém, é de otimismo com consciência. O Brasil tem o produto, a história e a escala para liderar uma nova era do café mundial — desde que o produtor conheça e valorize o que faz, o consumidor brasileiro aprenda a apreciar o que tem em casa e o mundo passe a reconhecer que o melhor café do mundo, afinal, é brasileiro.